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Víctor Jara, o músico socialista fuzilado logo após o golpe militar de Pinochet

Torturado e assassinado, o artista tornou-se um dos maiores ícones da luta pela igualdade social e opositora ao sangrento regime instaurado em 1973 no Chile

Isabela Barreiros Publicado em 01/01/2020, às 09h00

Provável última fotografia de Víctor Jara, em um comício do presidente Salvador Allende uma semana antes do golpe militar
Provável última fotografia de Víctor Jara, em um comício do presidente Salvador Allende uma semana antes do golpe militar - Getty Images

As manifestações que aconteceram no Chile em outubro deste ano relembraram um personagem histórico essencial à História do país. Os atos, que reuniram mais de 1 milhão de pessoas, trouxeram novamente à tona as canções de Víctor Jara, ícone político opositor à ditadura Pinochet e militante revolucionário brutalmente assassinado pelo regime.

El Derecho de Vivir en Paz ecoava dos violões de manifestantes próximos às escadarias da Biblioteca Nacional, em Santiago. Em 25 de outubro de 2019, acontecia no Chile o maior protesto desde o governo autoritário dos militares do país. E Jara permanece relevante para as demandas da população, que busca mais igualdade social no país que segue os moldes neoliberais, com um atual presidente de centro-direita. 

Bandeira com rosto de Víctor Jara nas manifestações chilenas / Crédito: Getty Images

 

Foi professor de Jornalismo na Universidade do Chile, diretor de teatro e um dos mais importantes músicos do movimento da Nueva Canción Chilena. Suas canções neo-folclóricas narravam exatamente o que o cantor acreditava e lutava por: um mundo menos desigual construído a partir do poder do povo. Também era membro do Partido Comunista do Chile e fazia parte do Comitê Central das Juventudes Comunistas do Chile.

Por conta de seus ideais, não sobreviveu à ditadura instaurada por militares chilenos através de um golpe militar, que derrubou o presidente socialista Salvador Allende e colocou Augusto Pinochet no poder. Logo após o motim, em 11 de setembro de 1973, Jara foi levado da Universidade do Chile por militares, juntamente com outros professores e alunos. Eles foram, então, encarcerados no Estádio Chile, que se converteu em um dos maiores centros de detenção e tortura da ditadura do país.

O artista permaneceu preso no local por alguns dias, mas não sairia vivo. Em meio a brutais torturas, que envolviam ser queimado com cigarros, ter sua língua cortada e suas mãos esmagadas por coronhadas, Jara foi assassinado somente cinco dias depois, em 16 de setembro daquele ano, por 44 tiros disparados pelos oficiais.

Crédito: Getty Images

 

Depois de fuzilado, seu corpo foi abandonado em um matagal próximo a uma favela na cidade de Santiago, no Chile, e também perto do Cemitério Metropolitano. 

Foi apenas em 1990 que o Estado chileno reconheceu o assassinato de Víctor Jara por militares do governo Pinochet. A Comissão da Verdade e da Reconciliação admitiu que o músico foi morto a tiros no Estádio Chile. Em 2016, ex-militar Pedro Barrientos, chileno naturalizado norte-americano, foi condenado a pagar uma indenização à família do chileno. 

"Eles o mantinham sentado. Havia umas camas de campanha, dessas usadas no Exército, e o mantinham ali e batiam, batiam, batiam (...). E Barrientos lhe dá um tiro... quase à queima-roupa”, relatou José Paredes, jovem que prestava serviço militar na época, aos seus 18 anos, e presenciou o cruel homicídio. 

Crédito: Getty Images

 

Ele foi sepultado Cemitério Geral de Santiago do Chile e, em 2003, trinta anos após o assassinato, teve o Estádio Chile renomeado em sua homenagem, chamado hoje em dia de Estádio Víctor Jara, para relembrar os terríveis atos cometidos pela ditadura do país. 

Ainda durante seus dias de cárcere, antes de morrer, escreveu um poema que retratava sua situação e a de seus companheiros em meio ao autoritarismo do regime. Com o título, “Estádio Chile”, o texto dizia:

“Somos cinco mil aquí/ en esta pequeña parte de la ciudad/ (…) Seis de los nuestros se perdieron/ en el espacio de las estrellas./ Uno muerto, un golpeado como jamás creí/ se podría golpear a un ser humano./ Los otros cuatro quisieron quitarse/ todos los temores, / uno saltando al vacío,/ otro golpeándose la cabeza contra un muro/ pero todos con la mirada fija en la muerte./ ¡Qué espanto produce el rostro del fascismo!”. 


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