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Thomas "Pete" Ray, o cadáver que serviu de troféu para Fidel Castro por quase 20 anos

Na tentativa de comprovar a participação ativa da CIA e das Forças Armadas dos EUA na Invasão da Baía dos Porcos, o corpo do estadunidense permaneceu congelado em território cubano por 18 anos

Isabela Barreiros Publicado em 11/01/2020, às 08h00

Guerrilheiros de Fidel Castro na Invasão da Baía dos Porcos
Guerrilheiros de Fidel Castro na Invasão da Baía dos Porcos - Getty Images

Em 17 de abril de 1961, 1.500 exilados cubanos desembarcaram na Baía dos Porcos, no sul de Cuba. O embaixador norte-americano na ONU, Adlai Stevenson, repetia que as movimentações, detectadas meses antes, eram ações de um grupo de “cubanos patriotas”.

A despeito de o New York Times ter publicado em janeiro que a CIA estava treinando cubanos, com apoio das forças armadas norte-americanas, para derrubar o governo de Fidel Castro. Teria havido ainda um comando especial para encontrar Castro e eliminá-lo. Foi a mais conhecida tentativa de derrubar o ditador cubano. O fracasso, porém, foi quase imediato — centenas morreram e o restante foi preso.

Apenas um dos cadáveres voltou para os Estados Unidos — o de Thomas "Pete" Ray. Isso porque ele estava sendo mantido no hospital necrotério do Instituto de Medicina Legal de Havana. Mas porque Fidel Castro resolveu guardar o corpo de um piloto estadunidense?

Manifestação contra a intervenção estadunidense em Cuba / Crédito: Getty Images

 

É simples. A CIA não queria admitir que estava envolvida no acontecimento, não reivindicando nenhum dos corpos dos mortos no conflito. Por isso, muitos deles foram deixados em valas comuns em Cuba, ou até mesmo jogado em pântanos do país.

“O problema para a CIA era criar uma força invasora poderosa o suficiente para vencer... mas não tão forte a ponto de revelar o apoio americano. A invasão, em essência, tinha que ser cubanizada — feita para parecer amadora”, anunciou a Rádio Moscou quatro dias antes da invasão, de fato, acontecer.

Porque Ray? Isso pode ser respondido por Tomás Diez Acosta, pesquisador e guerrilheiro da Revolução Cubana em entrevista à BBC. Segundo ele, “não havia dúvida de que era americano, por ser bastante branco, de olhos azuis, alto”. Havia um outro cadáver que poderia ser congelado, no entanto, isso não aconteceu pois “se pensava que era cubano, por ser mulato, de pele escura”.

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Thomas "Pete" Ray / Crédito: Arquivo de Janet Ray Weininger

 

O estadunidense foi, então, utilizado como troféu e até mesmo prova que o conflito havia sido causado pelos Estados Unidos, que resistiam em admitir tal culpa — e fracasso. O corpo permaneceu em Cuba por 18 anos, até que a filha do combatente decidiu investigar o caso e trazê-lo, com muitas dificuldades, para seu país natal.

"O cadáver de meu pai era uma espécie de troféu para Fidel Castro. Como os EUA negaram por décadas que haviam organizado a operação da Baía dos Porcos, Cuba encontrou nele, que era americano, a prova que de a invasão foi orquestrada aqui", explicou Janet Ray Weininger, filha do militar, à BBBC.

"Fidel sempre soube que ele era americano. O piloto ianque foi a prova direta da participação dos Estados Unidos”, esclareceu Acosta.

Foi apenas em 5 de dezembro de 1979 que os restos mortais de Ray retornaram aos EUA. O então presidente do país, Jimmy Carter foi um dos principais responsáveis por tentar trazê-lo de volta, junto aos esforços da filha do piloto, Janet.

Para manter o corpo congelado e preservado por tanto tempo, Cuba gastou muito, mesmo que a falta de verba estivesse asfixiando o instituto no qual ele estava. Por isso e, talvez, ironia, eles enviaram uma conta de mais de 30 mil dólares, por volta de 123 mil reais, para Janet, alegando que eram as "despesas com a conservação do corpo".

A filha do falecido militar ainda entrou com uma ação contra Castro pela “morte ilícita” de seu pai, e venceu. A CIA, porém, só reconheceria sua participação e a de Rey no episódio anos depois, em 1998.


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