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Briga real: a conturbada saga do indiano Abdul Karim na corte da Rainha Vitória

Considerado o criado preferido da soberana, o rapaz despertou a indignação e fúria dos membros da Casa Real

Redação Publicado em 30/08/2020, às 19h29

Retrato oficial de Abdul Karim, em 1888
Retrato oficial de Abdul Karim, em 1888 - Wikimedia Commons

Mohammed Abdul Karim, mais conhecido como Munshi, foi um assistente indiano da Rainha Vitória, que serviu a monarca durante 14 anos. Ao longo do tempo, o rapaz conquistou a afeição maternal da soberana, até que ela o nomeou como seu secretário e lhe concedeu terras na Índia. Entretanto, a estreita relação ocasionou em atritos na corte. 

Nascido em uma família muçulmana em Lalitpur, no ano de 1863, Mohammed Abdul Karim era filho de Haji Mohammed Waziruddin, assistente de hospital. Munshi aprendeu a falar persa e urdu e chegou a trabalhar como vakil — espécie de agente — para o Nawab de Jaora no Agência de Agar. Mais tarde atuou como escrivão vernáculo em uma prisão de Agra. 

Em 1886, alguns presidiários viajaram à Londres para demonstrar a tecelagem de tapetes na Exposição Colonial e Indiana, em South Kensington. Abdul Karim, por sua vez, ajudou o superintendente do presídio, John Tyler, a organizar a viagem e a selecionar os tapetes e tecelões. 

Em Londres, Tyler presenteou a Rainha Vitória com duas pulseiras de ouro, que foram escolhidas com a ajuda de Abdul Karim. A soberana, que tinha interesses nos territórios indianos, pediu ao superintendente que recrutasse duas pessoas para serem seus empregados durante um ano. Abdul Karim, foi o escolhido e teve que ser treinado às pressas. 

Rápida ascensão na corte

Assim como combinado com a rainha, em junho de 1887, Abdul Karim desembarcou no Castelo de Windsor. Sob o comando do Major-General Dennehy, o rapaz serviu a monarca que descreveu em seu diário: "O outro, muito mais jovem, é muito mais leve [do que Buksh], alto e com um semblante sério e bonito. Seu pai é um médico nativo em Agra. Os dois beijaram meus pés".  

Retrato da Rainha Vitória / Crédito: Getty Images

 

Em pouco tempo a Rainha Vitóri ademonstrou afeição por Karim e ordenou que o ensinassem a falar a língua inglesa. Um ano depois, o rapaz foi promovido de cargo: "Eu particularmente desejo manter seus serviços, pois ele me ajuda no estudo do Hindustani, o que me interessa muito, e ele é muito inteligente", escreveu a monarca em seu diário. 

Segundo a biógrafa de Karim, Sushila Anand, ele se tornou o primeiro escriturário pessoal indiano da rainha e com o passar tempo Vitória criou uma forte conexão com o rapaz, que se tornou uma espécie de confidente. Mais tarde, Karim era responsável por outros servos indianos e suas contas.

Além disso, o assistente da rainha foi realocado para ocupar o antigo quarto de John Brown — criado favorito de Vitória, que morreu anos antes. Entretanto, a rápida ascensão de Karim gerou tensão entre os membros da Casa Real, que se recusavam a tratá-lo amigavelmente. A situação se agravou quando Albert Edward, Príncipe de Gales (mais tarde Eduardo VII), convidou a rainha para a sua casa em Sandringham.

Na ocasião, Karim recebeu um assento ao lado dos demais criados da corte. Insultado com a situação, o rapaz se retirou do local, e a rainha, por sua vez, ficou ao seu lado. Outra pessoa que não gostou nada dessa relação foi o filho da rainha, o Príncipe Arthur, Duque de Connaught e Strathearn, que chegou a criticá-lo para o secretário particular da rainha.

Desavenças na Casa Real

Boa parte dos moradores da Casa Real demonstravam repúdio e indignação pela maneira como a soberana tratava o criado indiano. As desconfianças contra Karim aumentaram quando o cunhado do rapaz vendeu um dos broches de Vitória para um joalheiro em Windsor. Entretanto, ela não viu maldade no ato, embora todos acreditassem que ele havia a roubado. 

Em julho de 1889, um mês após o incidente, Karim passou a usar uma sala de estar privativa, para o desconforto dos outros moradores do castelo. No mesmo ano, Vitória escreveu à Lord Lansdowne, sob influência de Karim, para que Tyler fosse promovido de cargo. Após a insistência da monarca, o rapaz foi nomeado como Inspetor Geral Interino das Prisões. 

 Pintura real de Abdul Karim / Crédito: Wikimedia Commons

 

No início de 1890, Karim ficou gravemente doente. Preocupada com a saúde de seu assistente, a rainha ordenou que o médico real da família cuidasse de sua saúde. Após o especialista operar o rapaz, Vitória passou a visitá-lo duas vezes ao dia, para averiguar o seu estado de saúde. 

Após a recuperação de Karim, a rainha ordenou que o artista Heinrich von Angeli pintasse um retrato do indiano. Em julho daquele mesmo ano, ela concedeu terras na Índia para o confidente, pois não confiava em sua família para cuidar dele após a sua morte. Com o passar do tempo, Karim e a monarca passaram a trocar correspondências, que eram assinadas pelo rapaz em urdu. A rainha, por sua vez, assinava as cartas como "sua mãe afetuosa, VRI" ou "sua mãe verdadeiramente dedicada e amorosa, VRI". 

Cada vez mais os membros da Casa Real passaram a destratar Karim e chegaram a suspeitar que ele pudesse ter ligação com Rafiuddin Ahmed, um ativista político indiano residente em Londres que estava ligado à Liga Patriótica Muçulmana. No entanto, nunca comprovaram nenhuma das acusações contra Karim.

Últimos anos de vida

Em 1899, em seu 80º aniversário, Vitória nomeou Karim como comandante da ordem, isto é, um intermediário de patente e cavaleiro, entretanto, naquele mesmo ano, o rapaz retornou à Índia. Um ano mais tarde, ele foi até Londres, onde se deparou com a rainha visivelmente debilitada.

Após a morte da monarca, seu filho, Edward VII, dispensou Karim e seus parentes da corte, no entanto, permitiu que ele fosse o último a ver o corpo da soberana. Além disso, boa parte das correspondências trocadas entre ambos foram queimadas e Karim voltou para Índia. 

Em 1909, ele veio a falecer, aos 46 anos de idade, em sua propriedade em Agra. Karim deixou duas esposas e como não tinha filhos, seus sobrinhos e demais parentes, herdaram suas riquezas e propriedades.


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