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'Vampiro neoliberalista': como um presidente virou crítica social no carnaval

Em 2018, a escola de samba Paraíso do Tuiuti trouxe à avenida um desfile que contou com presidente vampiro e ‘manifestoches’

Isabela Barreiros, sob supervisão de Pamela Malva Publicado em 15/02/2021, às 16h21

"Vampiro neoliberalista" da escola Paraíso do Tuiuti
"Vampiro neoliberalista" da escola Paraíso do Tuiuti - Divulgação/Rede Globo/Youtube

Carnaval e política se misturam? A combinação já esteve presente em inúmeros anos da festividade, demonstrada principalmente em fantasias usadas durante o carnaval de rua, mas também nos desfiles carnavalescos, embora em menor escala. 

Ao longo dos anos, escolas de samba trouxeram em seus desfiles críticas sociais relacionadas aos períodos históricos nas quais estavam inseridas. No auge da ditadura militar no Brasil, elas falavam sobre liberdade, em um momento em que a censura persistia como regra.

Na década de 1980, o grito das Direitas Já! preencheram a avenida, representando um momento crítico importante para a história do país. Outros posicionamentos também já puderam ser vistos, como críticas à pobreza e a intolerância religiosa no país, por exemplo. 

A crise política vivida pelo Brasil nos últimos anos não pôde ficar de fora do carnaval de 2018. Em 2016, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff marcou um período conturbado na história do país, selado com a posse do vice, Michel Temer, que ficou no poder até o final de 2018.

Naquele ano, algumas escolas de samba decidiram apresentar o cenário popular das ruas, preenchidas por protestos, na avenida. No Rio de Janeiro, a Paraíso do Tuiuti chamou a atenção nacional — e até mesmo internacional — com seu enredo, carros e figuras polêmicas.

‘Vampiro neoliberalista’

Crédito: Divulgação/Youtube

 

Em 12 de fevereiro de 2018, a Paraíso do Tuiuti cantou o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, do carnavalesco Jack Vasconcelos. A principal ideia da escola era relembrar a Lei Áurea, questionando sua atualidade: afinal, ainda existe escravidão?

“O objetivo era tratar da exploração do homem pelo homem. Não só da escravidão negreira, mas dessa exploração que se estende por séculos, passando pelos egípcios, celtas, romanos e que continua nos dias atuais”, explicou Thiago Monteiro, diretor de Carnaval da Paraíso do Tuiuti, em entrevista ao portal El País. 

Segundo ele, “fazer uma pessoa trabalhar uma jornada de 12 horas, como as costureiras, por um salário às vezes abaixo do mínimo e com direitos mitigados, é perpetuar esse sistema”.

Essa crítica mostrou-se explícita a partir de uma figura muito particular do desfile. No topo de um dos carros, estava um personagem que foi chamado de “vampiro neoliberalista”. Nem a escola nem Léo Morais, professor que viveu a figura, assumem que ela representava Michel Temer. Mas a verdade é que eles nem precisavam.

Ao representar o então presidente como um vampiro, era possível perceber o tom humorístico, mas irônico da crítica: além de estar com uma maquiagem branca, retratando o aspecto vampiresco, ele também estava com notas de dinheiro em sua fantasia. Tratava-se de uma crítica também à corrupção política.

A crítica a Michel Temer não ficou apenas em sua personalização em forma de vampiro. Pessoas carregando carteiras de trabalho também estavam presentes. O documento, porém, tinha um aspecto sujo, mostrando a reprovação à reforma trabalhista proposta por seu governo.

"Manifestoches" / Crédito: Divulgação/Youtube

 

“Eu acho que a gente está fazendo uma coisa que todo mundo quer. Todo mundo quer botar pra fora, as pessoas querem gritar o ‘Fora Temer’, as pessoas querem se manifestar e é forma de manifestar da minha parte”, disse Léo Morais, o ‘vampiro’, em entrevista ao G1 na época do desfile.

Além de Temer, parte da população também foi alvo das críticas da Tuiuti. Eles trouxeram “manifestoches” em uma das alas, com pessoas vestidas em patos de borracha — uma referência aos itens que ficavam do lado de fora do prédio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), na Avenida Paulista.

Os patos se tornaram símbolo das manifestações que pediam pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e foram usados de maneira irônica na crítica. O grupo vestido com a fantasia estava sendo comandado por um fantoche, representando a manipulação feita aos antipetistas. 

Carnaval crítico

A Paraíso do Tuiuti não foi a única a trazer críticas sociais em seus carros alegóricos. Em 2018, a Beija-Flor também trouxe uma ala que demonstrava o descontentamento da população com a corrupção e a Mangueira também fez críticas específicas durante seu desfile: o então prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella foi o alvo da vez.


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