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Vicente Benavides, o homem que passou 26 anos no corredor da morte injustamente

Diversos médicos testemunharam que a criança de quem Vicente estava cuidando havia sido estuprada - mas essa se revelou uma confusão médica mais tarde

Ingredi Brunato Publicado em 06/11/2020, às 09h00

Fotografia de Vicente na época em que foi preso, na casa dos 40 anos
Fotografia de Vicente na época em que foi preso, na casa dos 40 anos - Divulgação

Em 1993, no estado da Califórnia, Vicente Benavides foi condenado pelo estupro e assassinato da filha de sua namorada. O crime teria acontecido quando o ex-agricultor de 43 anos estava cuidando das duas filhas de sua parceira, Cristina e Consuelo, a primeira de nove anos e a segunda de um ano e nove meses. 

Foi naquele dia que um horror aconteceu, mas não uma violência sexual. O homem descobriu que a pequena foi parar, de alguma forma, do lado de fora da casa, e estava gravemente machucada.

Infelizmente, aquele foi o fim para a criança: mesmo tendo sido levada ao hospital, e passado por transferências para receber cuidados de mais de uma equipe médica diferente, ela não resistiu aos ferimentos e morreu. 

Todavia, a história ainda estava longe de terminar para o restante dos envolvidos. Isso porque, em algum momento, os médicos determinaram que Consuelo havia sido abusada sexualmente.

O médico legista, James Dibdin, confirmou a causa da morte como “lesão penetrante de força bruta no ânus”, e posteriormente a chefe de pediatria Dra. Jess Diamond ainda revisou tudo e chegou à mesma conclusão. Parecia uma evidência incontestável. 

Vicente declarou sua inocência ao afirmar que encontrou a garotinha perto do estacionamento do condomínio, sugerindo que ela poderia ter sido, portanto, atropelada.

Porém, era sua palavra contra a de inúmeros especialistas. Não deu outra: ele foi para o corredor da morte. Contudo, em 2019, 26 anos depois, uma análise dos relatórios do caso levou à reversão da condenação.

Gigantesco erro

Tudo teria começado com os médicos do segundo hospital por onde Consuelo passou, que teriam interpretado lesões na área de seu ânus como evidências de abuso sexual, quando seriam, na verdade, resultado dos procedimentos médicos da primeira instituição onde foi tratada. Um exemplo de procedimento que teria gerado ferimentos foi a tentativa de inserção de um cateter tamanho adulto na menina de menos de dois anos. 

Depois, a autópsia de garotinha teria sido realizada por um James Dibdin, um médico legista que já havia sido demitido quatro vezes anteriormente - todas elas por ter chegado a causas de morte falsas.

“Ele faz autópsias o mais rápido possível para fins monetários”, contou outro legista de forma anônima, segundo apurado pelo Los Angeles Times, descrevendo Dibdin ainda como “um desastre esperando para acontecer”. 

E no fim da sequência de especialistas que haviam dado sua palavra contra VicenteBenavides, estava a Dra. Jess Diamond, responsável por reexaminar o caso. Ela descobriu então que não havia recebido todos os relatórios médicos antes do julgamento. 

Com base nos que recebeu, a conclusão de abuso sexual parecia fazer sentido - todavia, analisando essas novas evidências, outra imagem começou a aparecer.

“Essa tragédia não teria acontecido se eu - e os muitos outros médicos que testemunharam - tivéssemos pleno conhecimento da história médica de Consuelo”, comentou Diamond nos novos desdobramentos do processo, que levaram à determinação da inocência de Benavides. 

De verdade incontestável a conclusão impossível 

Para confirmar o que estava vendo, a médica ainda enviou os documentos para um especialista em abuso sexual infantil. "Anatomicamente impossíveis", disse ele a respeito dos resultados da autópsia da garotinha, afirmando que para causar as lesões abdominais presentes na criança seria necessário o peso de um automóvel inteiro. No fim, Consuelo foi de fato atropelada. 

 O advogado de Vicente, Ron Kaye, ainda trouxe outro dado preocupante: os promotores do condado onde o homem foi condenado teriam sido também responsáveis por outras 30 condenações por abuso sexual infantil na década de 1980 cujos vereditos foram anulados mais tarde. 

Sequelas 

Fotografia de Vicente hoje, na casa dos 70 anos - Crédito: Divulgação 

 

Mesmo que hoje se saiba que Benavides é inocente, e não o predador sexual que o tribunal pensou que fosse, seus 26 anos no corredor da morte não podem ser retirados com a mesma facilidade que sua sentença.

Segundo Kaye, seu cliente sofre atualmente de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e pesadelos, além de ter perdido os pais enquanto estava dentro da prisão. 

“Até o presente, continuo sofrendo com as injustiças que vivi e a dor que devo carregar comigo pelo resto da minha vida”, desabafou Vicente em entrevista ao Los Angeles Times. 


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