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Polacas: As escravas sexuais judias

Após serem traficadas pela Zwi Migdal, foram cruelmente excluídas pela comunidade judaica e em resposta montaram seus próprios cemitérios

Texto: Victória Gearini/ Reportagem: Beatriz Abrantes, Gabriel Ferreira, Matheus Teles, Mariana Alves e Victória Gearini Publicado em 06/03/2020, às 13h00

Filme Jovens Polacas, com a direção de  Alex Levy-Heller
Filme Jovens Polacas, com a direção de Alex Levy-Heller - Pipa Produções e Afinal Filmes

Durante o século 19 e 20 a organização criminosa Zwi Migdal operou no leste europeu traficando mulheres judias para o Brasil, Argentina e Estados Unidos. As polacas, como ficaram conhecidas, foram escravizadas sexualmente por membros da própria comunidade judaica.

Os primeiros relatos da chegada das escravas judias no Brasil são de 1867. Durou cerca de 100 anos o tráfico dessas mulheres, que migraram principalmente da Polônia. Neste período, os judeus mais pobres sofriam com o antissemitismo do antigo império russo, portanto muitos abandonaram seu país natal com a ilusão de uma vida melhor.  

Homens judeus com alto poder aquisitivo iam aos bairros mais pobres da comunidade judaica para pedir a mão de jovens judias em casamento. Em troca elas deveriam abandonar seu país natal. Muitas vezes sem saber que seriam exploradas pela Zwi Migdal, famílias concediam o pedido.

Polaca sendo leiloada/ Crédito: Divulgação

 

“No meio do caminho, estuprava a moça e, chegava no lugar, ela tinha que render dinheiro. Era quase um processo industrial, porque, no começo, tinha que mostrar produção. 20, 30 clientes por dia”, conta o historiador e especialista no assunto Paulo Valadares.

A historiadora e diretora do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, Beatriz Kushnir conta a história completa das polacas em sua obra mais famosa, Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição.

Exploradas sexualmente, elas passaram a ser consideradas impuras e pecadoras perante a comunidade judaica. Por conta disso não poderiam ser enterradas junto aos outros judeus, segundo a historiadora.

Cartaz do filme Jovens Polacas, retratando a exploração sexual de judias/ Crédito: Pipa Produções e Afinal Filmes

 

“Dentro dos preceitos religiosos judaicos as prostitutas são enterradas junto ao muro dos cemitérios, reforçando e demarcando o locus da exclusão e do estigma”, trecho retirado do livro Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição.

A pesquisadora explica ainda que para diminuírem o sentimento de exclusão social, elas fundaram associações de ajuda mútua a partir dos preceitos da religião judaica, com objetivos beneficentes e funerários. É possível encontrar vestígios dessas comunidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Buenos Aires e Nova York.

Polacas e a associação de ajuda mútua/ Crédito: Augusto Malta

 

“As polacas mostram que essa ideia de que existia uma comunidade judaica que abraça e protegia todos do que estava acontecendo, não é verdade. E isso quebra esse paradigma”, explica Beatriz Kushnir ao se referir à marginalização e exclusão social das prostitutas judias.

Com o extermínio dos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, houve o declínio no tráfico humano. Em geral, essas mulheres morriam jovens, de tuberculose ou doenças venéreas.

Em 1972, a prefeitura de São Paulo desapropriou o Cemitério Israelita Chora Menino, próprio das polacas, com a justificativa de estar abandonado. Ao saber disso, a comunidade judaica transferiu mais de 200 restos mortais para o Cemitério Israelita do Butantã.

Lápides de polacas no Cemitério Israelita do Butantã/ Crédito: Victória Gearini

 

O diretor do Cemitério Israelita do Butantã, Guilherme Faiguenboim explica que é possível encontrar restos mortais de alguns homens junto das polacas, possivelmente de filhos ou cafetões.  

“Eram repudiadas pelos judeus normais, tinham que se virar. Tinham cemitério próprio, uma sociedade que ajudava as que ficavam doentes, que ficavam velhas, como uma segurança social. Elas tinham a sinagoga delas! E não eram só mulheres que participavam, tinha alguns homens que eram os cafetões”, conta o diretor.

Os judeus tem o costume de enterrarem seus entes queridos em lápides luxuosas e embora seja possível localizar as polacas em algumas delas, em geral foram realocadas para lápides de concreto.

Lápides luxuosas de duas polacas e ao fundo as outras 200 judias enterradas no Cemitério Israelita do Butantã / Crédito: Victória Gearini 

 

O diretor explica que nas lápides há inscrições em hebraico, proclamando triste e pedindo a Deus para que não reencarnem.  “Os meus olhos choram por dias amargos”, traduz Guilherme uma das lápides do cemitério.

Há relatos de mulheres que viraram cafetinas, e que se casaram e abandonaram a profissão. Além disso, influenciaram a língua portuguesa. Quando avistavam a polícia elas gritavam sacana (polícia), que mais tarde originou a palavra sacanagem. “Elas queriam ser lembradas para além da prostituição”, afirma Kushnir.


+Saiba mais sobre as polacas com as obras abaixo:

Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição, de Beatriz Kushnir (1996) - https://amzn.to/35Rbpch

Jovens Polacas, de William Styron (2008) - https://amzn.to/2MmLkdm

O ciclo das águas, de Moacyr Scliar (1975) - https://amzn.to/35SQaqp

Os excluídos da história: Operários, mulheres e prisioneiros: Operários, mulheres e prisioneiros, de Michelle Perrot (2017) - https://amzn.to/2PSeymk

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