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Obra feminista ousada do século XIX é relançada em versão atualizada

Maria do Rosário A. Pereira fala sobre o marco que foi “Lésbia”, de Maria Benedita Bormann, para a literatura brasileira

Redação Publicado em 13/11/2021, às 11h30

Retrato de Maria Benedita "Délia" Bormann
Retrato de Maria Benedita "Délia" Bormann - Domínio Público / Via Wikimedia Commons

A representação feminina na literatura brasileira foi, por muito tempo, estereotipada. As mulheres costumavam ser representadas de forma inferior ou como objeto erótico masculino nas narrativas, sendo que muitas nem sequer ganharam importância e destaque na história. No entanto, na virada dos séculos XIX e XX, a romancista e jornalista Maria Benedita Bormann utilizou o pseudônimo “Délia” para publicar “Lésbia”, que viria a revolucionar os costumes adotados dentro dos romances daquela época.

Uma história perdida no tempo, que teve poucas edições lançadas desde sua publicação, ganha uma versão atualizada e revisada pela Editora 106, com diagramação moderna onde o leitor contemporâneo terá maior fluidez durante a leitura. O romance conta com a contribuição da doutora em Estudos Literários da Universidade Federal de Minas Gerais, Maria do Rosário A. Pereira, que conversou exclusivamente com a Aventuras na História sobre Lésbia, Maria Benedita Bormann e o feminino na época da publicação original do livro.

Crédito: Reprodução / Editora 106
Crédito: Reprodução / Editora 106

Um marco ousado na literatura

Em Lésbia, a autora Maria Benedita Bormann utiliza a personagem principal como seu alter ego para apresentar a luta da mulher, que deve enfrentar o menosprezo e a cobiça masculina de cabeça erguida. Assim, Bormann trouxe críticas duras ao machismo estrutural dentro de sua história, antecipando discussões que viriam a se tornar pautas importantes, como o abuso doméstico, o empoderamento feminino, o desejo da mulher e a depressão. E mesmo assim, Maria Benedita não deixou os infortúnios da vida de lado na obra, como ser traída pelo próprio coração no momento em que acreditava ter alcançado a maturidade emocional que lhe protegeria de decepções.


Quem foi a autora?

Maria Benedita Bormann nasceu em Porto Alegre, em 1853 e, segundo Maria do Rosário, pertencia a uma família renomada, detentora de status político e social. Mudou-se para o Rio de Janeiro quando tinha dez anos de idade e a vinda para a cidade, que na época ainda era capital do Brasil, lhe permitiu acesso à fina educação, que incluía idiomas estrangeiros, pinturas e música. Como pouco a pouco as mulheres começaram a se destacar na imprensa brasileira das últimas décadas do século XIX e conseguiram pautar assuntos importantes para o feminismo da época, Bormann escreveu e publicou crônicas e folhetins para veículos de comunicação como a Gazeta de Notícias, Gazeta da Tarde, O País e O Cruzeiro. E mesmo com as reservas da cultura de sua época, Maria Benedita tratava de assuntos considerados temerários, como a educação e a emancipação da mulher, divórcio e duras críticas à supremacia masculina.


A publicação de “Lésbia” e o recebimento pelo público

“Há registros de que Lésbia foi relativamente bem recebida quando de sua publicação, com comentários elogiosos na imprensa. No entanto, não há informações muito substanciais sobre isso”, disse Maria do Rosário. Segundo ela, a obra é um caso importante na literatura brasileira a ser considerado, em que a autora refletiu os desafios pessoais, conflitos e a situação social das mulheres de sua época na personagem principal. Mas como a doutora comentou em entrevista, com os seus escritos praticamente fora de circulação e as poucas edições do livro, foi preciso resgatar Lésbia em uma versão atualizada. Confira o que Maria do Rosário A. Pereira disse à Aventuras na História sobre o relançamento da obra:

“Resgatar essas narrativas é fundamental para redimensionarmos nossa História e mesmo para que possamos entender muitos dos entraves que permanecem ainda hoje no que se refere à igualdade de gênero. As mulheres de hoje são muito devedoras às lutas das mulheres de ontem, muitas delas travadas, inclusive, no campo ideológico e das letras. Conhecer essas escritoras é imprescindível nesse sentido, ao mesmo tempo que entendemos, também, que muitas e diferentes são as perspectivas que a Literatura pode nos apresentar – de modo distinto do que nos impõe uma escolarização tão fechada às chamadas obras canônicas, com personagens predominantemente brancas e masculinas ocupando a cena.”

A nova versão de “Lésbia” foi lançada no dia 8 de novembro e já está disponível na versão física e eBook na Amazon para você adquirir.

Confira um trecho da obra disponível na Amazon:

“Acharam imorais os trabalhos de Lésbia, os néscios e os dissolutos de que, em geral, se compõe a massa social, quando, de fato, a imoralidade só existia em seus obtusos cérebros, incapazes de compreendê-la.”


+Saiba mais sobre “Lésbia”, de Maria Benedita Bormann, através da Amazon:

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