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O protesto antirracista que acabou com a carreira de Colin Kaepernick

Em partida da pré-temporada da NFL, o atleta negro ajoelhou durante a execução do hino nacional; “Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro e as pessoas de cor”, disse

Fabio Previdelli Publicado em 02/02/2020, às 12h00

Colin Kaepernick protestando durante partida da NFL
Colin Kaepernick protestando durante partida da NFL - Getty Images

Hoje à noite, quando entrar em campo para a disputa do Super Bowl LIV, o San Francisco 49ers tentará marcar pela sexta vez seu nome na lista dos vencedores de um dos maiores eventos esportivos do mundo — a equipe de Santa Clara já se sagrou campeã em 1982, 1985, 1989, 1990 e, por último, em 1995.

Esta será a sétima vez que o time disputará um Super Bowl. A última vez em que isso aconteceu, em 2013, a equipe era comandada pelo quarterback Colin Kaepernick — responsável pelo renascimento da franquia e que ficou há poucas jardas ter seu nome marcado ao lado de Joe Motana e Steve Young.

No entanto, a história recente de Kaepernick não é marcada por suas glórias dentro das quatro linhas, mas por todos que ele influenciou na luta social pelos direitos dos negros e contra a brutalidade da polícia americana contra as minorias.

Colin Kaepernick em ação pelos 49ers / Crédito: Getty Images

 

No dia 26 de agosto de 2016, o 49ers enfrentaria o Green Bay Packers em um jogo de pré-temporada. Como é tradicional em qualquer evento da NFL, o hino nacional americano foi tocado antes da partida.

Neste momento, diferente de todos os seus colegas, Kaepernick se ajoelha durante a execução da música. “Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro e as pessoas de cor”, disse o jogador após a partida.

Colin seria o estopim da onda de protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre). A partir daí, o gesto passou a ser repetido por outros grandes nomes das mais diferentes modalidades esportivas, como Stephen Curry, Dwyane Wade, Rajon Rondo, Russell Westbrook e Carmelo Anthony.

A ousadia de um negro em protestar diante de uma das maiores demonstrações de patriotismo entre os norte-americanos gerou enorme controvérsia nas redes sociais. O assunto chegou até à Casa Branca.

Na época, o então presidente Barack Obama declarou apoio ao atleta e disse que a luta pela causa é válida, e que o protesto “é um exercício dos direitos constitucionais”. Os mais conservadores, como Donald Trump — que era apenas um candidato republicano à presidência dos EUA — criticaram o jogador. “Acho isso terrível, talvez seja bom ele achar um outro país”, disse Trump.

Após o episódio, o atleta revelou que recebeu ameaças de morte por ter se manifestado contra “a opressão à comunidade negra”. Em entrevista à ESPN dos Estados Unidos, Colin disse que se ele fosse morto por causa do protesto, só mostraria o quão ele está certo sobre o ato: “Se fosse morto, vocês provariam meu ponto e estaria claro para todo mundo o real motivo de isso ocorrer”.

Apesar de virar os holofotes para a causa, os casos de opressão não pararam. Depois de uma semana dos primeiros protestos, os norte-americanos presenciaram mais um caso da brutal violência dos policiais contra os negros.

Em seu trajeto pela rodovia de Tulsa, em Oklahoma, Terrence Crutcher, de 40 anos, foi parado por policiais rodoviários. E, mesmo desarmado e com as mãos para o alto, foi morto a tiros pelos oficiais.

A temporada seguinte

Apesar do seu enorme talento e incontestável aptidão para a prática do futebol americano, a temporada seguinte de Karpernick foi diferente de todas as outras. O atleta não teve seu contrato renovado junto aos 49ers e passou as primeiras três semanas de 2017 como agente livre — jogador sem contrato vigente que está apto para assinar com qualquer clube ou franquia.

Pessoas quimando a camisa de Colin Kaepernick / Crédito: Divulgação

 

O tempo se passava, e a revolta contra Colin era inflamada por Trump, que chegou a tweetar: “Vocês não adorariam ver um desses donos da NFL, quando alguém desrespeita nossa bandeira, dizer ‘tirem esse filho da puta do campo agora. Fora. Você está demitido’?”.

Fora do esporte desde então — e com o apoio de diversos atletas da NFL — Kaepernick começou a acusar a NFL de boicotar sua volta aos gramados por conta de seu posicionamento. Em novembro daquele ano, o atleta levou o caso para e Justiça.

O renascimento de Kaepernick e o boicote à Nike

Patrocinado pela Nike desde 2011, Colin Kaepernick viu a camisa 7 dos 49ers — número que ele usava — ser a mais vendida nas lojas esportivas em 2016. Porém, muito se engana quem pensa que as vendas significavam apoio à causa levantada pelo jogador. Muitas pessoas compravam as camisas só para queimá-las em forma de protesto.

Sua carreira havia terminado, não por sua escolha, mas pela revolta contra os negros. Kaepernick se tornou um símbolo antirracista, que passou a ser admirado por defender seus ideais, mesmo que isso tenha culminado no seu veto profissional.

Mas influência do atleta não se resumiu a isso. Ele ainda precisava ressurgir. Mostrar que um negro pode superar qualquer sanção imposta por uma sociedade discriminatória. E isso aconteceu, em 3 de setembro de 2018.

Foi no dia do trabalhador, nos Estados Unidos, que a Nike usou a figura de Kaepernick para estampar os 30 anos da campanha Just do It. O rosto do atleta, em preto em branco, estava espalhado por diversos painéis publicitários de boa parte do país com a frase “Acredite em algo. Mesmo se isso significa sacrificar tudo”.

Campanha publicitária da Nike com Colin Kaepernick / Crédito: Divulgação

 

Conservadores apoiadores de Donald Trump responderam ao anúncio queimando calçados e outros materiais esportivos da fabricante. O grupo também subiu no Twitter a hashtag #BoycottNike.

Mas isso não impediu que o valor da empresa tivesse o aumento de 5% na bolsa de valores — o que gerou um ganho de 6 bilhões de dólares pela empresa em apenas três semanas de campanha.

Segundo o site especializado The Ringer, o sucesso só evidenciou aquilo que Kaepernick e a Nike sempre acreditaram: “que as pessoas que apoiam a igualdade racial são mais numerosas e mais apaixonadas do que aqueles que se opõem a ela”.


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