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Tragédia de Khodynka: Há 124 anos, a coroação de Nicolau II resultava em uma gigantesca catástrofe

O trágico evento foi praticamente o presságio do desastroso governo do czar, marcado pelo autoritarismo contra manifestações populares

André Nogueira Publicado em 18/05/2020, às 07h00

Espectadores em Khodynka
Espectadores em Khodynka - Wikimedia Commons

A coroação do czar russo Nicolau II pareceu um presságio e uma anunciação da tragédia que seria seu reinado, marcado como o último do país antes da grande Revolução que derrubou a monarquia. Reunindo milhares em Moscou, o evento iniciou como uma grande festa, mas acabou em uma tragédia assassina: ficou conhecido como a Tragédia de Khodynka.

O caso ocorreu em 18 de maio de 1896, na ocasião da celebração por conta de coroação do imperador, quatro dias após o evento. Uma festa popular se formou no campo de Khodynka, na região noroeste de Moscou, onde o governo realizou um banquete público em comemoração ao novo líder. O local ficou lotado com tantas pessoas que, em meio ao aumento da pobreza na Rússia, ouviram rumores sobre o vasto jantar que seria empreendido pelo czar.

Porém, as promessas de ricos presentes acabaram em decepção: na verdade, havia apenas um jantar comum distribuído individualmente, com pão, um pedaço de salsicha, frutas secas, um biscoito e uma caneca de metal comemorativa. Mesmo o local da celebração estava deplorável, cheio de irregularidades no chão que não foram reformadas pela organização.

A festa foi marcada pela morte / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, o clima manteve-se de festa, pois o povo comemorava o sucesso de mais um czar, jovem e bonito. Fora divulgado que o banquete seria seguido por uma peça de teatro e o lançamento de balões. Uma série de fontes foi instalada para a distribuição de bebidas à vontade. O povo esperava com grande ânimo.

Na manhã daquele dia, mal começada a festa, já havia 400 mil russos a espera da celebração. A ansiedade pelo evento fez com que muitas pessoas forçassem a abertura dos portões do campo mais cedo, pois estavam acampando no local desde a madrugada anterior. Um clima de euforia e histeria se alastrou, e os funcionários do palácio começaram a gritar para que a população se acalmasse.

Ocorreu uma invasão coletiva ao campo de Khodynka, em uma cena de empurrões, pisoteamentos e tapas. Ao mesmo tempo, a guarda do czar também inciou agressões contra a população, na esperança de impedir a desobediência. Tiros de armas de fogo também foram utilizados na ocasião.

Campo de Khodynka hoje / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma série de tapumes usados como barreiras nos poços da região cederam com a força da multidão, e muitas pessoas começaram a cair no interior das estruturas. A histeria coletiva tomara a situação, e diversas pessoas acabaram pisoteadas, baleadas ou violentadas.

Diante do caos, os bombeiros e o Exército foram acionados para resgatar os feridos, sendo que cerca de três mil pessoas foram auxiliadas nos poços e a contabilização de mortes ainda é uma dúvida. Porém, a situação da fome no país era tão grave que, mesmo no caso das diversas mortes, milhares de russos mantiveram-se no campo, se alimentando.

Com o corrido, uma série de discussões se iniciou para que se atrelasse uma responsabilidade pelas, pelo menos, 1.300 mortes. Muitos alegavam que o culpado era Nicolau II, que permitira a negligencia da guarda e da organização, outros atribuíam pelo homem indicado para a realização do banquete, o conde Vorontsov-Dachkov. Já os policiais atribuíram ao grão-duque Serge Alexandrovich a responsabilidade, por sua participação na elaboração da festa.

Por mais que Nicolau II tenha defendido o duque, atribuindo a culpa para a baixa nobreza local, o povo nunca mais perdoou a corte russa pelo acontecido. Uma gigantesca mobilização popular começou uma campanha de culpabilização a Serge e Nicolau, que a polícia do czar não conseguiu deter.

Czar Nicolau II / Crédito: Klimbim

 

Pessoas ligadas ao obscurantismo, à astrologia, cartomantes, místicos e videntes começaram a atribuir a Tragédia de Khodynka a um mau presságio de que o futuro da monarquia Romanov seria conturbado. No final, o fato era correto: aquele foi o início do fim do absolutismo russo, que acabara em 1917, após uma série de tragédias autoritárias comandadas pelo novo czar.

Nicolau II ficou conhecido na história russa como um mal governante, responsável por uma série de decisões desastrosas que levaram o povo à miséria e à guerra, fazendo com que a sociedade chegasse a seu limite e se rebelasse contra a mais antiga dinastia do mundo (existente desde o século16). O ocorrido em Khodynka foi, no final, uma ilustração da falta de organização e da violência de um governante despreparado, que esperava ser um intelectual da nobreza, mas acabou com a coroa na cabeça.


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