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Um guerrilheiro, duas guerras: a saga de Carlos Marighella

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, o historiador da USP, Lincoln Secco, comentou sobre a imagem do guerrilheiro na história da política brasileira

Giovanna Gomes, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 03/04/2021, às 08h00

O guerrilheiro Carlos Marighella
O guerrilheiro Carlos Marighella - Wikimedia Commons

Marighella. Hoje bem conhecido, este nome se fez muito presente durante a ditadura militar. Em razão de sua resistência à prisão em um cinema no ano de 1964, ele logo se tornou reconhecido não apenas em território nacional, mas também em países da Europa, nos EUA e no Japão, exercendo influência sobre diversos grupos militantes.

O próprio filósofo francês Jean-Paul Sartrechegou a publicar em sua revista, ''Les Temps Modernes'', criada em 1945, artigos de autoria de Marighella. Agora, o nome voltou com tudo diante da estreia do filme Marighella, dirigido por Wagner Moura.

A produção, baseada no livro de Mário Magalhães, apresenta Seu Jorge no papel principal do líder guerrilheiro, o filme ainda conta com nomes como Adriana Esteves, Bruno Gagliasso e Luiz Carlos Vasconcellos.

Mas quem foi Marighella?

Nascido em Salvador em 1911, o guerrilheiro era filho de um imigrante italiano que atuava como operário e de uma mulher negra, filha de escravos.

Foi quando entrou na faculdade de Engenharia civil, no ano de 1929, que o jovem Carlos Marighella iniciou sua militância. Desde então, não tardou para que tivesse de enfrentar grandes desafios no cenário político nacional.

Em conversa com o professor e pesquisador do Departamento de História da USP, Lincoln Secco, a Aventuras na História obteve importantes informações sobre o famoso guerrilheiro.

Carlos Marighella - Crédito: Wikimedia Commons

 

Um guerrilheiro, duas guerras

Quando questionado sobre a importância de Marighella durante a ditadura militar, Secco logo lembrou que o militante não atuou apenas nos anos 60 como muitos podem imaginar. Ele teve, na verdade, um papel duplo na história, em períodos diferentes.

Sua primeira participação como ativista em uma ditadura se deu durante o Estado Novo, período que se estende de 1937 a 1945, quando Getúlio Vargas tomou o poder. Já naquela época, o jovem foi preso e torturado, mas foi em sua segunda batalha que Marighella acabou sendo assassinado.

"Obviamente eram regimes distintos e a imagem de Marighella mudou muito entre uma e outra ditadura," ressalta o historiador, que considera que ele "foi o mais importante dirigente do velho Partido Comunista Brasileiro (PCB) a romper com o partido e adotar a luta armada."

O professor Lincoln ainda lembra que o militante atuou em como deputado constituinte, além de ter exercido vários cargos no PCB. Segundo ele, "outros, como Jacob Gorender, Mario Alves, Câmara Ferreira também foram relevantes, mas nenhum teve o apelo de Marighella para a juventude."

Para Lincoln, o fato de Marighella ter optado pela tática da guerrilha urbana foi uma imposição da própria ditadura, já que "ele percebeu que o fascismo militar, ao impor-se pela violência e pelo terror, produzia o seu contrário: a violência revolucionária", diz Secco, "No entanto, a violência dos guerrilheiros era, nos termos de Mao Tse-tung, justa, pois visava eliminar uma tirania."

O guerrilheiro durante depoimento - Crédito: Divulgação/Iconographia

 

A criação da ALN

Para entendermos a história da militância no Brasil, é preciso saber como se deu a criação da Ação Libertadora Nacional, organização de luta armada fundada por Carlos Marighella.

Conforme declarou o professor, o golpe de 1964 foi visto "como uma derrota da estratégia pacífica do PCB. A esquerda se dividiu depois do VI Congresso do partido em 1967 e procurou formar novos partidos comprometidos com a resistência armada."

Lincoln explica que o PC do B "preparou a guerrilha do Araguaia; e o PCBR acrescentou o  “R” de  revolucionário exatamente para se diferenciar do reformismo do PCB." Contudo, "como eu demonstro em A Batalha dos Livros: formação da esquerda no Brasil, havia uma  gama de influências como Vietnã, Cuba, China, mas não uma negação do marxismo leninismo e do conteúdo daquilo que o PCB defendeu."

Segundo Secco, "o que diferenciou a ALN foi o reconhecimento de que não era possível estruturar um partido naquelas condições repressivas. O seu programa era de libertação nacional, mas admitia pequenos grupos autônomos que desejassem lutar contra a ditadura."

A importância dos escritos de Marighella

Secco explica a importância dos livros de Marighella nos tempos atuais tanto como um "exemplo pessoal que pode interessar aos jovens", quanto como objeto de estudos acadêmicos, já que o militante trata de uma série de temas importantes em seus escritos, como a questão agrária.

Além disso, o historiador ainda comenta sobre como ele mesmo utiliza ideias de CarlosMarighella presentes em suas obras, a exemplo da expressão 'democracia racionada'.

"Eu mesmo defini nosso regime atual como uma forma em que a violência contra os pobres se combina com ações autoritárias dentro da legalidade e os escassos direitos são distribuídos a conta-gotas para os setores mais moderados da oposição", explica.

"Essa é uma das ideias de Marighella que nos ajudam a entender o Brasil atual." O historiador ainda pontua que é preciso lembrar que o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano não tinha como objetivo ensinar a luta armada, mas fazer propaganda dela.

 


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