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Um trauma virtual: as causas e os impactos da Cultura do Cancelamento

Em entrevista à AH, o publicitário Flávio Santos explicou a razão pela qual as pessoas têm tanto medo de serem canceladas

Pamela Malva Publicado em 13/02/2021, às 09h00 - Atualizado em 18/02/2021, às 15h22

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Divulgação

Em abril de 2020, a influenciadora Gabriela Pugliesi gerou polêmica ao dar uma festa em plena pandemia do Coronavírus. Fotos, vídeos e áudios do evento, então, foram publicados nas redes sociais, gerando indignação de diversos internautas.

Depois do ocorrido, a mulher chegou a pedir desculpa para seus seguidores, mas já era tarde demais. Além de perder milhares de fãs, ela ainda viu seus contratos com várias marcas sendo cancelados, a grande maioria após uma forte pressão do público.

O que aconteceu com Pugliesi, em resumo, foi uma consequência da Cultura do Cancelamento. Em entrevista exclusiva à AH, o CEO da MField,Flávio Santos, explicou quais são as causas e impactos do fenômeno online que reverbera no mundo real.

Imagem meramente ilustrativa de tela de celular quebrada / Crédito: Divulgação/Pixabay

 

Onde nasce o medo

Formado em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário de Belo Horizonte, Flávio é diretor executivo da MField, uma empresa especializada em estratégias de ativação de influenciadores. Por isso, ele está em constante contato com as redes sociais.

Segundo o especialista, a Cultura do Cancelamento tem como objetivo tornar as lutas públicas. “Não basta mais estar certo, é preciso que as pessoas no entorno também saibam [que você está correto] e batam palma [para você]”, narra Flávio. “Isso fica claro nas redes sociais, onde é preciso conquistar os likes e a aprovação social.”

Nesse sentido, por mais que a busca por justiça sempre tenha existido, ela parece ainda mais nobre com a Cultura do Cancelamento porque “ganha mais força quando é exaltada, compartilhada e citada”. Isso sem contar o sentimento de legitimação.

Imagem meramente ilustrativa de teclado / Crédito: Divulgação

 

Cobranças sem fim

Com o passar dos anos, todavia, a Cultura do Cancelamento ganhou outras proporções. Muito além de “cancelar” influenciadores ou anônimos com opiniões consideradas controversas, o movimento começou a exigir o posicionamento de terceiros.

Foi isso que aconteceu no caso da Gabriela Pugliesi. Quando percebeu-se que a jovem estava quebrando a quarentena, internautas não apenas cancelaram a influenciadora, como ainda pediram que seus patrocinadores anulassem suas parcerias.

Segundo Flávio, “esse movimento obrigatório de posicionamento é fruto do hábito humano”. Isso porque, desde a infância, “a sociedade aprende que o erro precisa ser punido com dor, e normalmente, com castigos ligados à falta”, e à limitação de bens. Dessa forma, exigir que uma marca se posicione é um “comportamento natural”.

Para o publicitário, contudo, também é importante ressaltar “o fator da identificação”. Nesse caso, as pessoas tendem a pensar que “se o influenciador é cancelado e uma marca continua se relacionando com ele, ao me relacionar com essa mesma marca eu me coloco no patamar do sujeito que errou”. O que, para o público, parece negativo.

Fotografia de Flávio Santos, o CEO da MField / Crédito: Divulgação

 

Barreiras e aprendizados

Com a leitura dos erros, então, as figuras públicas passam a ter medo da internet. Isso pôde ser visto, por exemplo, no comportamento do ator Fiuk na atual edição Big Brother Brasil. Segundo coluna de Alexandre Orrico, na Folha, o artista chegou a fazer um curso de “cultura social” antes de entrar no reality, com receio de ser cancelado.

Para Flávio, as pessoas têm um real medo do cancelamento “pois ninguém se sente confortável em no papel de julgado”. Dessa forma, os influenciadores tendem a “se posicionar tomando cuidado com falas e crenças, com medo da condenação moral”.

O problema é que, por se tratar de um julgamento em massa, o cancelamento não dá “direito a ampla defesa e age em diversas esferas com pesos e medidas diferentes”. Por isso, inclusive, muito se fala sobre o fim da Cultura do Cancelamento.

Fotografia do ator e cantor Fiuk, filho de Fábio Jr. / Crédito: Wikimedia Commons

 

Liberdade online

Segundo o especialista, contudo, “não é preciso cancelar o cancelamento, mas sim modificar a prática e o termo”. Nesse sentido, para Flávio, tudo se resolve com uma simples substituição: “Sai o cancelamento, entra o ensinamento”.

Na opinião do publicitário, “é preciso educar as pessoas para que elas entendam onde está o erro”. Dessa forma, evita-se que o equívoco “seja repetido em uma esfera mais intimista”, como acontece apenas com o cancelamento, já que o fenômeno não gera uma mudança no discurso de quem errou e foi julgado por isso.

Por fim, Flávio explica que “a internet é um ambiente plural e democrático e isso faz com que a Cultura do Cancelamento se torne permissiva. "É exatamente por isso que o cancelamento é tão perigoso”. Assim, além de gerar polêmicas e anular contratos, o “cancelamento não ajuda as pessoas, apenas gera traumas”, completa o publicitário.


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