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Theodor Wonja, o homem que foi exposto em um zoológico humano

Filho de pai camaronês e mãe alemã, ele foi reduzido em sua vida como "modelo de homem africano", tendo até que trabalhar para o Terceiro Reich

Caio Tortamano Publicado em 10/05/2020, às 10h00

O jornalista e cientista político Theodor Wonja
O jornalista e cientista político Theodor Wonja - Divulgação

Os zoológicos de humanos que faziam parte de um chamado circuito de exposições etnológicas na Europa do início do século 20 demonstravam como as noções de humanidade dessa época eram completamente deturpadas.

Theodor Wonja foi uma dessas exibições que, infelizmente, tiveram sua humanidade quase arrancada por interesses econômicos. Ele é o filho mais novo de um camaronês, que se mudou de seu país para a Alemanha ainda muito jovem.

Em 2013, com 89 anos, lançou um livro contando sobre sua experiência enquanto atração nesses zoológicos. "Nós dançávamos e nos apresentávamos junto com os engolidores de fogo e faquires”, conta Wonja, que aprendeu a odiar essa função desde cedo.

Início

O pai de Theodor quando chegou à Europa ao final do século 19, percebeu que não seria nem um pouco fácil conseguir empregos normais na sociedade branca européia da época. Quando soube que havia vagas para participar dessas exposições etnológicas, pensou em inscrever a si e os filhos — a mãe, que era alemã, não se enquadrava no perfil procurado.

A família de Theodor (sentado ao colo da mãe) / Crédito: Divulgação

 

A rotina era exaustante, eles estavam constantemente em turnês, cada dia em um país diferente realizando diversas apresentações por dia. Pessoas de origem indígena eram comuns nesse tipo de lugar, na equipe de Wonja, inclusive, duas famílias inteiras morreram de varíola ou sarampo.

As exposições, que existiam desde 1874, com o primeiro desses zoológicos humanos sendo aberto na Alemanha — que chegou a ter 400 deles ao mesmo tempo —, expressavam a percepção que os europeus tinham dos africanos, um povo selvagem sem nenhuma educação.

Wonja conta que os visitantes muitas vezes passavam a mão em seu cabelo, e o cheiravam para ver se ela era real. O homem, que cresceu falando alemão, era sempre tratado com um alemão básico ou por meio de sinais — o que ele já considerava ridículo uma vez que era sua língua nativa.

A prática de exibir crianças era comum nesses locais / Crédito: Divulgação

 

Morte dos pais

Na década de 20, porém, sua história ficou ainda mais triste. Sua mãe, que era alemã da Prússia Oriental, morreu, e seu pai não foi considerado apto a criar os quatro filhos — sem nenhuma justificativa razoável para tal. Com isso, os 4 irmãos foram oficialmente adotados pelos organizadores do zoológico humano, se tornando propriedade deles.

As apresentações do grupo vendiam a ideia de como era o estilo de vida típico da África, algo caricaturizado, que não correspondia necessariamente com o que eles viviam, já na década de 1910.

O pai de Wonja faleceu quando ele tinha 9 anos de idade, em 1934. E trabalhou em alguns filmes mudos como figurante, representando um “típico africano”, já que era negro. Depois de ter terminado a escola, Theodor não conseguiu entrar em nenhuma faculdade, vale lembrar que a ideologia racial nazista já estava em crescimento nessa época na Alemanha.

Vida adulta

Depois de ter seu passaporte retirado pelo governo alemão, ele fez diversos filmes para o Ministério de Propaganda do Reich, que tinham como objetivo glorificar a raça ariana em comparação com as demais — como a negra. Apesar da humilhação, era o jeito que eles conseguiam emprego e proteção de terem um destino pior. 

Documento de identificação de Theodor / Crédito: Divulgação

 

Isso não foi suficiente para evitar que fosse mandado para um campo de trabalho forçado em 1943, sendo libertado apenas em 1945 com ajuda do exército soviético. Com a liberdade, se mudou para Hamburgo e depois para Paris para se formar em ciência política com graduação em economia, coisas que ele só conseguiu graças ao fim da guerra.


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