Nassau, o brasileiro

O governante holandês deixou uma marca ainda viva no Nordeste

Reportagem Mariana Lacerda e Ernani Fagundes Publicado em 26/01/2017, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Retrato do governador enquanto jovem
Retrato do governador enquanto jovem - Georg Friedrich Ludwig

Em 1581, sete pequenas repúblicas do norte da Europa derrotaram a Espanha e se tornaram independentes. Juntas, elas formaram a Holanda. Era um país diferente. Primeiro porque era uma república, numa época em que a moda era ser monarquia. Segundo, porque era um dos poucos lugares do Velho Continente onde todo mundo podia manifestar sua própria religião. Tudo isso só durou até 1672, mas, nesses quase cem anos, os holandeses dominaram vários lugares do mundo: as Guianas, algumas ilhas perto do Japão, vilas do lado da China, a ilha de Java e a África do Sul. Também tomaram conta de uma pequena ilha nos Estados Unidos, na cidade que hoje se chama Nova York. E eles mexeram também com um território espanhol chamado Pernambuco.

Espanhol? Pois é. Desde 1580, a Espanha controlava Portugal, e portanto também mandava no Brasil. Os holandeses – ou flamengos – queriam tirar de seus antigos donos espanhóis a região mais rica do Brasil naquela época, o Nordeste. Começaram em 1624, com uma tentativa de dominar a capital, Salvador. Com a força de 25 navios a vela, eles conseguiram. Mas só por um ano. Depois disso, a Espanha retomou a cidade e matou os 1900 soldados inimigos que estavam ali. Em 1630, os flamengos voltaram com 67 navios e atacaram a praia de Pau Amarelo, no litoral de Pernambuco. Essa capitania era bem importante: tinha mais de 120 engenhos e estava no centro da mais importante região produtora de açúcar do mundo. Dali se instalaram em Recife e Olinda, onde conseguiram ficar por 24 anos. Batizada de Nova Holanda, Recife ganhou um governador-geral chamado Johan Maurits Von Nassau-Siegen. Ao chegar, em 1637, Nassau começou a revolucionar para sempre a cidade.

O novo governador não veio sozinho. Com ele chegaram a Recife 46 artistas, cronistas, naturalistas e arquitetos. Esse pessoal documentou todas as obras do governo e também pesquisou a natureza e a população da nova colônia. Começou então um período de crescimento cultural que o Brasil nunca tinha conhecido antes, e demoraria para encontrar de novo.

Comitiva da pesada

“Eles projetaram uma nova cidade, reproduziram as paisagens, fizeram mapas, catalogaram animais e plantas e retrataram os índios e os escravos. Até hoje esse trabalho é considerado importante para a história das ciências”, diz o historiador Leonardo Dantas Silva. Nassau encontrou uma cidade miserável de 7 mil moradores. Ele não demorou para começar a reforma geral. Primeiro mexeu na Ilha de Antônio Vaz (que hoje é o bairro de Santo Antônio, no centro do Recife), onde construiu a Mauritsstaden – ou, em bom português, a Cidade Maurícia. Ali fez ruas, praças, pontes, mercados, canais, jardins e saneamento. Também mandou que os moradores varressem a rua em frente de suas casas e parassem de jogar dejetos nas calçadas. Continuando as obras, construiu uma ponte para ligar a Cidade Maurícia ao bairro do Recife. Foi a primeira ponte da América Latina. Ela existe até hoje e é chamada de Ponte Maurício de Nassau. Recife virou a cidade mais cosmopolita da América. Holandeses, franceses, alemães e poloneses correram para lá. Mulheres holandesas chegaram para trabalhar nos novos bordéis, que ficaram famosos no mundo inteiro. Logo muita gente estava com sífilis, uma doença sexualmente transmissível.

Demissão

Nassau prestava contas à Companhia das Índias Ocidentais, a empresa holandesa que cuidava de todos os territórios ocupados no lado do oceano Atlântico. E foi por causa de suas brigas com os patrões que ele acabou sendo demitido, em 1643. Acontece que o governador gastava muito dinheiro com suas obras, e não dava o lucro que a Companhia esperava. Além disso, os holandeses tomaram conta dos engenhos de açúcar, mas não aprenderam como eles funcionavam. Então Nassau dependia dos portugueses – por isso, ele era obrigado a fazer uma média e não cobrar parte dos impostos. A Companhia pediu que Nassau fosse para cima de todo mundo que estivesse endividado, mas ele não obedeceu. Acabou dispensado. Depois veio o caos: em 1645 os portugueses começaram uma guerra pela independência que durou até 1654. No auge da penúria e da violência, os recifenses foram obrigados a comer gatos, cachorros, cavalos selvagens e ratos.

O conde Nassau voltou à Europa no mesmo barco que o trouxe ao Brasil, o Zuphen. Levou 13 navios e muito, mas muito dinheiro: 2,6 milhões de florins. Dava para construir 18 pontes iguais à que ele tinha feito. Na bagagem, também estavam amostras de plantas, animais e objetos indígenas e toda a produção de seus pintores e cronistas. Esse material deu aos europeus uma ideia inédita das riquezas do Novo Mundo. E também fez com que Johan Maurits ficasse conhecido, na Holanda, como Maurício Brasileiro.


 Enquanto isso, no Rio...

Quando foram expulsos de vez do Nordeste, em 1654, os holandeses ocuparam as ilhas Antilhas, no Caribe. Ali começaram a produzir um açúcar bem melhor do que aquele que era feito na capitania do Rio de Janeiro. Já que não dava mais para exportar como antes, os cariocas resolveram ganhar dinheiro produzindo cachaça. Acontece que, desde 1635, a branquinha era proibida, porque fazia concorrência com o vinho de Portugal – e os lusitanos também tentavam empurrar para suas colônias uma aguardente de uva que eles chamavam de bagaceira. Os grandes fazendeiros cariocas simplesmente desobedeceram Portugal. Em 1659, os portugueses partiram para a briga e destruíram dezenas de alambiques. No ano seguinte, Salvador Correia de Sá, o governador geral do território que ia do Espírito Santo até São Paulo, aumentou os impostos para todo mundo. A revolta foi geral, mas os produdores de cachaça de São Gonçalo do Amarante (onde hoje ficam as cidades de São Gonçalo e Niterói) foram os que mais chiaram. Eles começaram uma rebelião e chegaram a tomar o poder por alguns meses, até serem derrotados em 6 de abril de 1661. Mas alcançaram o objetivo: no mesmo ano, a rainha de Portugal liberou de vez a fabricação de aguardente.


Saiba mais
• Guerra, Açúcar e Religião no Brasil dos Holandeses, Adriana Lopez, Senac, 2002. 
• O Brasil e os Holandeses, 1630-1654, org. Paulo Herkenhoff, Sextante Artes, 1999.