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Uma bomba para Stalin: O caso Rosenberg

Há 67 anos, o casal de comunistas americanos era condenado à morte por passar segredos atômicos aos soviéticos. Mas eles eram peixes pequenos

quarta 28 março, 2018
O casal após o julgamento
O casal após o julgamento Foto:Wikimedia Commons

Eram pouco mais de 20 horas daquele 19 de junho de 1953, quando o rabino entoou o salmo na prisão de Sing Sing, a 50 km de Nova York. Foi a última voz ouvida por Julius Rosenberg, de 35 anos, e sua mulher Ethel, de 37, presos nas cadeiras elétricas. Eles tinham sido condenados por espionagem e por revelar à União Soviética os segredos da bomba atômica. Julius morreu na primeira estremecida de 57 segundos, mas Ethel resistiu. Precisou de outras duas descargas até que seu coração parasse de bater.

Nas décadas seguintes, a inocência dos Rosenbergs ganhou ares de verdade absoluta. Com a extinção da URSS, porém, os fatos começaram a vir à tona: arquivos da KGB foram abertos, ex-agentes russos publicaram autobiografias e, nos EUA, o público finalmente teve acesso a um segredo guardado a muitas chaves: o Projeto Venona, que decodificou mensagens enviadas a Moscou durante a guerra. “Tudo isso prova que Julius trabalhou para a espionagem soviética, com a conivência passiva de Ethel”, diz o jornalista Assef Kfouri, autor do livro O Caso Rosenberg.

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Essa história começa nos anos 30, quando os EUA mergulharam na depressão econômica. Filho de judeus poloneses, Julius foi um dos tantos jovens americanos que cresceram durante a crise e vislumbraram no marxismo a ponte para o novo mundo. Aos 16, ele já era membro ativo da Juventude Comunista. Conheceu Ethel numa atividade do grupo e casou-se com ela em 1939, quando se formou engenheiro. Enquanto o casal dividia o teto e os ideais em Nova York, cientistas corriam contra o tempo no Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México. Faziam parte do ultra-secreto Projeto Manhattan - para criar a bomba atômica.

Após a vitória sobre o Eixo, em 1945, EUA e URSS romperam a aliança e deram a largada para uma corrida armamentista. O governo americano advertia que a ameaça comunista estava dentro do país. “Querem derrubar nosso governo”, dizia o presidente Harry Truman. Em 1949, ele soube, por seus auxiliares, que a URSS testara sua própria bomba A. “O cogumelo radioativo da Sibéria indicava que o segredo havia sido roubado debaixo do nariz do FBI”, diz o jornalista americano Alvin Goldstein no documentário The Unquiet Death of Julius and Ethel Rosenberg (“A incômoda morte de Julius and Ethel Rosenberg”).

O casal Rosenberg Reprodução

O serviço secreto americano iniciou uma caçada para desvendar como os soviéticos conseguiram detonar a bomba atômica. Os agentes concluíram que o segredo do armamento tinha sido revelado à URSS por espiões infiltrados no governo americano. Os investigadores montaram uma espécie de quebra-cabeça. A primeira peça era Klaus Fuchs, um físico alemão naturalizado britânico que trabalhara em Los Alamos. O FBI chegou até ele após quebrar o código da KGB e descobrir que ele assinara um dos informes transmitidos ao Kremlin. Preso em fevereiro de 1950 na Inglaterra, Fuchs admitiu ter passado informação a um espião que conhecia apenas como Raymond. Seguindo suas descrições, as autoridades chegaram a Harry Gold (o tal Raymond), que confessou o crime e revelou que seu contato na KGB era o agente russo Anatoli Yakovlev.

Rede de espiões

Gold também informou nos interrogatórios que havia obtido informações com um ex-soldado de Los Alamos. Não sabia o nome dele, apenas que a mulher se chamava Ruth. Foi a pista para os agentes encontrarem David Greenglass. Preso, ele confessou a tramoia e ainda entregou o casal Rosenberg que completava a rede de espionagem. Detalhe: Greenglass era irmão de Ethel. Julius foi preso em 17 de julho e a mulher, três semanas depois. Ao contrário dos outros, eles não confessaram o crime. Pouco depois, os policiais detiveram Morton Sobell, um ex-colega de Julius também acusado de integrar a rede. Sobell também não confessou.

Em 6 de março de 1951, Julius, Ethel e Sobell sentaram no banco dos réus da Corte Federal de Nova York, acusados de conspiração para fazer espionagem. O júri era formado por 11 homens e 1 mulher – nenhum deles judeu. O promotor Irving Saypol contou com oito testemunhas de acusação, das quais três se mostraram fundamentais para a promotoria apresentar a solução do caso: Max Elitcher, Harry Gold e David Greenglass.

