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Tiroteio e morte: Como o impeachment de Muniz Falcão terminou em caos

No dia 13 de setembro de 1957, deputados de apoio e da oposição de Falcão protagonizaram um dos episódios mais vergonhosos e sangrentos da política brasileira

Fabio Previdelli Publicado em 06/12/2020, às 10h00

O governador Sebastião Marinho Muniz Falcão
O governador Sebastião Marinho Muniz Falcão - Wikimedia Commons

Em nossa cultura popular, a sexta-feira 13 é um dia de muita superstição. Para muitos a data é sinônimo de azar. Existem até muitas lendas que corroboram com isso. Crendo nisso ou não, fato é que o dia também marca um importante episódio em nossa política. 

Na ocasião em questão, em setembro de 1957, deputados da Assembleia Legislativa de Alagoas se reuniram para votar o impeachment do governador Muniz Falcão. Mas o que aconteceu no fim naquela sessão ultrapassou o campo partidário e se tornou uma verdadeira guerra.  

Além de ser a única vez na história que um governador sofreu um impeachment, o episódio também ficou marcado por agressões e tiroteios, se tornando um dos mais repugnantes da política brasileira. No final, uma pessoa morreu e outras oito foram baleadas. 

O contexto político 

Em 1955, Sebastião Marinho Muniz Falcão foi eleito governador de Alagoas. O Político fazia parte do Partido Social Trabalhista (PST), que era forte apoiador de Getúlio Vargas e Leonel Brizola, além de ser muito ligado às reinvindicações populistas e dos trabalhadores.  

Além disso, a política de Falcão também era apoiada pelo Partido Comunista, embora o governador não se considerasse um. Apesar de lutar pela parte mais pobre do Estado, suas ideias não eram muito bem recebidas pela elite, representada, principalmente, pela União Democrática Nacional (UND) — muito mais conservador.  

A oposição de Muniz também era bem forte dentro da câmara dos deputados. Afinal, 22 deputados estaduais eram contra ele e apenas 13 estavam a seu favor. Havia um sinal bem claro de que o Estado passava por uma grande crise política.  

Mas o que levou a irritação da burguesia foi um golpe no bolso: Falcão criara um novo imposto sobre a produção da cana-de-açúcar no estado. 

O caos

Apesar de pano de fundo, o documento oficial do processo de impeachment alegava que o governador ameaçava opositores e fazia vista grossa para a violência política da época. Vale ressaltar que, antes do pedido, um deputado contrário à Muniz foi assassinado.  

O processo, ao todo, demorou seis meses, que culminaram naquele 13 de setembro de 1957. Munidos de pistola e até de metralhadora, por cerca de 10 minutos, mais de 1.200 balas foram disparadas.

Na troca de tiros, Humberto Mendes, cunhado de Muniz e deputado, acabou sendo alvejado e faleceu. Outras oito pessoas acabaram baleadas e dezenas (entre políticos, funcionários locais e jornalistas) ficaram feridos.  

O mais curioso de tudo é que a confusão não ocorreu por mera casualidade, tudo já estava ‘programado’. Quando os 35 deputados se encontraram, eles já sabiam que o tiroteio aconteceria. Mais cedo, naquele dia, sacos de areia foram instalados no salão, como se fossem trincheiras. Além do mais, a porta da câmara foi lacrada por um funcionário.  

Do lado de fora, capangas estavam armados fazendo a ‘proteção’ do local, impedindo que qualquer pessoa se aproximasse. E não era só os deputados que sabiam da confusão. Todos tinham consciência do que aconteceria mais tarde, tanto é que o comercio fechou mais cedo, ônibus pararam de circular e as pessoas se recolheram em suas casas.  

Por fim, o episódio acabou ganhou holofote nas mídias brasileiras — e internacionais. Assim, Juscelino Kubitschek, presidente na época, decretou intervenção federal. Fazendo com que o Exército garantisse o mínimo de ordem no Estado.  

Assim, uma semana depois, a votação aconteceu e Muniz Falcão finalmente sofreu impeachment. Porém, pouco depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) reverteu a decisão alegando que os deputados apoiadores do governador não participaram do pleito. Como consequência, uma comissão mista foi formada e Falcão foi absolvido. Ele reocupou o cargo em 1958 e ficou por lá até 1961. 


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