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Vale a pena ver de novo: 'Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro'

Filme de 11 anos atrás assusta o quanto parece coisa de agora, relatando práticas criminosas que o Rio conseguiu, via política, exportar para Brasília

Alexandre Carvalho Publicado em 06/06/2021, às 05h00

Cena de ‘Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro’ (2011)
Cena de ‘Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro’ (2011) - Divulgação/ Zazen Produções

Eu não sabia o que era um miliciano até que, em 2010, assisti a este retorno do diretor José Padilha ao universo de extrema violência policial do Capitão Nascimento (Wagner Moura). Como não moro no Rio de Janeiro, o termo ficou escondido em algum canto do inconsciente.  

Só voltei a ouvi-lo, com frequência para lá de desagradável, depois que o Brasil elegeu um presidente da República que sempre se cercou desse tipo de policial, um subgrupo que faz seu pé de meia extorquindo população de baixa renda com uma proposta que ninguém pode recusar: agiotagem, gás e TV a cabo clandestinos.  

Em troca do pagamento por esses “benefícios”, uma proteção fake, que na verdade é uma arma apontada para a cabeça. Ver ou rever ‘Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro’, neste momento da história do país, deveria ser tão obrigatório quanto beber água.  

O longa de ação foi lançado há 11 anos, mas assusta o quanto parece coisa de agora — como filme-denúncia de práticas criminosas que o Rio conseguiu, via política, exportar para Brasília.

Está tudo na película: a infiltração das milícias entre as comunidades pobres; o deputado que confraterniza com miliciano; o incômodo “pessoal dos direitos humanos”, denunciando o assassinato de favelados como um gás inebriante nas narinas da classe média. Até a conexão entre milicianos e o chefe do Executivo (no filme, é o governador do Rio) parece um salto no tempo. No nosso tempo.  

No enredo, o Capitão Nascimento é promovido a subsecretário de Segurança, um posto sem muita função prática. Mas o protagonista não se conforma com o cargo simbólico. E mergulha numa investigação do que há de mais podre na cumplicidade entre maus policiais e o poder público.  

Impulsionado pelo sucesso do primeiro Tropa de Elite, esta sequência foi além, tornando-se então o filme mais visto do cinema brasileiro. Um sucesso que custou caro a seu idealizador.

Assim como acontece com todo político ou jornalista que se mete a escrutinar essas ligações perigosas, José Padilha recebeu ameaças de morte — e até uma tentativa de invasão de sua produtora por homens armados. Aí, para não acabar como Marielle Franco, decidiu ir morar no exterior.  

Cena de ‘Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro’ (2011)/ Crédito: Divulgação/ Zazen Produções

 

Se o país continuar elegendo políticos que se lambuzam no sangue dessas relações promíscuas, muitos outros hão de ir embora. Até que só fiquem neste inferno dos “homens de bem” corruptos e matadores — de farda ou foro privilegiado.


Alexandre Carvalho é jornalista e criou, em 2005, a revista de cinema Paisà. É autor dos livros ‘Inveja – como ela mudou a história do mundo’ (2015) e ‘Freud – Para entender de uma vez’