Na frente da Corte Federal de Nova York em 1951 Reprodução

Elitcher era amigo de Sobell, mas incriminou-o. Disse que estava presente no momento em que ele entregou um filme secreto a Julius. Harry Gold disse ter sido enviado por Julius a um encontro com Greenglass e passado informação deste ao agente russo Yakovlev. Já Greenglass afirmou que Julius o induziu a ingressar no Partido Comunista e a roubar os segredos atômicos. Greenglass também disse que Ethel havia datilografado um documento com segredos que ele conseguira em Los Alamos.

Julius e Ethel foram as testemunhas de defesa e negaram tudo. Quando o juiz Irving Kaufman lhes perguntou se haviam pertencido a alguma organização comunista, eles mantiveram silêncio – um direito garantido pela Quinta Emenda da Constituição Americana. Ficaram calados para proteger antigos colegas, mas desagradaram o júri. Todos sabiam de sua militância. Sobell preferiu não se declarar. O júri decidiu que os três réus eram culpados. Resultado: eles receberam a pena capital e Sobell, 30 anos de prisão.

Desenho da bomba

Foi um julgamento polêmico. Por um lado, os Rosenbergs tiveram o advogado de sua escolha (Emanuel Bloch) e um júri de comum acordo. “Algumas cortes de apelação examinaram os registros do julgamento em busca de uma revisão da condenação, mas não encontraram erro nenhum”, diz Douglas Linder, professor de Direito da Universidade de Missouri. “Por outro lado, a promotoria não cumpriu seu dever de entregar todas as evidências.” 

Aquela dupla sentença gerou protestos em todo o mundo. Até Albert Einstein pediu clemência, mas o presidente Dwight Eisenhower manteve-se impassível: os Rosenbergs só sairiam do corredor da morte se cooperassem com o governo. Não adiantou. Eles ficaram durante dois anos atrás das grades de Sing Sing. No final, Ethel foi parar na cadeira elétrica apenas pelo que disse seu irmão. Até 2014, pairou a dúvida de que ela fosse inocente. O trabalho posterior de historiadores provou que ela guardava dinheiro e parafernália, estava presente nas sessões, ajudava o marido a prospectar simpatizantes e convenceu a mulher de David a recrutá-lo.

Segundo Assef Kfouri, a espionagem soviética tinha sua central no Consulado de Nova York. O contato de Julius era feito com o agente russo Aleksander Feklisov em lugares públicos. Julius teria entregado a Feklisov segredos industriais e militares, entre eles, uma amostra do fusível de proximidade – um dispositivo usado para detonar explosivos perto do alvo. Graças ao fusível, a URSS conseguiu derrubar o avião-espião americano U2 que sobrevoava seu território em 1960. Um documento de 30 páginas fornecido por ele foi considerado pela KGB como de "alto valor". 

Protestos em Nova York após a sentença do casal Getty Images

A contribuição de Julius foi bem menor que a do cunhado, mas ele levou aos soviéticos informação sobre outras tecnologias importantes, como jatos e radares e sonares. Mas os principais culpados saíram quase ilesos. David Greenglass pegou meros 15 anos de prisão por sua contribuição fundamental. Gold recebeu pena de 30 anos e cumpriu metade. Fuchs pegou 14 anos, ficou 9 preso e foi trabalhar com física nuclear na Alemanha.

Com a morte dos Rosenbergs, seus filhos Michael, de 10 anos, e Robert, de 6, foram adotados pelo casal Anne e Abel Meeropol. Que defenderam a reabertura do caso. E a neta dos Rosenbergs fez até um documentário, questionando o julgamento.


Filhos marcados

Os filhos do casal Rosenberg com o pai adotivo Abel Meeropol Reprodução /

O casal já tinha dois filhos na época da prisão. Ficaram sob a guarda do casal  Anne e Abel Meeropol, e passaram a usar esse sobrenome para fugir do estigma dos pais. Robert Meeropol entrou com processos contra o FBI e a CIA para que o governo americano revelasse informações sobre seus pais. Ele é autor do livro An Execution in the Family. Michael Meeropol, irmão de Robert, é atualmente um economista aposentado. Ele não se envolveu na história dos pais – sua filha Ivy é quem foi investigar a morte dos avós paternos.


Saiba mais

O Caso Rosenberg – 50 anos depois, Assef Kfouri, Ed,  2003
Filme: Herdeira de uma execução, Ed. Ivy Meeropol, EUA, 2004

Eduardo Szklarz


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