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Violência, difamação e assassinato: o lado sombrio de Caravaggio

O importante pintor barroco foi preso inúmeras vezes e chegou a ser sentenciado à morte, provando que a brutalidade não se limitava às suas pinturas

André Nogueira Publicado em 07/04/2020, às 10h47

Caravaggio em autorretrato
Caravaggio em autorretrato - Divulgação

Conhecido por seu traço marcante, com imagens brutais, feias e violentas, Caravaggio marcou a arte barroca com obras famosas como Medusa e Judite e Holofernes, que traduzem ao estilo renascentista histórias greco-latinas. Porém, esse importante artista era lembrado em sua época por motivos insólitos: que iam de difamação, agressão e até mesmo assassinato.

Durante o século 17, ele foi julgado por pelo menos 11 poemas difamatórios e atos violentos contra pessoas. Nascido em 1571, ele se mudou ainda jovem para Roma, que inspirou a sua carreira. À medida que foi se tornando famoso, também ficou conhecido por suas bebedeiras e jogatinas, além da fama de carregar uma espada e arranjar brigas.

Em seus primeiros anos, entre 1598 e 1601, ele foi preso inúmeras vezes por portar a lâmina sem permissão e até mesmo processado por espancar um homem com um graveto, muitos dos crimes ocorridos de madrugada.

Essa foi a mesma época em que Caravaggio desenvolveu uma intriga com outro pintor que passou a tratar como rival: Giovanni Baglione. O artista o acusou oficialmente de contratar assassinos para matá-lo e, em 1603, o processou por difamação. Foi o caso de um poema do artista em que, usando uma obra que não fez muito sucesso de Baglione, cruelmente satirizava o fracasso do oponente. Caravaggio distribuiu diversas cópias da poesia entre bairros de artistas.

I bari, por Caravaggio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Nos versos mais agressivos da obra, Caravaggio dizia que o melhor tratamento a se dar à obra de Baglione era limpar a bunda com ela, ou então preencher as partes íntimas da "esposa de Mao" com ela, insinuando que lhe faltaria relações sexuais com o marido. 

Mao, ou Tommado Salini, era um amigo de Baglione. O nível de assédio e de depravação das palavras de Caravaggio era chocante até para a época, justificando o processo que acabou em suas costas. 

O mais insólito é que nem Balgione nem Mao se surpreenderam com as palavras ofensivas do rival, que já havia se demonstrado baixo antes. Diante da difamação, o artista encaminhou um processo ao tribunal de Roma, que julgou Caravaggio e o declarou culpado. O artista foi condenado a duas semanas em uma prisão. Mas esse não seria o último processo judicial que o barroco enfrentaria.

Poucos anos depois, Caravaggio voltaria a ser processado depois de jogar, durante um jantar numa taberna, um prato de alcachofras no rosto de um garçom com quem não gostava muito. Na mesma época, ele foi ao tribunal por carregar armas (uma espada, numa ocasião, e uma adaga em outra) sem permissão e, ainda, por quebrar a janela de um quarto que estava alugando na cidade.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Antes de 1606, ele ainda foi preso mais três vezes: na primeira, por jogar pedras em policiais à paisana; depois, por xingar profissionais do mesmo ofício; e na terceira, por ofensas contra uma mulher e sua filha na rua. Numa situação em 1605, ele teve todos os seus móveis apreendidos por uma mulher a quem ele não pagou o aluguel de sua estadia por seis meses. Na ocasião, ele se feriu caindo na própria espada.

Mas os crimes de Caravaggio não pararam por ai, pois ele ainda cometeria um homicídio em vida. O fato ocorreu em 1606, quando ele assassinou um homem de nome Ranuccio Tomassoni. Ainda se discute as razões da morte, sendo que muitos acreditam que tenha sido uma fútil briga por conta de um jogo. Porém, Andrew Graham-Dixon, historiador da arte, defende uma outra hipótese: tudo teria começado com uma briga por conta da prostituta Fillide Melandroni.

A cortesã, que já fora retratada em uma pintura do artista, seria de preferência de Caravaggio, mas havia se aproximado de Tomassoni. Os dois, então, teriam entrado numa violenta batalha que acabou com o pintor contendo o segundo homem e tentado castrá-lo. O procedimento, porém, teria levado Ranuccio à morte.

Davi com a cabeça de Golias, por Caravaggio / Crédito: Wikimedia Commons

 

O crime repercutiu de tal forma que, naquele ano, o próprio papa sentenciou o artista à morte, no entanto, a decisão não foi consumada: Caravaggio fugiu de Roma antes. No exílio, ele continuou pintando e se envolvendo em lutas para ganhar dinheiro. Procurado em Roma, ele entrou em uma nova briga, com o cavaleiro da Ordem de São João de Malta, Fra Giovanni Rodomonte Roero, o que o levou à prisão novamente.

Fugindo para Nápoles, o artista já tinha tamanha fama que foi rapidamente encontrado por Roero, que o desafiou para uma luta e desfigurou o seu rosto. Cansado e frustrado, Caravaggio decidiu retornar a Roma e apelar por um perdão papal por seus crimes.

Todavia, antes de chegar à cidade, ele morreu em circunstâncias misteriosas, em Porto Ercole, aos 38 anos. Ele teria falecido por conta de uma febre, mas muitos argumentam que a origem da efemeridade foi a sífilis ou uma infecção por conta de um corte de espada.


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