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Que fim levou o “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa?

Eternizada no samba, a linha que passava por Jaçanã ajudou a construir a cidade, mas terminou extinta. Entenda por quê

Fred Linardi Publicado em 25/01/2019, às 11h00

Getty Images

Em 1964, o sambista Adoniran Barbosa disse que não podia ficar nem mais um minuto com sua amada. Tudo porque morava em Jaçanã (o que, na verdade, era apenas uma licença poética para a música). Se perdesse o trem das 11, só voltaria para casa na outra manhã – além de provocar uma noite de insônia em sua pobre mãe. Assim, sem querer, imortalizou a linha do Tramway, condutora do tal trem.

O “trem das 11” existiu mesmo, e funcionava desde 1894. Construído apenas para instalar e levar dutos de água da região da serra da Cantareira ao centro de São Paulo, onde a vida urbana já efervescia, ele foi extinto no ano seguinte ao do sucesso musical, em 1965. Ninguém imaginava, na época de sua construção, que aqueles pequenos vagões sobre a bitola de 60 centímetros seriam tão populares.

Estação Jaçanã Reprodução

No início do século 20, a linha passou a ser utilizada pelos paulistanos que queriam fugir da vida urbana para passar aprazíveis tardes na Cantareira. O crescimento da população, no entanto, acabou expandindo bairros até então distantes, como Santana, Jaçanã e Tremembé. E os moradores de lá começaram a usar o trem também para se locomover para o trabalho. A partir de 1940, as bitolas foram expandidas para 1 metro, a fim de adaptar os trilhos ao número de passageiros – em 1945, eram 20 mil por dia. Ao mesmo tempo, ninguém esquecia que a linha tinha seus dias contados desde sua criação, pois tinha sido feita só para o transporte de dutos de água. As vias para carros e ônibus, já na década de 50, expulsaram-na gradativamente da capital.

Os vagões, já ultrapassados no fim dos anos 50, custavam caro: com as passagens baratas e grande parte da despesa subsidiada, o carvão mineral que o movia foi substituído por lenha – isso quando os vagões a diesel já existiam. “O trem começou a ser criticado. A fuligem queimava as roupas dos passageiros e eles eram identificados pelos outros como usuários do trem”, diz Rogério Nunes, produtor do documentário "Nos Trilhos do Trem das Onze".