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Thomas Blanton, membro da KKK que bombardeou uma igreja frequentada por negros, morre aos 82 anos

Ele foi o último sobrevivente entre os três supremacistas que foram condenados pela morte de quatro meninas em 1963 — o caso foi um ponto de virada na luta pelos direitos civis dos negros

Fabio Previdelli Publicado em 30/06/2020, às 13h00

Uma das últimas fotos tiradas de Thomas Blanton
Uma das últimas fotos tiradas de Thomas Blanton - Divulgação

Thomas E. Blanton Jr., o último sobrevivente entre os três membros da Ku Klux Klan que foram condenados no atentado à igreja que matou quatro meninas negras em 1963, em Birmingham, Alabama, morreu na prisão na última sexta-feira, 26, informou o The New York Times. Ele tinha 82 anos.

O Departamento de Correções do Alabama não especificou a causa da morte, mas disse que Blanton não tinha o vírus Covid-19. A morte do supremacista foi anunciada pelo escritório do governador do Alabama, juntamente com uma declaração sobre o trágico bombardeio de 1963.

A Igreja Batista da 16th Street, em 2005 / Crédito: Wikimedia Commons

 

"Foi um dia sombrio que nunca será esquecido na história do Alabama e na nossa nação", disse a governadora Kay Ivey no comunicado. "Embora sua morte nunca alivie totalmente a dor ou restaure a perda de vidas, oro em nome dos entes queridos de todos os envolvidos que todo o nosso estado possa continuar dando passos adiante para criar um Alabama melhor para as gerações futuras."

Relembre o atentado

Em 15 de setembro de 1963, uma bomba explodiu na Igreja Batista da 16th Street, que era um centro de atividades de direitos civis em Birmingham, predominantemente frequentado por afro-americanos. Dentro do local, um grupo de jovens negras estavam se preparando para o programa da juventude.

Na ocasião, quatro delas morreram na explosão (três delas tinham 14 anos: Addie Mae Collins, Carole Robertson e Cynthia Wesley; e uma tinha 11 anos: Denise McNair). Além das vítimas fatais, pelo menos outras 14 meninas ficaram feridas, incluindo a irmã de uma das meninas falecidas, Sarah Collins Rudolph — que perdeu a visão do olho direito e ainda teve que conviver com fragmentos da explosão alojados no olho esquerdo, peito e abdômen por décadas.

Carole Robertson (14), Carol Denise McNair (11), Addie Mae Collins (14) e Cynthia Wesley (14) / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mais tarde, foi descoberto que o ataque foi orquestrado por quatro membros da Ku Klux Klan. O ato terrorista foi um divisor de águas para o movimento dos direitos civis da época, atraindo um apoio crescente ao esforço dos ativistas para revogar as leis de segregação do estado. Com isso, no ano seguinte, em 1964, foi aprovada a Lei dos Direitos Civis, que proibia a segregação racial na educação e no mercado de trabalho.

Investigações

Apesar do importante passo dado naquele ano, a comunidade afro-americana não teve sua voz ouvida quando cobrou da justiça que os responsáveis pelo atentado fossem incriminados. Embora Blanton e os outros membros da KKK tenham sido identificados pela primeira vez como suspeitos em 1965, as investigações sobre o ataque foram paralisadas e permaneceram intocadas por décadas.

O caso só recebeu uma atenção especial quando ativistas negros de Birmingham protestaram contra a injustiça. Assim, em 1977, Robert Chambliss, um dos membros do grupo supremacista branco envolvido no atentado, foi o primeiro entre eles a ser condenado — morrendo em cárcere cerca de uma década depois.

Marcha em memória das vítimas do bombardeio / Crédito: Wikimedia Commons

 

O caso só foi retomado em 1993, quando o promotor Doug Jones, atual senador do Alabama, ouviu gravações do FBI em que Thomas falava sobre suas intenções de bombardear outra igreja.

Além disso, outras informações que também não foram usadas nas primeiras investigações também vieram à tona, como a constatação feita pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos que apontava que o então diretor do FBI, Edgar J. Hoover, que morreu em 1972, havia deliberadamente bloqueado o caso.

Apesar disso, Herman Cash, outro membro da KKK envolvido no atentado, morreu em 1994 sem nunca ser levado a julgamento. Mesmo assim, com todas as novas evidências surgindo, o próprio Blanton só foi julgado sete anos depois.

Na ocasião, Robert Posey, um advogado assistente dos EUA, disse em seus argumentos finais no julgamento: "O réu não se importava com quem ele matou desde que matasse alguém e contanto que essa pessoa fosse negra".

O promotor Doug Jones durante juri em maio de 2002 / Crédito: Wikimedia Commons

 

No final do julgamento, o juiz perguntou a Thomas se ele tinha algum comentário. "Eu acho que o bom Deus resolverá isso no dia do julgamento", respondeu. Ele acabou sendo condenado pelo júri por quatro acusações de assassinato em primeiro grau — o que o fez receber quatro sentenças consecutivas de prisão perpétua.

Após a sentença de Thomas, em 2001, o supremacista branco Bobby Frank Cherry também foi condenado pelo atentado um ano depois, em um julgamento separado. Ele morreu na prisão em 2004, fazendo com que Blanton fosse o último dos envolvidos no ataque a continuar vivo.


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