Matérias » Personagem

Tommaso dei Cavalieri, o amor secreto de Michelangelo

O moço tinha 23 anos quando conheceu o célebre artista — que o amou profundamente, chegando a eternizá-lo em suas obras e poesias

Vanessa Centamori Publicado em 13/04/2020, às 13h50

Retrato feito por Michelangelo com base nas feições de Tommaso dei Cavalieri
Retrato feito por Michelangelo com base nas feições de Tommaso dei Cavalieri - Divulgação

Já estava começando a esfriar, entre o outono e inverno de 1532 - época em que Michelangelo Buonarroti passava uma temporada em Roma. O pintor já estava amadurecido, no auge de seus 57 anos. Até que sua vida amorosa, e consequentemente sua obra, mudaram completamente com uma nova inspiração: a de um belo homem, trinta anos mais jovem. 

O rapaz se chamava Tommaso dei Cavalieri e era um nobre e colecionador de arte. Ele logo se tornou um grandioso muso para o gênio do renascimento. Foi objeto não apenas de sua afeição, mas assunto para os poemas e inúmeros trabalhos artísticos de Michelangelo. 

Obras com sinais da paixão 

O relacionamento entre Michelangelo e dei Cavalieri é tema do artigo Beyond the Binary, do professor de Arte e História, Victor Coonin, do Rhodes College, nos EUA. Em sua pesquisa, Coonin conta que em 1533, apenas um ano após conhecê-lo, Michelangelo já começou a presentear o amado com suas obras. 

Punição de Tityus, de autoria de Michelangelo / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Entre elas, estavam O Rapto de Ganimedes e Punição de Tityus. Ambas pinturas, segundo o historiador, apontam que o pintor tinha uma alma apaixonada, porém estava sob uma enorme tortura: a dificuldade de se assumir homossexual.

Casamento de Fachada

Apesar de já estar envolvido amorosamente com Michelangelo, em 1544, Tommaso dei Cavalieri guardou aquilo em segredo e se casou com Lavinia della Valle, em Roma. O casamento com a mulher foi realizado para selar uma tradição entre as famílias de dei Cavalieri e da moça. 

Como resultado, o casal teve dois filhos, Mário e Emilio - o último, que se tornou um compositor famoso. O casamento entre o amante de Michelangelo e Lavinia della Valle durou nove anos, até o falecimento da mulher. 

O Rapto de Ganimedes, de autoria de Michelangelo / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Desenhos com significado 

Em novembro de 1545, o crítico de arte Pietro Aretino, que era conhecido por ser homossexual, criticou o trabalho de Michelangelo na Capela Sistina e sua explicitude. “Mesmo se são divinos, você não faz desdém de figuras masculinas”, comentou o especialista. 

Acredita-se que dois dos homens representados nus na Capela eram amantes de Michelangelo - sendo um deles Tommaso dei Cavalieri. O rapaz, em retorno, apreciava muito as obras do artista famoso. Um de seus desenhos, que ilustrava Cleópatra, tinha inclusive uma conexão para homenagear dei Cavalieri.

O desenho, no entanto, era uma encomenda e teve que ser entregue a Cosme I de Médici, o segundo Duque de Florença. Quando isso ocorreu, o amado de Michelangelo teria ficado de coração partido. Em 1562, dei Cavalieri escreveu que lamentava aquilo como se chorasse pela perda de uma criança. 

Cleópatra ilustrada por Michelangelo / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Michelangelo também fazia uma série de desenhos para dei Cavalieri com o uso de giz preto e vermelho. A ideia era produzir rascunhos de cabeças para fazer com que o parceiro aprendesse a desenhar. A identificação de alguns dos rascunhos, no entanto, permanece uma especulação, já que alguns pesquisadores duvidam que eles sejam realmente de autoria do célebre artista. 

Versos para o amado

Michelangelo escreveu mais de 300 versos para Tommaso dei Cavalieri e mais outros 50 para outro de seus amados, Ceccino dei Bracci. Em sua poesia, o artista aparece como um eu-lírico culpado, que relaciona suas paixões homossexuais ao pecado. 

Em um de seus poemas dedicados a dei Cavalieri, o gênio da arte diz: “O amor me leva em cativeiro / a beleza une minha alma / Piedade e misericórdia com seus olhos gentis”. Em outra poesia, chamada Bicho da Seda, ele conta ainda que queria ser peças de vestuário para cobrir o corpo nu de Tommaso dei Cavalieri.

O relacionamento entre Michelangelo e Tommaso dei Cavalieri durou até a morte do gênio da arte, em 18 de fevereiro de 1564. O amor de sua vida faleceu somente vinte e três anos depois, em 1587. 

Toda a obra poética que mostra o lado homossexual de Michelangelo só veio à tona após ela deixar de ser censurada em uma publicação de 1892, do poeta John Addington Symonds. Antes, os versos que falavam sobre homens haviam sido todos escondidos: os pronomes masculinos foram trocados por femininos, pelo próprio neto do artista, em uma versão anterior, de 1623.


+Saiba mais sobre Michelangelo por meio das obras disponíveis na Amazon:

Michelangelo. Obra Completa de Pintura, de Frank Zollner (2017) - https://amzn.to/3bKesWV

Michelangelo - Uma Vida Épica, de Martin Gayford (2015) - https://amzn.to/2SDpdTu

Michelangelo, de Nadine Sautel (2009) - https://amzn.to/38E8c17

A Civilização do Renascimento, de Jean Delumeau (2007) - https://amzn.to/2vH04hG

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Aproveite Frete GRÁTIS, rápido e ilimitado com Amazon Prime: https://amzn.to/2w5nJJp

Amazon Music Unlimited – Experimente 30 dias grátis: https://amzn.to/2yiDA7W