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Trem em chamas: Como Jesús García impediu a explosão de uma cidade há 113 anos

O homem se sacrificou num ato heroico em Nacozari, no México

Isabela Barreiros Publicado em 07/11/2020, às 08h00

O guarda-freios Jesús García
O guarda-freios Jesús García - Wikimedia Commons

Ao longo da história, muitas foram as pessoas que tiveram atitudes louváveis e consideradas heróicas. Sacrificar-se para salvar mais indivíduos é uma ação nobre, e o resultado disso geralmente é uma enorme admiração à figura em questão.

Foi exatamente isso que aconteceu com Jesús García, um jovem de 26 anos que trabalhava como guarda-freios na cidade de Nacozari, estado de Sonora, no México. Responsável por acionar os freios de trens e veículos ferroviários no geral, em 7 de novembro de 1907, ele fez muito mais que isso.

Há 113 anos, García se sacrificou para salvar não apenas algumas dúzias de pessoas, mas uma cidade inteira. Durante o descanso de seu trabalho naquele dia de novembro, ele percebeu a presença de fumaça no ar.

No entanto, não era só isso. Um dos trens, que estava chegando na estação em poucos instantes, estava praticamente em chamas. Isso aconteceu porque fagulhas de sua chaminé foram até os primeiros vagões, devido ao vento, e acabaram incendiando o feno que estava no topo da carga transportada.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Se um trem pegando fogo chegando na estação já era uma situação péssima, a carga em questão que estava lendo levada por ele piorou ainda mais o contexto. A locomotiva estava carregando em seus inúmeros vagões nada mais nada menos que dinamite. 

Com ao menos 70 caixas de dinamite como carga, além de detonadores e fusíveis, o resultado disso tudo só poderia ser uma grande tragédia na cidade mexicana. O trem estava chegando no pátio, e lá estavam presentes ainda mais tanques de gasolina, o que iria expandir o alcance do fogo.

Toda a situação era desesperadora. Se o veículo ferroviário chegasse até a estação e ali explodisse, o desastre seria ainda maior e muito mais pessoas seriam mortas devido ao acidente. 

No entanto, uma pessoa tomou uma atitude que não deixou que o final da história fosse uma das maiores tragédias do México. Jesús García não correu para longe do pátio, nem tentou fugir para poder escapar da explosão. Na verdade, ele bolou um plano rápido para tentar diminuir os danos causados pela detonação.

Então, contra todas as expectativas, ele entrou no trem e deu ré, dirigindo por pelo menos seis quilômetros para tentar levá-lo para o mais longe possível. À todo vapor, o jovem pode ter pensado que poderia chegar com a locomotiva em um local mais distante e, assim, saltar para fora, antes que ela explodisse.

Imagem ilustrativa de um trem / Crédito: Wikimedia Commons

 

O possível plano de García não passa de especulação porque ele mesmo não pôde contá-lo para os habitantes de Nacozari. O próprio guarda-freios não conseguiu se salvar depois de se dispor a tentar não deixar que o trem em chamas explodisse grande parte da cidade.

Depois de mais ou menos seis quilômetros, o trem explodiu. Destroços e cascalho caíram no trilho despedaçado pelo estrondo. A lenda diz que tudo que foi encontrado de Jesús foi um pé de bota, que estava sendo usada por ele antes do acontecimento trágico.

Além do jovem, ao menos treze pessoas morreram durante a explosão. Se não fosse por ele, uma cidade inteira poderia ter virado ruínas, acabando com a vida de muito mais gente. 

E todos sabiam disso: em homenagem ao homem que se sacrificou, a cidade teve seu nome mudado para Nacozari de García. Além disso, o município também construiu um memorial a ele, com um trem, um obelisco e uma lápide relembrando sua história e atitude heroica.