Muamba na Copa: O escândalo do Tetra

Na chegada ao Brasil em 1994, até equipamentos de choperia foram trazidos pela delegação

terça 26 junho, 2018
A coação de Teixeira se estendeu aos auditores fiscais Belson Martins Puresa e Silvio Sá Freire
A coação de Teixeira se estendeu aos auditores fiscais Belson Martins Puresa e Silvio Sá Freire Foto:iStock/Shutterstock

Era o dia 17 de julho de 1994 no estádio Rose Bowl em Pasadena, nos Estados Unidos. Após 120 minutos de uma partida dura e sem gols, Brasil e Itália decidiriam a Copa do Mundo daquele ano nos pênaltis, algo até então inédito na história da mais importante competição futebolística. Após errarem suas primeiras cobranças, batidas por Baresi e Márcio Santos, italianos e brasileiros marcaram em suas duas próximas batidas. O placar estava empatado em 2 gols. Foi quando o goleiro Taffarel defendeu a cobrança de Massaro e Dunga colocou os brasileiros à frente no placar, 3 a 2. O chute para fora do talentosíssimo meio-campista italiano Roberto Baggio deu as cores finais àquela Copa do Mundo, verde e amarelo.

De norte a sul do Brasil, o povo invadiu as ruas para promover uma das maiores comemorações de todos os tempos. Após 24 anos, nosso selecionado, enfim, fazia as pazes com sua torcida ao conquistar, até então, o quarto título mundial de sua história. Ao levantar a taça, Dunga repetiu o gesto feito por três outros grandes capitães, Bellini, Mauro e Carlos Alberto Torres, e devolveu o sorriso aos brasileiros, que dentro de alguns dias encheriam as ruas novamente, à espera da chegada dos tetracampeões em terras nacionais.

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Por conta do bom momento vivido pelo selecionado canarinho durante as eliminatórias do ano anterior, quando goleou a seleção da Bolívia por 6 a 0 em Recife, no dia 29 de agosto, em partida que marcou a recuperação da equipe naquela competição, a capital pernambucana foi escolhida para ser a primeira cidade a receber os campeões na manhã de 19 de julho, uma terça-feira. Após a “Veneza Brasileira”, também estavam programados desfiles pelo Distrito Federal e Rio de Janeiro, e em São Paulo apenas com a presença dos jogadores paulistas, em um claro sinal de aborrecimento do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, com o maior estado da federação, apenas uma confirmação do que afirmara momentos depois da conquista “... apesar da imprensa paulista, somos campeões mundiais”.

A festa estava montada e o atraso na chegada se deveu a um motivo inusitado: as compras feitas pelos jogadores, membros da comissão técnica, dirigentes e convidados da delegação brasileira. O avião da Varig que levara aos Estados Unidos uma carga total de 3,4 toneladas, por conta das “lembrancinhas” voltaria ao país com cerca de 14,4 toneladas, segundo dados da Procuradoria Federal. O excesso de bagagem provocou atraso de quase três horas no procedimento de preparo da decolagem do voo. De acordo com o que foi apurado na época, foram necessários dois caminhões, com carroceria de 8 metros, e seis caminhonetes para levar toda a carga até o aeroporto de Los Angeles.

Apesar da demora, a festa em Recife foi emocionante e o torcedor abraçou, literalmente, os novos campeões em um dos maiores eventos da história da cidade. Já no Distrito Fedral, novos desfiles e muitas homenagens. Os membros da delegação foram recebidos pelo presidente da República, Itamar Franco, no Palácio do Planalto, onde receberam a medalha do Mérito Desportivo. Terminada essa etapa, o avião decolou em direção ao Galeão, no Rio de Janeiro, onde seriam feitos os devidos processos alfandegários junto à Receita Federal. Lá chegando, ao saber que os agentes da Receita iriam inspecionar as bagagens, procedimento comum a todos os passageiros que chegam do exterior, Ricardo Teixeira se revoltou e passou a fazer seus contatos. Ligou para o então ministro-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, e para o ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, pedindo a liberação da inspeção de toda a bagagem. Segundo ele, os fiscais só estavam autorizados a liberar da inspeção as bagagens de mão.

A coação de Teixeira se estendeu aos auditores fiscais Belson Martins Puresa e Silvio Sá Freire, que ouviram do então presidente da CBF diversas ameaças, entre elas a de que os jogadores iriam devolver as medalhas recebidas de Itamar Franco e que não participariam dos desfiles em carro aberto na capital carioca. Depois de novas ligações aos gabinetes do poder central – lembrando que muitos políticos e ocupantes de importantes cargos públicos na época já tinham sido presenteados pela CBF para acompanhar a seleção brasileira durante a Copa do Mundo com todas as despesas pagas – toda a bagagem foi liberada sem inspeção ou pagamento devido de imposto. Por discordar do benefício concedido, o secretário da Receita Federal, Osíris Lopes Filho, pediu demissão no dia 21 de julho. Segundo o auditor Sá Freire, que também se demitiu em solidariedade a Osíris, a liberação teve aval do ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, que, posteriormente, divulgou a abertura de uma sindicância para apurar o caso, sem qualquer efeito prático.

Cabe salientar que, naquela época, a legislação brasileira definia o valor de US$ 500 como o teto de itens a serem adquiridos no exterior. O que ultrapassasse esse limite estaria sujeito à cobrança de tarifa de importação. A decisão acabou sendo recebida como uma bênção, principalmente para o “campeão” das compras, o lateral esquerdo Branco, que trouxe uma cozinha completa, avaliada em US$ 18 mil. O próprio Ricardo Teixeira trouxera equipamentos para a sua nova choperia, a EL Turf (já fechada). O lamentável episódio passou a ser conhecido como o voo da muamba e, de certa forma, manchou esse momento do futebol brasileiro.

O caso se arrastou por anos, até que, em agosto de 2009, em ação movida pelo Ministério Público Federal, que tramitou na 22ª Vara Federal Civil do Rio, Teixeira foi condenado por ter infringido a Lei nº 8.429/92. Segundo o artigo terceiro da lei, as suas disposições são aplicáveis “àquele que, mesmo não sendo agente público, induza ou concorra para a prática de ato de improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta”. Teixeira, isto é, a CBF, acabou pagando a conta de todos, ao desembolsar R$ 46.209,60 de ICMS. Uma verdadeira pechincha, uma vez que, por cálculos da época, o valor devido girava em torno de R$ 1 milhão.

A Justiça também proibiu que ele fizesse contratos com órgãos públicos ou governos, indireta ou diretamente, por improbidade administrativa, e tirou seus direitos políticos por três anos. Diante da sentença, o então diretor jurídico da CBF, Carlos Eugênio Lopes, foi irônico ao afirmar que a decisão era meramente simbólica, uma vez que Ricardo Teixeira não era político, tampouco pretendia se eleger, e que, ainda que fosse, na época, dirigente do comitê organizador da Copa 2014, não era sócio da CBF, o que não impediria qualquer ação do Comitê e/ou da entidade. Em tempo, após uma série de denúncias, Teixeira renunciou à presidência da CBF em 12 de março de 2012 e é suspeito de uma sucessão de crimes envolvendo atos tomados durante o período em que presidiu a CBF, entre 1989 e 2012.

José Renato Santiago
Doutor e mestre pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com pós-graduação pela ESPM. Autor de livros sobre a história do futebol, gestão do conhecimento e capital intelectual.

José Renato Santiago


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