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Tim Lopes: o jornalista que foi julgado, torturado e executado por traficantes do Rio

Em uma tentativa de delatar a exploração de menores em bailes funks, o profissional foi reconhecido por criminosos que o condenaram a pagar as denúncias com a própria vida

Fabio Previdelli Publicado em 14/01/2020, às 15h25

Foto de Tim Lopes
Foto de Tim Lopes - Timlopes.com.br

Gaúcho radicado no Rio de Janeiro, Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento tinha o que muitos chamavam de estereótipo carioca. Sempre sorrindo, ele se mostrava disposto a conhecer cada detalhe de todos os cantos do Rio.

Aliás, deve ser por causa de sua personalidade amistosa e carismática que ele se sentia confortável para sair com moradores ricos do Leblon ou com aqueles que vivam em regiões mais pobres, afinal, cresceu na favela da Mangueira e nunca abandou a comunidade de suas veias.

Apaixonado por samba, anos depois, já como jornalista, Lopes escreveu uma matéria sobre a escola de samba de sua comunidade: a Estação Primeira de Mangueira. Segundo um de seus fundadores, Carlos Cachaça, aquela era "o melhor material que ele já havia visto" sobre a escola.

Realmente, ele era genial. Formado pela Faculdade Hélio Alonso, a FACHA, Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento começou a trabalhar na revista Domingo Ilustrada, do jornalista Samuel Wainer.

Quando ele começou a fazer suas primeiras reportagens na rua, também surgiu a alcunha que o acompanharia e o marcaria para o resto de sua vida: Tim Lopes. O apelido teria sido dado pelo próprio Wainer devido à semelhança do novato jornalista com o cantor Tim Maia.

Tim Lopes fotografado na redação / Crédito: Timlopes.com.br

 

Tim sempre foi conhecido por seu olhar humano e por lutar pelas causas sociais. Sua primeira matéria para o jornal alternativo O Repórter retratava bem isso. A reportagem retratava as precárias condições que os operários da construção do metrô do Rio trabalhavam. Ele sentiu isso na pela. Para produzi-la, trabalhou por um período na construção.

Lopes também era apaixonado por futebol, mais precisamente pelo Club de Regatas Vasco da Gama. Essa paixão pelo esporte o levou até a Revista Placar, emprego no qual foi contemplado com o Prêmio Abril de Jornalismo nos anos de 1985 (com a matéria Tricolor de Coração) e em 1986 (com Amizade sem Limite).

Em sua carreira, ele também trabalhou na sucursal do Rio de Janeiro da Folha de S. Paulo, no Jornal do Brasil, O Globo e O Dia. Neste último, inclusive, se destacou pela série de reportagens intitulada ‘Funk: som, alegria e terror’, no qual mostrava como os cidadãos das favelas do Rio eram submetidos ao terror sob as leis dos traficantes. Ele achava que o governo do Rio cedeu o controle de bairros pobre a traficantes violentos.

Em 1995, foi trabalhar no Fantástico, da Rede Globo, tornando-se produtor do programa no ano seguinte. Seis anos depois, em 2001, Tim e sua equipe recebeu o Prêmio Esso, um dos maiores do jornalismo brasileiro, por uma série de investigações que foi intitulada de Feirão das Drogas.

Usando uma câmera escondida, ele mostrou como traficantes iam às ruas livremente para venderem cocaína aos pedestres. Além dos mais, ele também registrou traficantes desfilando em suas motos enquanto estavam armados com algumas AK-47. O registro foi feito dentro da Grota, uma área conhecida dentro do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A matéria foi ao ar no Jornal Nacional no dia 3 de agosto de 2001. A alarmante reportagem recebeu muita atenção e pressionou a administração política do Rio para agir contra tais atos criminosos.

Imagem do Complexo do Alemão / Crédito: Wikimedia Commons

 

A partir daí, as ações policiais começaram. Primeiro com a repressão de traficantes na favela da Grota e em outras comunidades, que foram impedidos de venderem drogas nas ruas e, depois, com a apreensão de alguns deles, dentre os quais estava Ratinho.

Obviamente, a alta cúpula do tráfico não ficou nada contente com a diminuição das vendas e com a prisão de alguns membros de suas facções.


A última matéria de Tim Lopes

Na tarde do dia 2 de junho de 2002, Tim saiu de seu apartamento em um bairro de classe média de Copacabana, no Rio de Janeiro, e foi até os escritórios da Globo. Tim ficou sabendo que um grupo de traficantes que comandava a favela de Vila Cruzeiro realizaria um baile funk naquela noite e que, durante a festa, eles promoveriam a prostituição infantil.

Durante décadas, a comunidades mais pobres do Rio foram negligenciadas pelas autoridades, que as considerava como lugares fora do controle do Estado. Com essa lacuna, o trafico e a venda de drogas se espalhou pelos locais. Além dos entorpecentes, os bailes funks também eram regados com a exploração de meninas menores de idade, que eram obrigadas a fazerem sexo em público.

Tim foi informado que as meninas que não participassem dos bailes, seriam alvo de represálias depois. "Tim Lopes foi chamado porque não havia ninguém para ouvir seus problemas. A comunidade contou muitas vezes à polícia e nada foi feito", relatou Nassif Elias Sobrinho, presidente do sindicato de jornalistas do Rio.

Com uma câmera escondida em um pacote em sua cintura — e sem celular, carteira e a camisa social que ele havia deixado na Rede Globo — Lopes foi fazer imagens ao longo da Rua Oito, na Vila Cruzeiro. Ele tinha o objetivo de gravar imagens de traficantes com drogas e armas, assim como havia feito em 2001 na favela da Grota. Posteriormente, foi descoberto que Tim havia filmado a Vila Cruzeiro em três ocasiões antes daquela noite.

