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Como a historiografia enxerga o estupro presente em 'O Último Duelo'?

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a historiadora Cristiane Coimbra, analisou a cultura de estupro e as nuances do anacronismo histórico

Victória Gearini | @victoriagearini Publicado em 24/10/2021, às 07h56

Personagem Marguerite de Carrouges, interpretada por Jodie Comer
Personagem Marguerite de Carrouges, interpretada por Jodie Comer - Divulgação / 20th Century Studios

Baseado em fatos reais, o filme 'O Último Duelo', em cartaz nos cinemas, conta a história verídica de um estupro ocorrido no século 14, durante a Idade Média. Em 1386, Marguerite de Carrouges — interpretada por Jodie Comer — foi vítima de abuso sexual. Contudo, a jovem teve sua palavra questionada, sendo arduamente criticada pela sociedade da época.

Pensando nisso, o site Aventuras na História convidou a historiadora Cristiane Coimbra para explicar como a historiografia enxerga o estupro retratado no filme.

Estupro no século 14

Marguerite de Carrouges foi uma jovem nobre casada com o cavaleiro Jean de Carrouges — no filme interpretado por Matt Damon. Filha única do nobre Robert de Thibouville, a moça se casou com o cavaleiro em 1380.

Cena do filme 'O Último do Duelo' (2021) / Crédito: Divulgação / 20th Century Studios

 

Seu marido lutou na Guerra dos Cem Anos, em nome da França e contra as forças inglesas. O melhor amigo de Carrouges era Jacques Le Gris — interpretado por Adam Driver.

No entanto, a amizade de ambos já andava estremecida. A situação se agravou quando Carrouges viajou a negócios. Na ocasião, Le Gris aproveitou um momento em que sabia que a jovem estaria sozinha em casa e a estuprou.

Marguerite, por sua vez, decidiu não se calar perante o crime e contou ao marido o que havia acontecido. Na época, abuso sexual não era crime contra a mulher, mas sim ao companheiro dela. Portanto, Carrouges levou o caso à corte de Carlos VI, o “Rei Louco”. 

A partir disso, ficou decidido que para provar a veracidade do crime, Carrouges e Le Gris deveriam se enfrentar em um último duelo, onde Deus julgaria quem estivesse mentindo — sentenciando o perdedor a morte.

“No caso deles, se o Carrouges vencesse a verdade estaria com a Marguerite. No entanto, se ele perdesse, ela estava mentindo e seria queimada viva”, explicou Cristiane Coimbra em entrevista exclusiva à Aventuras na História.

No fim, Le Gris foi morto durante o confronto. Carrouges virou uma espécie de “celebridade” na época. Contudo, durante uma batalha da Guerra dos Cem Anos, ele veio a falecer.

Respectivamente: Jean de Carrouges (Matt Damon) e Jacques Le Gris (Adam Driver) / Crédito: Divulgação / 20th Century Studios

 

Por outro lado, Marguerite que engravidou depois do fatídico episódio, criou seu filho sozinha e nunca mais se casou.

Análise do filme 

No livro de Eric Jager, que leva o mesmo nome do filme, o autor conta que a vítima teve sua palavra questionada mesmo após décadas do tétrico acontecimento.

“O caso célebre continuou a levantar controvérsias por séculos, com posteriores comentários completamente divididos sobre a disputa, da mesma forma que as pessoas se dividiram na época dos acontecimentos”, escreveu o autor do livro “O Último Duelo”. 

Segundo a historiadora Cristiane Coimbra é importante analisar este episódio de estupro ocorrido no século 14, mas tomando cuidado para não cometer anacronismo histórico. 

“Naquele momento havia a questão da Igreja Católica dominar a mentalidade da época, como questões que eram consideradas pecados, questões do corpo e de prazeres. Tudo era muito permitido para os homens, mas negado às mulheres”, disse ela. 

Por outro lado, a historiadora ressalta que a sociedade atual possui raízes intrínsecas daquele período.

“Uma mentalidade religiosa, naqueles moldes, hoje em dia não temos. Mas temos uma sombra daquilo, que ainda está permeando a sociedade. Isto é, existe o ‘espírito’ da época. Então acho que podemos sim pensar [na cultura de estupro], mas tomando cuidado para não cometer anacronismo, porque não podemos esquecer a mentalidade daquele período”, ressaltou. 

Para Coimbra, é importante compreender que os resquícios do passado permeiam a sociedade atual. Isso porque, muitas vítimas de estupro, ainda hoje, enfrentam constrangimentos, tem suas palavras questionadas e são julgadas pelos crimes que sofrem.

“Hoje em dia, até a mulher conseguir a justiça e o agressor ser julgado, a mulher percorre um longo caminho”, concluiu ela.

+Assista ao trailer oficial do filme:


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