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Violência sexual e cobertura midiática: o brutal crime contra Cheryl Araujo

O caso ganhou um episódio de destaque na série Trial by Media, disponível na Netflix

Victória Gearini Publicado em 13/06/2020, às 10h00 - Atualizado às 20h43

Cheryl Araujo, vítima retratada na série Trial by Media
Cheryl Araujo, vítima retratada na série Trial by Media - Divulgação

Cheryl Araujo foi uma americana criada em New Bedford, em Massachusetts. Em 1983, quando tinha 21 anos, a jovem foi estuprada por quatro homens em uma taberna na cidade, enquanto outras pessoas que presenciaram o brutal crime não interviram. Seu caso escandalizou o país e foi muito noticiado pela mídia, despertando a cobertura de julgamentos de estupro. Atualmente é possível encontrar o relato completo na série Trial by Media, lançada em 2020 e disponível na Netflix. 

O crime 

No dia 6 de março de 1983, após colocar suas duas filhas para dormir, Cheryl Araujo saiu para comprar cigarros. No entanto, ao chegar na loja que estava acostumada a ir, o local já estava fechado, portanto, a jovem prosseguiu parou o Big Dan's Tavern. Acredita-se que Araujo tenha tomado alguns drinques e socializado com uma das garçonete que conhecia.

Neste tempo, ela observou que alguns homens estavam jogando sinuca nos fundos do estabelecimento, no entanto, ao tentar voltar para a área externa do bar, Joseph Vieira e Daniel Silvia a surpreenderam e a atacaram, tirando suas roupas. Posteriormente um terceiro homem a agarrou por trás e a jogou sob a mesa de bilhar.

Cheryl Araujo durante julgamento / Crédito: Divulgação 

 

Despida na parte de baixo, a jovem foi estuprada por vários homens ao mesmo tempo. Segundo o relatório da perícia, Araujo teria ouvido pessoas rindo, aplaudindo e gritando, mas ninguém a socorreu. Durante o julgamento, Araujo foi questionada se havia realmente uma multidão, com 12 ou 15 homens aplaudindo os estupradores, pois, segundo a polícia isso seria incoerente. 

Seminua e abalada, Araujo conseguiu se libertar dos agressores e correu em direção a rua, onde avistou três estudantes universitários que a levaram ao hospital mais próximo. Este relatório foi amplamente divulgado pela imprensa, levando a uma profunda indignação popular. 

No julgamento, Araujo admitiu que por conta do trauma ela não podia afirmar quantas pessoas estavam presentes no bar naquele momento, mas reforçou que ouviu aplausos. Uma da testemunhas disse, ainda, que quando viu o ataque gritou "Vá em frente!", mesmo assim as autoridades continuavam desacreditando da vítima. 

Julgamento 

Ao todo, seis homens foram presos e acusados ​​de estupro. Victor Raposo, John Cordeiro, Joseph Vieira e Daniel Silva foram indiciados por estupro agravado, enquanto Virgilio Medeiros e Jose Medeiros foram acusados de incentivar um ato ilegal e não impedi-lo. 

Cobertura do julgamento feita pela mídia / Crédito: Divulgação 

 

Para evitar que os homens testemunhassem um contra o outro, as autoridades decretaram apenas dois julgamentos, um para os quatro estupradores em nível agravado e outro para os dois cúmplices. Os três estudantes que encontraram Araujo após o ataque, testemunharam a favor dela e disseram, ainda, que a jovem estava extremamente abalada e ferida. 

Na época, os advogados de defesa levantaram questões pessoais da vida íntima da vítima, sugerindo que ela teria convidado e merecido o brutal ataque. O julgamento foi transmitido pela mídia ao vivo, tendo seu nome divulgado em todo o país. 

Embora o tribunal pudesse impedir que a identidade de Araujo fosse divulgada, eles não fizeram nada para proteger a vítima, pelo contrário, se omitiram. Quatro réus foram condenados por estupro agravado e os outros dois homens foram absolvidos. Todos ficaram presos apenas por 6 anos.

Cobertura midiática

Este caso ganhou cobertura internacional e contribuiu para o debate sobre a privacidade e saúde das vítimas de estupro. Para o promotor do caso, era preciso que estas pessoas fossem protegidas com o encerramento dos julgamentos, pois, segundo ele, a publicidade em volta destes assuntos poderiam desencorajar outras vítimas a denunciarem. 

Protestos contra a divulgação do nome de vítimas de estupro / Crédito: Divulgação 

 

As coberturas receberam classificações amplas, =segundo um estudo lançado posteriormente, "a publicação do nome de uma vítima de estupro invade severamente os interesses pessoais de privacidade da vítima e expõe a vítima a uma variedade de problemas sociais e psicológicos".

Na época houve, ainda, um debate nacional sobre a divulgação da identidade de pessoas que sofreram algum tipo de violência sexual. Tal fato, levou o, até então, senador dos Estados Unidos, Arlen Specter, da Pensilvânia, realizar audiências para debater as questões levantadas após este julgamento. 

O assunto dividiu a população e os especialistas; no entanto, outro ponto levantado, foi a irresponsabilidade da cobertura da imprensa em divulgar sempre o primeiro relatório policial, sem atribuição adequada. 

Morte de Cheryl Araujo

Logo após o julgamento, Araujo se mudou para Miami, na Flórida, ao lado de suas filhas e o pai das garotas. Em busca do anonimato, a jovem voltou a estudar e a levar uma vida pacata. No entanto, em 14 de dezembro de 1986, Araujo perdeu o controle de seu carro enquanto passeava com as suas filhas. Embora as garotas tenham sobrevivido, ao atingir um poste, Araujo sofreu uma forte lesão, vindo a óbito imediatamente. 

Revolta popular ocorrida na época / Crédito: Divulgação 

 

Após o acidente, novamente a mídia voltou a falar de Araujo e o estado de sua saúde mental foi questionado. Na época, segundo médico legista do condado de Dade, Valerie Rao a jovem "tinha um nível de álcool no sangue quase três vezes o nível em que uma pessoa é considerada legalmente bêbada quando perdeu o controle de seu carro no sul de Miami", disse o especialista no laudo.  

Valerie Rao disse, ainda, que ela teria passado metade daquele ano em uma clínica de desintoxicação, especificamente em um programa residencial voltado para o tratamento de mulheres com problemas de alcoolismo e dependentes químicas. Aproximadamente dois anos depois, o The Washington Post lançou um artigo sobre vícios em mulheres, referindo especificamente ao acidente de carro de Araujo. 

Produção cinematográfica 

Em 1988, o filme The Accused estrelado por Jodie Foster — que ganhou o Oscar de Melhor Atriz — se baseou na trajetória de Araujo. Neste ano, o brutal crime cometido contra esta mulher foi apresentado em um dos episódios da série documental Trial by Media, disponível na Netflix e intitulado como Big Dan's. 

Neste documentário conciso, os diretores retratam os impactos da transmissão ao vivo do julgamento do caso de Araujo, e questiona, ainda, a irresponsabilidade da comunidade de New Bedford e da sociedade norte-americana como um todo.


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