Tim estava na calçada de um bar, onde havia comprado uma cerveja, quando foi abordado por André da Cruz Barbosa, o André Capeta, e Maurício Lima Matias, o Boizinho. Os traficantes foram alertados por um menino que havia visto uma pequena luz vinda da cintura do jornalista.

Ao ser confrontado, Tim Lopes revelou ser jornalista, mas com estava sem credencial, acabou sendo espancado. Os traficantes que o abordaram entraram em contato com o chefe do narcotráfico do local, Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco.

Eles receberam ordens para levá-lo até o topo da favela da Grota. O jornalista ainda foi alvejado por tiros em seus pés ou pernas antes de ser jogado no porta-malas de um carro. Atravessando cerca de 5 quilômetros de favela adentro , Tim foi ne sede do tráfico, onde Elias Maluco o estava esperando.

Foto de Tim Lopes / Crédito: Timlopes.com.br

 

Lá, ele foi reconhecido por Cláudio Orlando do Nascimento, o Ratinho, aquele mesmo que foi preso devido à reportagem produzida por Tim há pouco mais de um ano. O jornalista foi levado para a Pedra do Sapo, onde foi amarrado em uma árvore.


O brutal assassinato de Tim Lopes

Convencido de que o jornalista era o mesmo Tim Lopes que fez o relato que interferiu nos lucros do tráfico, Ratinho insistiu que a única maneira de Tim reparar o prejuízo da facção seria pagando com a própria vida. Lopes até tentou implorar, mas seu destino já estava traçado.

O ritual de assassinato do jornalista havia começado: ele teve seus olhos queimados com um cigarro e, depois, Elias Maluco cortou suas mãos, braços e pernas com uma espada de samurai enquanto Tim ainda estava vivo. Os restos da carnificina foram colocados em vários pneus que haviam sido embebidos de diesel. O fogo incinerou tudo o que sobrou de Tim. O macabro processo era chamado de micro-ondas.

A investigação começa

O detetive Daniel Gomes logo começou a juntar as peças do quebra-cabeça sobre o desaparecimento de Tim. Ele foi informado por lojistas da Vila Cruzeiro que ele havia chegado ao complexo na parte da tarde e que, por volt das 20h, ele foi abordado por traficantes.

Gomes também descobriu que antes de entrar na favela, Lopes havia combinado com um motorista que o esperava do lado de fora de lá. Incialmente, o jornalista havia pré-determinado um horário para eles se encontrarem, o que não aconteceu. O motorista esperou até 00h e então ligou para a Rede Globo para informar o acontecido. A emissora, por sua vez, esperou o prazo de 11 horas até contatar a polícia.

Quando o detetive esteve na Vila Cruzeiro, ele ouviu os relatos chocantes de moradores sobe um homem que havia sido sequestrado e espancado por alguns traficantes. Eles também disseram que a pessoa foi levada até o topo do morro e que ele teria sido incinerado no ‘micro-ondas’.

Gomes chegou até a área e encontrou vestígios recentes de pneus queimados, sangue fresco e restos humanos. Aquele cenário parecia ser o ponto final de Tim Lopes, mas testes de DNA descobriram que os restos não eram de Tim.

Após alguns dias de investigação, dois traficantes suspeitos foram presos. Ambos faziam parte da gangue de Elias Maluco e relataram todo o curso do assassinato de Tim, afirmando que Elias Maluco era o principal responsável pelo crime.

O detetive passou a procurar a Grota e a Pedra do Sapo em busca dos restos de Tim. Após uma denúncia anônima, no dia 11 de junho, ele descobriu o túmulo secreto perto de um campo de futebol.

Além do corpo de Tim, o local também abrigava os ossos de outros indivíduos, e o relógio de pulso do jornalista, seu crucifixo e também a pequena câmera que ele usou. E também o que restou de uma espada queimada.

Tim Lopes / Crédito: Wikimedia Commons

 

O relatório final de Daniel Gomes, que teve mais de 658 páginas, revelou que Tim não havia filmado o baile funk na Vila Cruzeiro, mas sim que ele havia gravado criminosos traficando drogas e carregando armas.

O chefe de Tim na Globo disse que o jornalista estava investigando uma matéria sobre a exploração de menores nos bailes funk, e que ele teria tentado obter as imagens se ele não tivesse sido abordado mais cedo.

Em resposta ao relatório, o Jornal Nacional publicou uma resposta criticando o parecer de Gomes. O programa ainda afirmou que as imagens feitas por Tim foram destruídas no micro-ondas e que o jornalista foi produzir a matéria devido aos pedidos de ajuda que recebeu de moradores da comunidade.

Os restos mortais de Tim Lopes foram enterrados no dia 7 de julho no cemitério Jardim da Saudade, no subúrbio carioca de Sulacap. A cerimônia teve a presença da governado do Rio na época, Benedita da Silva.

A prisão dos responsáveis

Após três meses de intensa pressão sobre as autoridades cariocas, Elias Maluco foi capturado na Favela da Grota em 19 de setembro de 2002. Três anos depois, em 15 de maio de 2005, ele foi condenado a 28 anos e meio de prisão.

Imagem da prisão de Elias Maluco / Crédito: Wikimedia Commons

 

Claudino dos Santos Coelho, o Xuxa, e Cláudio Orlando do Nascimento, o Ratinho, foram condenados a 23 anos e seis meses de prisão, assim como Elizeu Felício de Souza, o Zeu, responsável por atear fogo nos restos do jornalista. Já Ângelo Ferreira da Silva, o Primo, foi condenado a nove anos.

André da Cruz Barbosa, o André Capeta; Flávio Reginaldo dos Santos, o Buda e Maurício de Lima Matias, o Boizinho, foram mortos em confrontos com a polícia.


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