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A verdade por trás da orelha enfaixada de Van Gogh

Com uma saúde mental muito frágil, o renomado artista protagonizou um episódio emblemático e bastante misterioso

Pamela Malva Publicado em 16/09/2020, às 07h00

Autorretrato com Orelha Enfaixada, pintado por Van Gogh em 1889
Autorretrato com Orelha Enfaixada, pintado por Van Gogh em 1889 - Wikimedia Commons

Mais famosas do que as obras de Vicent Van Gogh, talvez só as histórias e boatos sobre o pintor. Dono de um talento sem igual, ele também tinha uma saúde mental frágil e, segundo diversos historiadores, sofria com alguma doença psicológica.

Os surtos e transtornos do pintor, inclusive, foram usados para justificar dois dos episódios mais trágicos e emblemáticos da vida dele. Responsável por algumas das obras mais conhecidas da história da arte, ele chegou a atirar em si mesmo.

Tão misteriosa quanto a própria condição mental do artista, a história sobre a orelha decepada de Van Gogh é outra grande incógnita. Apaixonada pela vida do grande pintor, então, a historiadora de arte Bernadette Murphy decidiu que encontraria a verdade.

Autorretrato de Van Gogh pintado em 1887 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Pesquisas sem fim

Acompanhada pela equipe da BBC, a especialista não se contentava com a versão que falava apenas sobre os problemas psicológicos de Van Gogh. Assim, ela explorou cada detalhe do dia em que o pintor supostamente cortou a própria orelha.

Antes de procurar pelos motivos que levaram ao ato radical, Bernadette compreendeu que deveria descobrir se a orelha havia sido realmente decepada. Assim, desde 2010, ela partiu em busca de registros médicos e notícias da época.

Não foi surpresa, contudo, descobrir que os documentos não levavam à qualquer resposta concreta. Preenchidos com alguns boatos, os textos contavam a mesma história, mas com alguns detalhes diferentes — a maior dúvida era sobre a própria orelha do pintor: ele teria decepado ela inteira, ou apenas o lóbulo?

Retrato de Vincent van Gogh em 1873 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Registros à próprio punho 

Foi buscando fontes mais confiáveis que Bernadette encontrou o nome de Félix Rey, o médico de Van Gogh que cuidou do pintor em seu último dia. Em uma carta ao biógrafo Irving Stone, o profissional registrou a verdade sobre a orelha do artista.

Datado de 18 de agosto de 1930, o documento mostrou a exata linha que Van Gogh usou como referência para decepar a própria orelha com uma navalha. Na cabeça, restou apenas um pedaço do lóbulo que escapou do corte desesperado.

Para a historiadora, então, já era claro: o pintor de Noite Estrelada removeu a orelha por completo em um corte que rompeu uma artéria, fazendo-o sangrar muito. Agora restava saber o que motivou a atitude tão drástica e violenta.

Quarto em Arles, de Van Gogh, pintado em 1888 / Crédito: Wikimedia Commons

 

A história de um homem assombrado

Nascido na Holanda, Van Gogh chegou em Arles, a França, aos 35 anos, quando ainda era um artista desconhecido. Apaixonado pela cidade, ele pintava cores vibrantes e imaginava ter encontrado o futuro da arte — mas não vendia um quadro sequer.

Apesar de frustrado, ele sabia que podia contar com seu irmão, Theo, e se inspirava no grande artista Paul Gauguin. Van Gogh, inclusive, sonhava com o dia em que Gauguin pintaria ao seu lado e até criou o quadro Os Girassóis para decorar o quarto do ídolo.

Os dois chegaram a se conhecer e até pintaram juntos, mantendo uma amizade consideravelmente próxima. Gauguin, no entanto, era um homem excêntrico que não aguentava os acessos de loucura de Van Gogh — para começo de conversa, ele só foi até Arles porque Theo teria lhe enviado uma comissão para tal.

A Casa Amarela, de 1888. Van Gogh usava o prédio como seu estúdio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Abandono e solidão

No dia 23 de dezembro de 1888, a relação entre os dois artistas já estava abalada quando Gauguin chegou ao seu limite e resolveu deixar Van Gogh sozinho em seu estúdio. Na mesma tarde, o holandês recebeu uma notícia que o abalou.

Em um cartão postal, representado em um quadro pouco conhecido do pintor, Van Gogh teria sido notificado do casamento de Theo com Johanna Bonger. Para o artista, aquele poderia ser o fim de sua tão apreciada relação com o irmão.

Van Gogh sentiu-se sozinho, devastado, além de cercado por pinturas que ele não conseguia vender. Naquela noite, então, ele decepou a própria orelha, de cima a baixo, em um ato pouco lúcido, e levou o pedaço de sua carne para sua amiga Gaby — uma jovem faxineira que trabalhava em um bordel no dia da mutilação.

Ala no Hospital em Arles, pintado em 1889 / Crédito: Wikimedia Commons

 

O fim de um artista transtornado

No dia seguinte, às vésperas do Natal, Van Gogh foi encontrado em posição fetal na sua casa. Ele sangrava muito, mas ainda estava vivo. Foi apenas 18 meses mais tarde, após o episódio traumático, que o incrível pintor deu seu último suspiro.

Na noite do dia 29 de julho de 1890, o pintor voltou para o bordel onde estava morando com um tiro. Aos funcionários, falou que teria atentado contra a própria vida — esse é mais um episódio questionado por historiadores.

Theo foi chamado, assim como Félix Rey, que tentou salvar o pintor. Van Gogh, contudo, não aguentou os ferimentos e faleceu no dia seguinte, sem nunca presenciar o próprio sucesso como um dos maiores pintores da história.


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