Onde há galo não canta a galinha

À mulher virtuosa cabia o papel de obedecer e servir ao marido

Mary Del Priore Publicado em 02/03/2016, às 09h17 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

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. - Hafaell
O ditado popular do título não deixava dúvidas. No Brasil colonial, com algumas exceções, prevalecia a autoridade masculina. Essa devia ser a base das relações entre marido, mulher e filhos. Os ditados da época não dão margem a dúvidas: “Onde há galo não canta a galinha” ou “O homem na praça e a mulher em casa”. 
Numa sociedade machista e paternalista como a colonial, cabia à mulher e aos filhos obedecer às ordens do pai. Manter-se em casa, evitar os perigos e as oportunidades que podiam surgir na rua eram normas que tinham que ser cumpridas. A mulher devia ao marido “fidelidade”, “assistência”, “paciência” e “obediência”. Os maridos deviam às suas mulheres e também aos filhos, assistência alimentar e respeito. Os filhos ilegítimos tinham direito a ter assistência paterna (obrigatória) até completar 7 anos de idade. 

O amor entre homem e mulher, claro, também seguia os costumes da época. O amor feminino deveria ser respeitoso e recatado; e o masculino, um tipo de ternura inspirado pela “fragilidade” do sexo feminino. É claro que tal ordem podia ser quebrada: bastava o marido morrer ou ser obrigado a trabalhar fora da região onde vivia sua família para a mulher assumir o papel de “chefe do lar”. Muitas mulheres se insurgiram contra a ditadura do fogão e do berço resistindo às vontades do marido cotidianamente: salgavam a comida, deixavam de lavar a roupa ou passavam os dias na igreja – um dos poucos lugares de encontro social – 
a conversar com as amigas. 

Para essas mulheres que não queriam passar os dias “presas” em casa, a Igreja Católica reservava uma série de sermões “educativos” e proibições. Não podiam usar “unguentos enganosos (ou seja, perfumes e loções) e outros mil embelecos e embustes (joias ou maquiagem) que usam para chamar a atenção dos homens”. Não podiam, no entender de um padre, “mostrar os artelhos dos pés”, pois isso “espicaçava os aguilhões da carne”, sendo também considerado um pecado grave. E  pecado gravíssimo era mostrar “a nudez dos peitos” ou aceitar “as desculpas” daquelas que diziam que iriam “cobri-los com gazes e panos transparentes, provocando mais atenção”, rugia outro padre!  

A Igreja em geral temia pela perda da honra das mulheres casadas. Como revela o livro Armas da Castidade, escrito pelo padre Manuel 
Bernardes. No capítulo intitulado Como se Portará uma Mulher Casada para Não Cair em Adultério ou Já Caída Nele, o padre recomendava a essas mulheres que treinassem a abstinência sexual para enfrentar a solidão nas viagens de seus maridos. As visitas masculinas deviam ser recebidas pelas mulheres da família – mãe e filhas casadas ou solteiras – “com decoro e sob os estribos da sisudez”! 

Era preciso, também, controlar os escravos domésticos para que esses não “alcovitassem”, isto é, não levassem recados amorosos, das donzelas da família aos seus namorados. Os escravos também não podiam ajudar os namorados nos encontros proibidos pela família. “Pode haver maior descuido do que deixar uma mãe sair uma filha só em companhia de uma escrava desonesta?”, perguntava-se, escandalizado, o cronista colonial Nuno Marques Pereira. 
Mesmo para ir à igreja devia haver controle, pois, no caminho as mulheres podiam encontrar mais pecados. No período colonial, a igreja era o lugar preferido para encontros amorosos. Nos dias de missa e festas religiosas, ou quando estavam vazias, as igrejas eram ideais para a troca de beliscões, pisadelas e beijos furtivos por trás das colunas e altares.

Todas essas exigências transformavam as mulheres coloniais em seres recatados e sisudos, para quem no casamento e na família tinha uma função específica: a de “servir e obedecer como fazem as boas, virtuosas e bem procedidas mulheres”, como explicou uma delas, ao responder, em 1761, um processo de divórcio. O companheirismo, baseado na concórdia mútua, era o sentimento aconselhado aos esposos. O amor e a paixão dentro do casamento deviam ser minimizados, pois o amor-paixão é sempre irracional. Segundo os pregadores era “o oceano em que naufragam as más paixões”, arriscando levar, nesse naufrágio, os bens, a honra e o patrimônio familiar. Antigos provérbios populares e muito antigos mostram, no entanto, como era difícil, já naquela época, a realização desses ideais:
“Casa de pombos, casa de tombos”;
“Casados, separados”.