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Violência e perseguição religiosa: o sexo no Brasil Colônia

O erotismo dos colonos lusitanos levou ao estupro de diversos escravos, mulheres e homens

André Nogueira Publicado em 05/04/2020, às 09h00

O cotidiano do Brasil Colônia
O cotidiano do Brasil Colônia - Wikimedia Commons

No Brasil Colônia, os parâmetros do erotismo eram completamente outros quando comparados aos dias atuais. Elementos sexuais ligados a símbolos do erotismo desejado, como corpos femininos magros, ausência de pelos e limpeza íntima eram, na época, repudiados.

Um dos maiores nomes da literatura de baixo calão desse momento, Gregório de Matos, escreveu que “lavar a carne é desgraça”, pois ”perde a carne o sal, a graça”. Estranho, não?

Porém, essa não é a única distinção que ocorre entre os atos íntimos antes e agora: as relações entre o que era moral e legalmente aceito em relação ao sexo mudaram bastante desde a nossa independência.

A sociedade ultramarina era profundamente marcada pela moral cristã, mas também pelo afastamento dos centros, onde a fiscalização e a educação estavam.

Em clima de repressão e moralidade, essa comunidade lusitana tinha como elemento central da vida erótica o estupro de mulheres escravizadas, que muitas vezes era aceito socialmente.

Afirma-se que o “senhor, por pudores e preceitos religiosos, se reprimia sexualmente com a esposa branca – figura destinada exclusivamente à reprodução – mas, geralmente, não tinha freios no relacionamento com as escravas, tidas como meros objetos”, afirma Marcel de Almeida Freitas em O cotidiano afetivo-sexual no brasil colônia e suas consequências psicológicas e culturais nos dias de hoje. O corpo da escrava era visto como propriedade e, portanto, plenamente violável.

No seio da família na colônia, as relações senhoriais / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, a depravação sexual causada pela sociedade senhorial envolvia um atrito de antagonismos morais: de um lado, o colono lusitano, incentivado pela percepção da vida sexual desprovida da noção de pecado entre os indígenas, queria libertinagem; do outro, o jesuíta pregava a total carestia dos prazeres carnais.

A abertura criada pelo distanciamento, porém, suprimia os planos dos padres: “os brancos podiam manifestar livremente a agressividade e luxúria sobre negras e, não raro, sobre negros”, afirma Freitas.

Porém, isso não desincentivou os católicos a impulsionarem a Santa Inquisição contra os atos que consideravam de depravação. Porém, não era exatamente o sexo que a incomodava, como o fazia aos jesuítas mais baixos.

“Ao Santo Ofício interessavam os erros de doutrina passíveis de serem captados não apenas em afirmações ou ideias contestatórias à verdade oficial e divina, mas em atitudes ou comportamentos que implicavam suspeita de heresia”, explica o historiador Ronaldo Vainfas em seu livro Trópicos do Pecado.

Ou seja, na colônia, o que era repudiável no campo das escolhas sexuais eram as hostilidades aos dogmas preconceituosos do catolicismo.

No seio das relações senhoriais, a violência / Crédito: Wikimedia Commons

 

A Igreja, nesse sentido, fazia um papel de determinação moral dos limites das relações de dominação que imperavam na sexualidade da colônia. Ao mesmo tempo em que mitigavam o declarado pecado da libertinagem dos colonos, repudiavam o prazer erótico das escravas e usavam da questão libidinal na repressão das mulheres.

Muitas delas foram repreendidas pelo Santo Ofício, acusadas de práticas pecaminosas e adversidade de seu papel estabelecido pela natureza. Assim, as mulheres (especialmente as negras) se tornavam objetos, de coação ou de prazer.

Os católicos mais fervorosos, então, sairiam em busca de reprimir as formas de libertação sexual, indo de encontro com um espaço colonial altamente erotizado.

Índios não concebiam o sexo como pecaminoso, e os africanos também não viam transgressões na prática. O homem branco, com poder, liberava sua libido através da violência sexual. O resultado de tudo isso era pecado para todos os lados, e os colonos não pareciam se importar.

Segundo Gilberto Freyre, o regime de sexualidade no mundo colonial era centrado nas figuras da soberania do patriarcado, que dava liberdade de ação aos homens livres, e na relação senhorial da escravidão, que levava ao estupro.

Longe de ser um método ou um resultado democráticos, isso acaba por desencadear uma forte miscigenação, marca da sociedade.

No seio da violência, a dominação / Crédito: Wikimedia Commons

 

A relação dual de liberdade e dominação levou ao cerne da sociedade as relações de poder relativas ao sexo. Segundo o texto anteriormente citado de Marcel Freitas, “o clima de liberalismo e exploração sexual de negras(os) e, em menor escala, índias (os) favorecia o desejo dos idosos e dos jovens. Muitas vezes sucedia que justamente aqueles senhores mais rigorosos com os filhos e, especialmente, com as filhas e esposas, eram os que davam mais mostra de ímpeto de dominação sexual sobre as ‘carnes negras’”.


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