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Matérias / Arqueologia

A última refeição de uma múmia do pântano

Conhecido como Homem de Tollund, o indivíduo provavelmente foi vítima de um sacrifício ritual na Dinamarca há 2.400 anos e seu corpo bem preservado revela detalhes até hoje

Isabela Barreiros Publicado em 20/02/2022, às 08h00

A múmia do Homem de Tollund - Sven Rosborn via Wikimedia Commons
A múmia do Homem de Tollund - Sven Rosborn via Wikimedia Commons

Em maio de 1950, um cadáver extremamente preservado foi encontrado próximo à cidade de Silkeborg, na Dinamarca. Por estar tão bem conservado, o corpo fez com que a polícia imaginasse que aquele fosse mais um caso de assassinato na região.

No entanto, a surpresa viria com a autópsia: a morte do homem aconteceu há 2.400 anos, o que fez dele uma das mais antigas múmias naturais da história. Apelidado de “Homem de Tollund”, ele viveu durante a Idade do Ferro Pré-Romana, entre 500 a 1 a.C.

A múmia conhecida como 'Tollund Man' / Crédito: Nationalmuseet via Wikimedia Commons

Com a descoberta do cadáver, pesquisadores começaram a desenvolver exames com o intuito de entender o que teria acontecido na época em que ele morreu ou ainda um pouco antes de seu óbito, que teria ocorrido durante um ritual, já que apresentava sinais de estrangulamento, mas não de violência.

No primeiro estudo sobre a múmia, pesquisadores descobriram que o homem havia tido sua última refeição entre 12 e 24 horas antes de falecer. Foi possível, durante a pesquisa, avaliar o estômago e trato intestinal do indivíduo, que estavam em bom estado de conservação.

A última refeição

Embora a antiga análise tenha mostrado o momento em que o Homem de Tollund teve sua última refeição, ainda não havia sido revelado o que, de fato, foi o que o indivíduo comeu pela última vez antes de morrer.

Em julho de 2021, uma equipe de cientistas liderados pela chefe de pesquisa do Museu Silkeborg da Dinamarca, Nina Nielsen, conseguiram mudar isso e apresentar aos curiosos e à comunidade científica os alimentos que o homem de meia-idade ingeriu pouco antes de ir à óbito.

Os cientistas descobriram que o homem comeu um mingau feito de sementes de ervas, que continha cevada, linho e alguns peixes. Esse pode ser considerado um prato comum para a época e em especial para múmias encontradas em pântanos, de acordo com estudos feitos em 12 vítimas europeias que remontam à Idade do Ferro.

Ingredientes que teriam sido usados na última refeição do homem / Crédito: Divulgação/Museum Silkeborg

A novidade no caso do Homem de Tollund é a identificação de vestígios de sementes e ervas daninhas, ainda que nenhum tipo de alucinógeno ou analgésico tenha sido encontrado em sua última refeição, principalmente por se tratar de um ritual.

Nina Nielsen, líder da pesquisa, explica: “Não temos nenhuma evidência de múmias do pântano que indiquem que elas receberam algum tipo de medicamento especial”.

“[As últimas refeições] consistem não apenas de grãos e mingau, mas, no caso do Homem de Tollund, havia diversas sementes e ervas daninhas”, destacou Miranda Aldhouse-Green, professora emérita da Universidade de Cardiff, no Reino Unido como repercutiu o portal da National Geographic Brasil no ano passado.

“Era importante que a refeição contivesse uma grande variedade de substâncias naturais, como se isso por si só fosse significativo”, acrescentou a autora do livro “Bog Bodies Uncovered: Solving Europe’s Ancient Mystery” (“Múmias do pântano reveladas: desvendando o antigo mistério da Europa”, em tradução livre).

Conteúdo do intestino da múmia / Crédito: Divulgação/P.S. Henriksen, The Danish National Museum

Embora os pesquisadores tenham uma série de dados sobre as últimas refeições das múmias, não é possível saber se aquelas eram refeições típicas do período histórico ou apenas uma alimentação especial para quem seria vítima de sacrifício.

“Podemos ter ideia de como era a dieta padrão, mas na verdade este estudo pode dizer o que ele comeu no dia em que morreu”, apontou Nielsen. “Por isso é tão interessante — nós chegamos muito perto de como tudo aconteceu".

“Múmias do pântano são incomuns”, comentou Henry Chapman, professor de arqueologia da Universidade de Birmingham, no Reino Unido. “Essa é a bênção e a maldição delas”, completou.


O estudo completo pode ser lido na revista científica Antiquity.