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Urina em sítio arqueológico revela que povo do Neolítico fez a transição da caça para o pastoreio há 10.000 anos

Sais minerais de humanos e animais revelam aumento na sedentarização no local

Redação Publicado em 18/04/2019, às 11h38

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- Divulgação

Pesquisas em um sítio arqueológico localizado na Turquia vêm gerando dados curiosos para as teorias sobre sedentarização das populações humanas no Neolítico: amostras da urina de humanos e animais.

O estudo, liderado por especialistas da Universidade de Columbia, analisou um total de 113 amostras de nitrato, sódio e cloro coletadas no assentamento neolítico Aşıklı Höyük, no centro da Turquia. Até então, as informações sobre o sítio datavam de 8000 a.C., quando populações caçadoras-coletoras se utilizaram do local como abrigo temporário. Não existiam evidências de domesticação propriamente dita, apenas amostras de um aumento exponencial no número de ovelhas e cabras em estágios de proto-domesticação. Entretanto, as amostras encontradas em camadas mais antigas revelaram algo intrigante: apenas uma população que cria grande número de bovinos e caprinos deixaria sinais de tamanha densidade no local.

"Esta é a primeira vez, até onde sabemos, que pesquisadores coletaram sais em materiais arqueológicos, utilizando-os de maneira a observar o desenvolvimento do manejo de animais", diz o principal autor do estudo, Jordan Abell, estudante de pós-graduação do Doherty Earth Observatory.

Pesquisadores coletando amostras de urina / Créditos: Reprodução

As camadas mais antigas de ocupação humana, que remontam a 10.400 a.C., contêm um aumento na concentração de sais minerais que durou uma média de 300 anos, mostrando dinâmicas populacionais mais velozes do que se pensava anteriormente. Os sais deste período apareceram em concentrações até 1.000 vezes maiores do que no período anterior, em a densidade passou de quase zero para aproximadamente uma pessoa ou animal para cada 10 metros quadrados - em um total de 1790 ocupantes, entre humanos e animais.

Vista do telhado de casas reconstruídas nos séculos 8 e 9 a.C. / Créditos: Reprodução

Embora ainda não tenham conseguido diferenciar a urina humana da animal, os pesquisadores atestam essa interação pelo fato de as moradias observadas no local não terem a capacidade de abrigar tamanha quantidade de pessoas - por isso, a combinação de humanos e animais seria a chave para o entendimento das amostras. Portanto, as concentrações de sal na urina podem de fato refletir as quantidades relativas de animais domesticados ao longo do tempo. 

Os pesquisadores esperam um dia serem capazes de diferenciar as amostras de urina, usando a técnica para estudar áreas onde vestígios arqueológicos mais visíveis, como ossos, edifícios ou cerâmica, são inexistentes. Segundo a antropóloga Mary Stiner, da Universidade do Arizona, o método poderia ajudar a esclarecer a relação da humanidade com os animais nesse período:  "Podemos encontrar tendências semelhantes em outros sítios arqueológicos no Oriente Médio", disse ela. "Mas também é possível que apenas algumas comunidades de longa duração sejam palco para a evolução das relações entre humanos e caprinos".