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Após chuva de críticas a Marilia Mendonça, entenda o que é a 'cultura do cancelamento'

Em entrevista ao site Aventuras na História, o publicitário Flávio Santos refletiu sobre as causas e os impactos do novo comportamento

Pamela Malva // Atualizado e adaptado por Thiago Lincolins Publicado em 13/02/2021, às 09h00 - Atualizado em 06/04/2021, às 17h02

Foto da cantora Marilia Mendonça
Foto da cantora Marilia Mendonça - Divulgação/Instagram

Com uma edição marcada pelo sucesso estrondoso, o Big Brother Brasil 2021 levanta, quase que diariamente, pautas que causam debates entre internautas.

Na noite da última segunda-feira, 5, o assunto que despertou indignação entre os fãs do programa foi o ato do participante Rodolffo, cantor sertanejo, após não ter entendido a gravidade que foi comparar o cabelo afro do participante João, professor, com uma peruca desajeitada que englobava uma fantasia de 'homem das cavernas'(que não apresentam conexões, vale destacar). 

Contudo, antes mesmo da confusão causada na hora da edição, que acabou se envolvendo e sido alvo de um linchamento virtual foi a cantora de música sertaneja Marília Mendonça.

Isso porque internautas relembraram que a artista movimentou a internet durante a eliminação de nomes como Karol Conká, Nego Di, Lumena e Projota (negros), mas permaneceu em silêncio na vez do participante Rodolffo, que enfrenta o participante Caio e Gilberto na berlinda. 

Em resposta às cobranças e críticas, a artista foi direta: "Só pra responder coletivamente: não... tô bem de boa com a minha vida e meus problemas… Mal tô me posicionando para pagar as parcelas das minhas contas... Tô bem tranquila... Nem gasta energia me enchendo o saco. Quando o problema for comigo, aí vocês me chamam", explicou ela através de sua conta oficial no Twitter. Em seguida, a situação se tornou ainda mais caótica.

Isso porque após o episódio marcado pela ignorância do cantor sertanejo em rede nacional, Mendonça voltou atrás e demonstrou indignação após o ato do participante.

"JOÃO MERECE RESPEITO e me desculpa por isso!!!! Perdão, mesmo! Eu não sei até que ponto isso se torna uma culpa minha, mas nessa situação me vejo fazendo o mínimo. Quando machucamos as pessoas, desculpas não mudam, mas são o mínimo. Você é lindo. E eu sempre disse isso aqui!", disse a cantora. "Tô falando por ter ficado entalada com as lágrimas do João. É exclusivamente por ele. Simples. Tanto faz se vou ser julgada de novo. Não é sobre mim", finalizou Marilia. 

Diante dos ataques de ódio recebidos, a artista optou por compartilhar algumas publicações que direcionavam ódio para a sua conta.

"Eu nem devia estar falando mais. Aguentei o dia todo numa boa, mas minha tristeza é profunda por ser resumida a isso por algumas pessoas. Talvez vocês tenham conseguido o queriam de mim... podem ficar felizes, porque eu tô na merd*", explicou Mendonça. "Essas são as proporções. O dia todo foi assim. Têm coisas muito piores. Eu nunca vou entender porque tanto ódio. O que eu fiz que fez doer tanto e voltar pra mim. Faz muito tempo que eu não chorava tanto. Vou me afastar porque vai ser melhor...".

O episódio envolvendo a artista nos fazem questionar o movimento recente que ficou conhecido como 'Cultura do Cancelamento', que tomou as redes sociais nos últimos anos. 

Em entrevista exclusiva à AH, o CEO da MField,Flávio Santos, explicou quais são as causas e impactos do fenômeno online que reverbera no mundo real.

Imagem meramente ilustrativa de tela de celular quebrada / Crédito: Divulgação/Pixabay

 

Onde nasce o medo

Formado em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário de Belo Horizonte, Flávio é diretor executivo da MField, uma empresa especializada em estratégias de ativação de influenciadores. Por isso, ele está em constante contato com as redes sociais.

Segundo o especialista, a Cultura do Cancelamento tem como objetivo tornar as lutas públicas. “Não basta mais estar certo, é preciso que as pessoas no entorno também saibam [que você está correto] e batam palma [para você]”, narra Flávio. “Isso fica claro nas redes sociais, onde é preciso conquistar os likes e a aprovação social.”

Nesse sentido, por mais que a busca por justiça sempre tenha existido, ela parece ainda mais nobre com a Cultura do Cancelamento porque “ganha mais força quando é exaltada, compartilhada e citada”. Isso sem contar o sentimento de legitimação.

Imagem meramente ilustrativa de teclado / Crédito: Divulgação

 

Cobranças sem fim

Com o passar dos anos, todavia, a Cultura do Cancelamento ganhou outras proporções. Muito além de “cancelar” influenciadores ou anônimos com opiniões controversas, o movimento começou a exigir o posicionamento de terceiros.

Segundo Flávio, “esse movimento obrigatório de posicionamento é fruto do hábito humano”. Isso porque, desde a infância, “a sociedade aprende que o erro precisa ser punido com dor, e normalmente, com castigos ligados à falta”, e à limitação de bens. Dessa forma, exigir que uma marca se posicione é um “comportamento natural”.

Para o publicitário, contudo, também é importante ressaltar “o fator da identificação”. Nesse caso, as pessoas tendem a pensar que “se o influenciador é cancelado e uma marca continua se relacionando com ele, ao me relacionar com essa mesma marca eu me coloco no patamar do sujeito que errou”. O que, para o público, parece negativo.

Fotografia de Flávio Santos, o CEO da MField / Crédito: Divulgação

 

Barreiras e aprendizados

Com a leitura dos erros, então, as figuras públicas passam a ter medo da internet. Isso pôde ser visto, por exemplo, no comportamento do ator Fiuk na atual edição Big Brother Brasil. Segundo coluna de Alexandre Orrico, na Folha, o artista chegou a fazer um curso de “cultura social” antes de entrar no reality, com receio de ser cancelado.

Para Flávio, as pessoas têm um real medo do cancelamento “pois ninguém se sente confortável em no papel de julgado”. Dessa forma, os influenciadores tendem a “se posicionar tomando cuidado com falas e crenças, com medo da condenação moral”.

O problema é que, por se tratar de um julgamento em massa, o cancelamento não dá “direito a ampla defesa e age em diversas esferas com pesos e medidas diferentes”. Por isso, inclusive, muito se fala sobre o fim da Cultura do Cancelamento.

Fotografia do ator e cantor Fiuk, filho de Fábio Jr. / Crédito: Wikimedia Commons

 

Liberdade online

Segundo o especialista, contudo, “não é preciso cancelar o cancelamento, mas sim modificar a prática e o termo”. Nesse sentido, para Flávio, tudo se resolve com uma simples substituição: “Sai o cancelamento, entra o ensinamento”.

Na opinião do publicitário, “é preciso educar as pessoas para que elas entendam onde está o erro”. Dessa forma, evita-se que o equívoco “seja repetido em uma esfera mais intimista”, como acontece apenas com o cancelamento, já que o fenômeno não gera uma mudança no discurso de quem errou e foi julgado por isso.

Por fim, Flávio explica que “a internet é um ambiente plural e democrático e isso faz com que a Cultura do Cancelamento se torne permissiva. "É exatamente por isso que o cancelamento é tão perigoso”. Assim, além de gerar polêmicas e anular contratos, o “cancelamento não ajuda as pessoas, apenas gera traumas”, completa o publicitário.


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