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Yoon x Shim: a briga por covas que resultou em uma rivalidade de 400 anos na Coreia do Sul

O confronto, iniciado por um espaço para sepultamentos, acabou ultrapassando as barreiras da cultura e política interna

Wallacy Ferrari Publicado em 30/03/2020, às 15h48

Coreanos prestando respeito em cerimônia funerária de tradição sul-coreana
Coreanos prestando respeito em cerimônia funerária de tradição sul-coreana - Divulgação / YouTube

Na cultura ocidental, os rituais de velório, cremação e enterro tem uma importância milenar. No Japão, por exemplo, o osoushiki é uma modalidade onde o funeral é realizado na residência dos familiares do falecido. O morto é coberto com um lenço branco, como se já tivesse se despedido. Na China, não se pode mostrar respeito para uma pessoa mais jovem, por isso, enterros e bebês e crianças são em absoluto silêncio.

No entanto, na Coréia do Sul, a principal tradição é a busca da confecção do ornamento perfeito, no lugar apropriado para o túmulo. A importância se dá na busca por uma sepultura adequada, com medidas meticulosas e com uma lápide respeitosa ainda é alvo de disputas em cemitérios e capelas, mas nada se compara a batalha travada entre as famílias Yoon e Shim, que durou 394 anos.

O confronto ganhou vida em 1614, quando, seguindo a tradição, as famílias buscavam enterrar os falecidos parentes em locais de calmaria, paz, beleza e harmonia. Até então, não existia nenhuma relação entre as famílias. Entretanto, com os terrenos escassos, os túmulos de ambas as linhagens passaram a ficar mais próximos e menos harmônicos como um local de exclusividade e privação.

O estopim, justamente no ano de início da disputa, foi quando a família Shim descobriu que a tumba de Yoon Gwan, um importante general da família que treinou e liderou um exército de 17 mil homens, havia sido parcialmente destruída para abrigar um membro da família. Da ocasião em diante, as famílias formaram seus clãs e disputaram os espaços que já lhes incomodavam há certo tempo.

Ao longo dos anos, pessoas importantes de ambas as famílias, como o primeiro ministro Shim Ji Won, deixaram de ser enterradas em lugares calmos por problemas de espaço, decoração e o risco de vandalismo pela outra família. Pelas constantes tentativas de escarnecer os túmulos, alguns caixões foram mudados tantas vezes de lugar que alguns não eram mais encontrados pelos familiares.

As dimensões das famílias Shim e Yoon são grandes e tem membros de elite. A família Shim somava, até 2007, 250 mil pessoas no país. Já os Yoons passavam de um milhão. Logo, em quatro séculos, foi possível nutrir um ódio e desenvolver, ao longo de gerações, a rivalidade. Um fato que piorou a situação é de que os coreanos costumam colocar o sobrenome antes do nome, facilitando a identificação.

O constante deslocamento faz os ornamentos serem perdidos / Créditos: Divulgação/YouTube

 

A arte do poongsu

A lápide e sepultura perfeita não deve somente ocupar o espaço, mas respeitar o poongsu, uma espécie de feng shui coreano que determina que o ambiente de alguém seja moldado pelo ambiente natural, representando o vento e a água. Quando um parente é enterrado em um lugar sem a calmaria necessária para a aplicação do poongsu, a crença é de que uma má sorte se replicará aos familiares vivos.

A prática, apesar de ser um rito de interesse de grande parte da população do país, é quase que exclusiva dos ricos e poderosos, visto que a maioria dos coreanos não dispõem de um espaço grande e livre para realizar as instalações fúnebres que sonham. A tradição é tamanha que, embora não seja admitido, os políticos sul-coreanos costumam mudar de lugar os túmulos de seus antepassados antes de eleições para dar sorte.

Em entrevista ao New York Times, Jee Jong Hag, um especialista em poongsu e administrador de um portal que guia a aplicação da técnica, afirma que, apesar da crença ser bastante popular, há casos bizarros: “Conheço um político, formado pela Universidade de Harvard, que mudou as sepulturas de seus pais oito vezes, quase uma vez por ano, esperando que isso lhe traga eleições ou cargo em algum gabinete”.

A sonhada trégua

A briga pelo espaço perfeito para o sepultamento acabou ultrapassando as barreiras do cemitério e se tornou uma disputa social, desde cargos públicos até relacionamentos amorosos.

Quando perguntado sobre uma filha casar com um Shim, Yoon Bu-hyun, ex-vice-presidente da LG e líder do clã Yoon foi simples e direto: “Nem mesmo sobre o meu cadáver! Você casaria seu filho com a filha do seu inimigo jurado?", indagou.

Em um acordo firmado em 2007, a família Yoon e Shim decidiu cessar as brigas e enterrar honestamente 19 membros que sofriam com as constantes mudanças de local e vandalismos. A família Yoon doou uma área de 8.300 metros quadrados para os Shim, interrompendo os problemas em uma antiga colina, que chegou a ser planificada para ficar apropriada para os enterros.

Em um gramado plano em um terreno com um espaço semelhante ao de um campo de futebol, os túmulos foram instalados próximas da fronteira com a Coréia do Norte, a cerca de 40 km de Seul, no ano seguinte. "Os descendentes de duas famílias concordaram alegremente", disse Yoon Pe-li, secretário-geral da Fundação da Família Yoon.


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