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A tomada do Reichstag — e do relógio

A mais célebre foto da vitória soviética, em 2 de maio de 1945, foi encenada e uma parte constrangedora foi removida

quarta 2 maio, 2018
Em 2 de maio de 1945, os soviéticos comemoraram a tomada de Berlim
Em 2 de maio de 1945, os soviéticos comemoraram a tomada de Berlim Foto:Reprodução

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Longe da gente querer diminuir a importância da derrocada do nazismo. Mas há que se separar fatos e propaganda. 

Na manhã de 2 de maio de 1945, militares soviéticos comemoraram a tomada de Berlim no topo do Parlamento alemão, o Reichstag. Era um evento puramente simbólico: o Reichstag não tinha qualquer função. Fora abandonado pelo Parlamento após seu incêndio, em 27 de fevereiro de 1933. E a instituição do Parlamento se tornaria inútil no mesmo ano, com a Lei Habilitante, que tornou Hitler um ditador. 

Registrar o momento coube a Yevgeny Khaldei (1917-2007), que tinha nas mãos uma câmera Leica e uma bandeira da União Soviética. Ele armou a cena e tirou 36 fotos. A cena da fotografia aconteceu dias depois da tomada do Reichstag. A bandeira havia sido içada em 16 de abril, mas nenhuma foto foi tirada. Então, o fotógrafo reuniu um pequeno grupo de soldados e recriou a cena.

Foto editada por Khaldei Reprodução

Na hora de revelar as imagens, Khaldei fez alguns retoques. Para dar a entender que a imagem havia sido capturada em meio aos combates, adicionou colunas de fumaça surgindo entre as ruínas.

Foto original Reprodução

O fotógrafo também apagou um dos dois relógios usados pelo militar russo que aparece no canto inferior direito da imagem. Na fotografia original, ele aparece com um relógio em cada pulso. Na retocada, apenas um, no pulso esquerdo.

O relógio extra havia sido roubado dos alemães, e faria mal para a imagem soviética expor um soldado usando artigos roubados. A manipulação também tinha a intenção de proteger o soldado da ira de Stalin, que era contra a pilhagem.

Detalhes mostram o sumiço do relógio Reprodução

Tudo indica que os relógios tinham um significado especial para os soviéticos, como se fossem troféus. Sobreviventes relatam que, quando o Exército Vermelho tomou Berlim, exigia aos alemães: "Uri, uri!" ("Relógios, relógios!").

A fotografia adulterada chegou aos jornais russos em 13 de maio e se espalhou por todo o mundo, como um símbolo da queda do nazismo. Foi só por volta de 1991 que a original veio à tona, quando o trabalho de Khaldei foi reunido e publicado pelo artista alemão Ernst Volland.

Letícia Yazbek

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