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Obra revela que crianças indígenas e filhos de militantes foram sequestrados por militares brasileiros

Durante duas décadas, o jornalista Eduardo Reina reuniu documentos que comprovam os raptos organizados pelas Forças Armadas

Victória Gearini Publicado em 16/03/2020, às 17h30

Imagem da capa do livro de Eduardo Reina
Imagem da capa do livro de Eduardo Reina - Divulgação / Amazon

O Golpe de 64 foi um marco na História do Brasil, repleto de torturas e assassinatos. No entanto, o que poucos sabem, são os detalhes insólitos que envolvem crianças inocentes por trás deste período sombrio. Segundo pesquisas minuciosas do jornalista Eduardo Reina, filhos de militantes da esquerda eram sequestrados e colocados para a adoção, assim como crianças indígenas e filhos de usuários de drogas. 

Lançada em 2019, pela Alameda Editorial, a obra Cativeiro sem fim: as Histórias dos Bebês, Crianças e Adolescentes Sequestrados Pela Ditadura Militar no Brasil, do jornalista brasileiro Eduardo Reina, retrata a visão daqueles que tiveram suas vidas transformadas e roubadas pelos militares.

Durante duas décadas, o repórter dedicou-se em reunir informações que pudessem evidenciar as atrocidades cometidas pelos militares, não somente contra os guerrilheiros, mas também envolvendo seus filhos. Segundo o autor, houve um terrorismo de Estad. Ou seja, por meio da força bruta, os agentes da repressão sequestraram e torturaram crianças e adolescentes, com o objetivo de atingirem membros dos movimentos de resistência. 

Para apurar os casos de vítimas raptadas pelos os militares, Eduardo Reina percorreu mais de 20 mil quilômetros até encontrar documentos inéditos e inúmeras fontes. Segundo a reportagem do jornalista, a grande maioria dos jovens sequestrados eram filhos de guerrilheiros e residiam em regiões da Amazônia.

Membros da Guerrilha do Araguaia / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ao longo de sua pesquisa, ele percebeu que esses crimes eram considerados "comuns" em outras ditaduras da América Latina. No entanto, no Brasil, os arquivos que comprovam os abusos militares permaneceram em sigilo absoluto durante anos, ocultando uma parte da História nacional. 

Após concluir sua longa, cuidadosa e aprofundada pesquisa, Eduardo Reina se encarregou de encaminhar os atos criminosos cometidos pelos militares para o Ministério Público Federal, pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. A justiça, por sua vez, aceitou os dados levantados pelo o jornalista, o configurando como testemunha. O depoimento de Reina atribui a ação dos militares como sendo lesões graves. 

Em uma audiência pública da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM), realizada em agosto de 2019, a procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Déborah Duprat, afirmou que diversas crianças foram retiradas a força de seus pais durante a ditadura militar.

“Mas nunca conseguimos informações mais concretas porque todos os dados estão sob sigilo. Tenho dúvidas se essas crianças existem ainda, temos pouca clareza sobre o que aconteceu com nossas crianças na ditadura”, disse Duprat na audiência. 

A procuradora federal revelou, ainda, que estes atos criminosos não foram isolados e incluíam até filhos de povos indígenas. “Elas foram retiradas de seus pais porque, supostamente, eles cometeram crimes como ocupação de terras”, concluiu Déborah Duprat.

Obra Cativeiro sem fim, de Eduardo Reina (2019) / Crédito: Divulgação / Amazon

 

Filhos de membros da Guerrilha do Araguaia também foram capturados pelos militares, sendo que muitos foram dados como mortos para as famílias.  Os jovens tinham suas identidades falsificadas e eram entregues para lares adotivos. Já adolescentes, muitas vezes, passavam a trabalhar em quartéis sob a supervisão das Forças Armadas. 

Outro perfil apontado por Déborah Duprat  foram os casos envolvendo filhos de pessoas dependentes químicas. “O mesmo (ocorreu) com mães usuárias de crack, que entraram no hospital para o parto e acordaram sem o filho, que eram retirados através de termos de ajuste do Ministério Público”, afirmou a procuradora. 

Ao todo, a obra reúne 19 casos, mas estima-se que este número seja muito maior. Em entrevista à BBC, em 2019, Eduardo Reina afirmou ter procurado a Forças Armadas para esclarecer o fato, mas não obteve respostas. O mesmo aconteceu com a equipe de reportagem da BBC News Brasil.

“A divulgação desses 19 crimes hediondos, que não prescrevem, deve ser feita para que a história da ditadura do Brasil seja contada sob o olhar de todos os envolvidos. E tomara que a comunicação desses sequestros de bebês, crianças e adolescentes pelos militares leve outras pessoas a revelarem o que sabem e novos casos possam ser identificados”, disse Reina à BBC.


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Cativeiro sem fim: as Histórias dos Bebês, Crianças e Adolescentes Sequestrados Pela Ditadura Militar no Brasil, de Eduardo Reina (2019) - https://amzn.to/33p1U3m

Notas de Um Tempo Silenciado, de Robson Vilalba (2014) - https://amzn.to/3buZjc5

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