Namoro e casamento à moda colonial

Dos encontros furtivos às traições, os périplos amorosos do século 19

Mary del Priore Publicado em 09/03/2016, às 09h05 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Hafaell
Hafaell - Namoro colonial
Hoje, o casamento na igreja tem geralmente noiva de branco, mas nem sempre foi assim. O vestido branco significa a pureza da noiva, sua virgindade. No Brasil colonial essa questão importava apenas para as noivas da elite, que além da virgindade levavam como dote terras e escravos para o noivo. Nas grandes famílias patriarcais a “honra imaculada” da mulher era prezada porque garantia que o patrimônio não seria dividido entre filhos legítimos e ilegítimos, toda a riqueza iria só para os filhos que tivesse com o marido.
Entre as demais camadas da população, era diferente. Homens e mulheres viviam juntos, amigados ou amancebados, antes mesmo de casar. Viver junto antes do casamento equivalia, na linguagem da época, aos chamados “desponsórios de futuro”, isto é, uma união tendo em mente um futuro casamento. Porém, como não existiam anticoncepcionais eficientes, acabavam tendo muitos filhos. Para alguns homens, engravidar a companheira era importante, pois permitia avaliar se ela lhe daria muitos filhos ou não. Como a maioria vivia nas roças e campos, os filhos ajudavam na lavoura, porque os pais não tinham condições de ter escravos. Se eventualmente não se importavam com a virgindade, os homens ligavam muito para a fidelidade da companheira. Quando se sentiam traídos era comum ameaçar e espancar suas mulheres. Mas elas davam o troco. Abandonadas, não hesitavam em tentar envenená-los, ou pediam ajuda aos irmãos e parentes para aplicar-lhes uma boa surra. Não eram poucas as mulheres que se entregavam aos noivos esperando com isso casar mais rápido. Porém, às vezes grávidas, elas eram abandonadas. Vingativas e furiosas, iam se queixar para o bispo. Vem daí a expressão: “Vá queixar-se ao bispo!” Havia punições rigorosas para os homens que engravidassem as moças à força. Eles eram obrigados a casar ou a indenizar a “virgindade perdida”. Casos inversos também eram comuns: aproveitando-se de jovens ricos, moças pobres provocavam a gravidez para arrancar-lhes uma boa soma de dinheiro que lhes permitisse, mais tarde, casar com quem quisessem.
Namorava-se nas praças, nas praias, nas roças, nos terrenos baldios e nos quintais das casas. Também as igrejas eram visadas para namorar. No meio de tanta gente, dava para trocar beliscões e pisadelas no pé da moça. Esses gestos tinham o mesmo efeito que o beijo de hoje: deixavam os amantes mais apaixonados! As igrejas eram escuras, iluminadas apenas com a luz de velas, com chance para namoros mais avançados. Como hoje, as juras de amor e o hábito de dar e receber presentes faziam parte do namoro. Os presentes iam de tecidos caros, que quase não existiam no Brasil, fitas de veludo e chamalote até utensílios domésticos e frutas. Podiam ser corações de ouro, brincos de coral, coifas de tecido, para os mais ricos. E laranjas e palmitos entre os mais pobres. O importante era trocar a “dádiva amorosa”. 
Um antigo manual dos namorados publicado no século XIX recomendava: “O primeiro cuidado do cavalheiro ao simpatizar com uma senhorinha é não tentar fitá-la. Um olhar insistente compromete a dita senhorinha aos olhos paternos e pode provocar a atenção dos maldizentes... Se, por um revés da sorte, houver oposição, deve discretamente se afastar ou transmitir seus respeitosos sentimentos à gentil eleita. Não deve afrontá-la com bilhetes em termos que maculem a sua paz, quiçá vexatórios para a sua modéstia e candidez”.
As moças que desejassem muito se casar, mas encontravam dificuldades para tanto, costumavam rezar para os “santos casamenteiros”, como São Gonçalo e Santo Antônio. Nos casos de decepção amorosa, por exemplo, algumas moças mais desesperadas chegavam a esconder o Menino Jesus que o santo traz nos braços, até que ele lhes restituísse o namorado fujão. 
A Igreja Católica não só permitia como defendia o direito dos escravos de se casarem, inclusive com pessoas livres. Os senhores mais ricos casavam seus escravos no mesmo dia em que batizavam as crianças nascidas no engenho. Assim, chamava-se um padre que realizava as duas cerimônias e depois havia uma “função”, uma festa ao som de batuques, violas e atabaques. Alguns escravos endividavam-se com os senhores para oferecer uma festa pelo casamento de seus filhos. Depois trabalhavam dobrado para pagar a dívida. A defesa do direito dos escravos de casar e levar uma vida conjugal como qualquer pessoa era uma das prioridades da Igreja, que colocava a necessidade do casamento acima de tudo.
Entre os ciganos moradores de cidades como o Rio de Janeiro, onde atuavam como comerciantes de escravos, os noivos, após a cerimônia religiosa, seguiam para a casa dos pais da noiva onde iam receber a bênção. Aí, a noiva recebia uma camisola coberta de bordados. Ela tinha que exibir, pela manhã, as marcas de sangue comprovando sua virgindade.  
Sabe-se também que as pessoas tinham várias crenças em relação ao dia do casamento. Não se devia casar em dia de Sant’Ana, pois a noiva podia morrer de parto. Durante a manhã que antecedia o casamento a noiva não podia ajudar na cozinha matando e preparando animais, nem sair de casa, exceto para ir à igreja, sem olhar para trás no caminho. Ao voltar para casa depois da cerimônia, o casal era recebido com foguetório e cantos de alegria. Uma grande comilança encerrava as bodas.