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Afinal, Zumbi de Palmares realmente tinha escravos?

Hoje, fala-se que Palmares era uma nação escravocrata cujo principal líder tinha escravos. Mas será que isso procede?

Jânio de Oliveira Freime Publicado em 25/08/2019, às 07h00

Zumbi
Zumbi - Crédito: Reprodução

Nos dias atuais, surgiu uma tese sobre a memória do Quilombo dos Palmares que afirma que Zumbi, último líder do maior Quilombo da História, seria dono de escravos e até que Palmares era, assim como a colônia portuguesa, uma sociedade escravista. Essa noção sobre Palmares vem ganhando cada vez mais adeptos, que dizem poder afirmar com certeza categórica que Zumbi tinha sim escravos. Porém, poucos sabem argumentar as razões para acreditar nisso.

Essa ideia de defender firmemente a escravidão em Palmares é um revisionismo histórico amador que foge do método histórico e se permite concluir respostas que são, ao mesmo tempo, ideologicamente convenientes e plenamente compreensíveis dentro do famoso senso comum.

Ao mesmo tempo, essa teoria vai de encontro com outra leitura imprecisa e idealista de Palmares que, ao fazer uso simbólico deste momento histórico e da figura de Zumbi, decai em uma visão quase onírica dos Palmares. Obviamente que a União dos Palmares não era o paraíso na terra, em que a felicidade e o prazer reinavam unanimemente.

Zumbi e a Guerra dos Palmares / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mesmo considerando o comparativo entre a Nação dos negros fugidos e a vida no engenho escravocrata, em que o primeiro era realmente uma condição de vida melhor, não é possível pensar a Palmares do século 17 como uma plena democracia, pois se tratava de uma monarquia — nos moldes do mundo subsaariano, claro — em que os regimes de trabalho e a dureza da vida não eram equivalentes por natureza.

Não havia lá plena horizontalidade, como se pretende o anarquismo, a democracia atual ou as relações de reciprocidade dos nativos americanos. Mas não se tem relatos da instituição de posse humana como regime de trabalho, que define a escravidão.

O principal argumento da teoria de que Zumbi tinha escravos é a comparação com a sociedade que o rondava. Segundo essa lógica, Palmares era mais um reino (uma verdadeira nação, de proporções próximas a Portugal) que vivia em interação com a sociedade escravista lusitana. Faria sentido, portanto, que Palmares tivesse uma lógica escravista. Não à toa, na maioria dos discursos que defendem essa tese, o "provavelmente" é uma palavra constante. Ou seja, o argumento não se sustenta para uma tese historiográfica.

Isso porque não há fundamentação para essa tese na documentação de época, o que é central numa dissertação em História. Se cada ciência humana tem sua base, a da História é o documento. E, no caso da tese de Narloch, são conclusões que partem da lógica e da retórica, o que não se fundamenta historiograficamente. As possíveis fontes que alguns outros historiadores apontam que podem reforçar essa tese são ainda bastante questionadas e não possuem muito prestígio entre os pesquisadores.

Área do Quilombo dos Palmares / Crédito: Reprodução

 

É relevante destacar que boa parte da aceitação dessa tese nasce de alguns conhecimentos equivocados sobre Palmares e Zumbi. Por exemplo, Zumbi, que sempre foi entendido como ícone do fim da escravidão, nasceu, viveu e morreu livre em seu reino. Nunca foi escravo, pois essa não é a condição natural de um negro no Brasil. Ao mesmo tempo, não é intrínseca à tradição africana a captura de escravos de guerra. Isso ocorria, sim, na África nessa época, mas não era algo que aparecia em todas as comunidades africanas. Além do mais, Palmares não era uma nação africana, mas um reino novo composto por africanos sequestrados e fugidos.

É incrível que alguns historiadores sérios, como Ronaldo Vainfas e José Murilo de Carvalho, caíram em certas falácias ou meias-argumentações dessa tese. Afinal, pouco se dedicou na historiografia estudos sérios de Palmares a partir de Palmares, sendo mais comum que a terra de Zumbi apareça entre comentários de estudiosos do mundo colonial português.

Hoje, há o crescimento dos estudos sobre Palmares a partir de uma metodologia adequada para esse recorte, sendo possível compreender melhor as desigualdades e os regimes de trabalho em Palmares, para averiguar com precisão a tese da escravidão, que ainda vive entre suposições e crenças.

De barba, Domingos Jorge Velho / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na memória social, também se destaca o conhecimento que temos dos textos do tempo de Zumbi (ou seja, da destruição de Palmares) para a disseminação da tese da Palmares escravista. Isso porque muito se falou sobre os relatos do bandeirante Domingos Jorge Velho, se seria possível concluir que Zumbi tinha escravos. Porém, a maioria dos historiadores concorda que a leitura de Jorge Velho era mais uma interpretação do luso-brasileiro sobre Palmares do que propriamente um relato do que ocorria no quilombo.

O que seria relatado como uso de mão-de-obra escrava em Palmares na verdade seria uma lógica de trabalho na terra em que a liberdade e a participação na sociedade de Palmares estariam diretamente atreladas ao trabalho e à participação na sobrevivência da comunidade (ou, como aparece na peça Arena conta Zumbi: “Que liberdade é essa se é preciso trabalhar? [...] Ser livre não é encostar o corpo não, ser livre é trabalhar, vigiar, continuar a ser senhor de si”/ ”Palmares tá grande, Palmares cresceu da força do braço do negro que sabe que é seu”.)

É impossível negar que o tema é polêmico. É igualmente inconsequente afirmar que a resposta já está fechada. Porém, a tese que diz que "é óbvio que Zumbi tinha escravos" é não só cientificamente irresponsável como também pesa, na balança da argumentação, para o lado com menos evidências para defender suas afirmações.