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Uma história de traição, profecia e ambição: a tragédia de Édipo Rei

Criada por Sófocles há mais de 2,5 mil anos, a peça tem um final melancólico que evidencia a terrível inevitabilidade do destino

Pamela Malva Publicado em 14/05/2021, às 08h00 - Atualizado às 10h22

Representação de Édipo e sua filha, Antígona
Representação de Édipo e sua filha, Antígona - Ravenous/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Entre os anos 335 a.C. e 323 a.C., escritas sobre a Poética de Aristóteles mostram que a teoria do filósofo afirmava que uma tragédia sempre deve terminar em um estado de catarse e reflexão para quem quer que esteja lendo, ouvindo ou assistindo a narrativa.

Ainda que a real definição de uma tragédia continue sendo motivo de debates, os enredos do gênero, na teoria de Aristóteles, quase nunca terminam em finais felizes. Daí vem o costume de classificar acidentes ou grandes perdas como episódios trágicos.

Acontece que, apesar de controversa, a tragédia sempre traz consigo um aprendizado sobre a própria natureza humana. E, para Aristóteles, ninguém nunca conseguiu criar uma narrativa tão trágica quanto a escrita por Sófocles, em meados de 427 a.C.

Édipo em seu encontro com a esfinge / Crédito: Museu Metropolitano de Arte/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

O início de tudo

A história começa em pleno Monte Citerão, entre as terras de Tebas e Corinto. Sob as sombras de uma árvore, um bebê recém-nascido chora, com os pés amarrados. Abandonado para morrer, ele chama atenção de um pastor, que o leva para sua cidade. 

Adotado por Pólibo antes mesmo que soubesse falar, Édipo cresce acreditando que o homem é seu pai biológico. Quando atinge a idade adulta, contudo, o jovem procura pela ajuda de um oráculo, Delfos, cuja clarividência lhe surpreende com uma terrível profecia.

Dono de um destino traçado pelos deuses gregos, Édipo descobre que está fadado a matar o próprio pai e, por consequência, desposar a própria mãe. Desesperado, ele decide fugir, a fim de evitar ao máximo que a terrível profecia se concretize.

Representação de Édipo (direita) e estátua de Sófocles (esquerda) / Crédito: Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Caminhos tortuosos

Após dias de caminhada, Édipo encontra-se em uma encruzilhada, onde se depara com um elegante senhor. Mesmo no meio da rua, os dois entram em uma discussão e, inconsequente, o jovem acaba assassinando o intrigante andarilho.

Eventualmente, Édipo chega nas terras de Tebas, uma região próspera, mas que sofre com o recente e misterioso assassinato de seu rei. Nas portas da cidade-estado, um monstro com corpo de leão, asas de águia e cabeça de mulher lhe propõe um desafio.

“Decifra-me ou te devoro”, diz a terrível esfinge, antes de disparar um enigma que já havia acabado com a vida de centenas de homens. “Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, à tarde sobre duas e à noite sobre três?”, o monstro questiona.

Sábio e paciente, Édipo lhe responde, após certa reflexão, que a resposta que a esfinge procura é "o homem". Sem entender, já que isso nunca havia lhe acontecido antes deste momento, o monstro decide acabar com a própria vida de tanta frustração.

Tendo derrotado a terrível esfinge, que assolava as terras de Tebas há anos, Édipo é considerado um herói e acaba sendo coroado o novo rei. Entre suas obrigações, ele deve se casar com a atual rainha, Jocasta, que perdera seu marido, Laio.

Édipo decifrando o enigma da esfinge / Crédito: Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Reviravoltas

Décadas se passam, Édipo e sua esposa têm seus próprios herdeiros e, sem qualquer aviso, uma peste acaba com as plantações de Tebas. Angustiado e com receio de perder as riquezas de sua amada nação, o rei decide investigar a situação.

Entre conversas com anciãos e consultas com oráculos, Édipo descobre que o mau presságio que assola Tebas foi causado por ele próprio. Mesmo tentando fugir de seu destino, o monarca, na realidade, caminhou direto para ele ao fugir de Pólibo.

Uma vez dono de terras prósperas, ele descobre que seu pai, na verdade, era o falecido rei Laio. Abandonado no Monte Citerão quando bebê, Édipo cresceu para matar seu pai, o viajante misterioso, naquela encruzilhada e desposar a própria mãe, a rainha Jocasta.

No final da narrativa, a monarca comete suicídio ao descobrir que casou-se com o próprio filho e, ao encontrar sua esposa (e mãe) já sem vida, Édipo fura os próprios olhos. Entre outras cenas, é assim que acaba a melancólica peça de Sófocles.

Édipo já com os olhos furados cercado por seus filhos / Crédito: Nationalmuseum/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Depois do fim

Considerada a mais pura definição de tragédia grega, Édipo Rei é uma das mais clássicas obras da literatura e já foi utilizada em muitas outras narrativas. Foi na psicanálise, no entanto, que a história ganhou uma interpretação completamente diferente.

Nas mãos de Sigmund Freud, o livro de Sófocles serviu de inspiração para a teoria que, mais tarde, foi chamada de 'Complexo de Édipo'. Segundo o neurologista austríaco, trata-se da condição em que um filho sente atração amorosa pela própria mãe.

Ainda na cultura grega, Édipo também é citado em mais dois livros de Sófocles: ‘Édipo em Colono’ e ‘Antígona’. A segunda, apesar de ter sido escrita primeiro, é a última na ordem cronológica da sequência e conta a história de Antígona, a dedicada filha de Édipo.


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