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Matérias / Incêndio

50 anos atrás: Como foi o trágico incêndio no Edifício Joelma?

Com mais de 180 mortos, o incêndio ainda é considerado o segundo maior em arranha-céus do mundo, atrás apenas do atentado contra as Torres Gêmeas

Marcus Lopes Publicado em 01/02/2024, às 08h00 - Atualizado em 20/02/2024, às 18h33

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Imagem meramente ilustrativa do incêndio - Divulgação
Imagem meramente ilustrativa do incêndio - Divulgação

"De novo, e muito pior". A manchete da edição extra do jornal Folha de S.Paulo, distribuída no final da tarde de 1º de fevereiro de 1974, sintetiza os fatos daquele dia. Após o terrível incêndio no Edifício Andraus, ocorrido menos de dois anos antes, a cidade de São Paulo enfrentava outro desastre semelhante, mas de proporções ainda muito maiores: o fogo no Edifício Joelma.

Com mais de 180 mortos e centenas de feridos, cinquenta anos depois ainda é considerada a segunda maior tragédia mundial ocorrida em arranha-céus, atrás apenas do atentado contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, nos Estados Unidos, em 2001.

“Foi um evento que entrou para a história da cidade de São Paulo e do Brasil. Primeiramente, pelo número de mortes. E por serem tragédias que se repetiram sempre no mês de fevereiro, em locais muito conhecidos e visitados na cidade”, explica o jornalista Adriano Dolph, autor do livro Fevereiro em Chamas (RG Editores), que resgata a história dos incêndios ocorridos em grandes prédios na capital paulista: Joelma, Andraus e Grande Avenida. Os três aconteceram em São Paulo, por uma triste coincidência, no mês de fevereiro: 1972 (Andraus, com 16 mortes), 1974 (Joelma) e 1981 (Grande Avenida, 17 mortes).

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Capa do livro 'Fevereiro em Chamas' - Divulgação

De todos eles, o Joelma ganhou destaque pela grandiosidade da tragédia, grande número de vítimas, cenas chocantes – em especial das pessoas que, desesperadas, se jogaram das marquises. Também marcou época por conta das lendas urbanas que entraram para o imaginário popular, informações e números que, cinco décadas depois, ainda são discrepantes e variam conforme a fonte.

O número oficial de mortos registrado pelos bombeiros no Edifício Joelma, em relatórios da época, é de 189 vítimas fatais. Outros textos, reportagens e relatórios, porém, trazem 186, 187 ou 188 óbitos, por conta dos desaparecidos. No livro, o escritor contabiliza um total de 181 mortes, com base em documentos oficiais, laudos, fotos e registros, em um trabalho que consumiu 15 anos de pesquisa.

Segundo Dolph, o desencontro de informações é compreensível e plausível por conta das condições do incêndio, dificuldades de trabalho e de coleta das informações enfrentadas na época, em especial pela imprensa, que acabou se tornando uma das principais fontes de registro histórico.

Nenhum meio de comunicação estava preparado para aquilo. Muito menos as autoridades. Tanto a polícia, como os bombeiros, Instituto Médico Legal (IML), prefeitura e hospitais, passaram a divulgar informações absolutamente desencontradas. Hoje, uma tragédia desse tamanho passaria por uma apuração em muitas etapas, tantos de assessorias como de repórteres”, diz Dolph.

Os bombeiros chegaram a relatar camadas de cinzas no interior dos escritórios que podem ser de corpos queimados a temperaturas superiores a 800 graus Celsius. Não existia, naquele período, tecnologia capaz de identificar alguém ou algo nessas condições.

Um segundo aspecto, segundo Adriano Dolph, era a dificuldade em obter as informações durante o regime militar. “A imprensa era censurada. Os números de mortos, por exemplo, variaram de veículo para veículo. Foi baseado em informações imprecisas do IML, da polícia e da observação de cada jornalista. Teve jornal que contou 200 mortos no IML; outros, 191, 189 e por aí vai”, completa.

O fato é que naquela sexta-feira, primeiro dia do mês de fevereiro de 1974 e com a rotina da população retornando ao ritmo normal após o período de férias escolares, São Paulo amanheceu com uma névoa fria e a sua típica garoa. No Centro, que na época concentrava as principais atividades econômicas e financeiras da metrópole paulistana, milhares de pessoas circulavam rápido em direção ao trabalho ou às compras, se esgueirando da chuva fina que caía sobre as ruas.

Questão de minutos

Imagem mostrando incêndio no Edifício Joelma / Crédito: Wikimedia Commons/ Eivind Molberg/ Folhapress 

Por volta das 8h30, as pessoas que passavam pela região da Praça da Bandeira ou instaladas nos prédios próximos notaram uma fumaça que saía de um dos andares do imponente Edifício Joelma, localizado na Avenida 9 de Julho, esquina com a Rua Santo Antônio. O moderno prédio de 25 andares e com duas fachadas laterais – uma para a 9 de Julho e outra para a Santo Antônio – havia sido concluído em 1972 pela Joelma Incorporadora S.A. e alugado ao Banco Crefisul. Mais de 700 pessoas trabalhavam na instituição bancária, que ainda finalizava o processo de mudança e instalação de seus departamentos no Joelma.

A fumaça, que no começo era tímida e branca e depois se tornou negra e espessa, era um princípio de incêndio provocado por um curto-circuito no sistema elétrico, no 12º andar. O motivo da pane teria sido problemas ocorridos durante a instalação do aparelho de ar-condicionado na sala de um dos diretores do Crefisul. O laudo da perícia, realizada posteriormente pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), apontou problemas na fiação no sistema de ar refrigerado naquele andar, localizado bem no meio do edifício.

Era o início do inferno no Joelma. Em questão de minutos, as labaredas de fogo se espalharam por diversos andares e, em pouco tempo, o prédio estava tomado pelas chamas. O farto material inflamável e de fácil combustão – divisórias de madeira, cortinas de pano, papéis, móveis, peças plásticas e pisos acarpetados – contribuiu para o alastramento rápido das chamas pelos outros andares. Além disso, havia botijões de gás nas copas e cozinhas dos escritórios, que explodiram e jogaram para longe pedaços inteiros de paredes, além de alimentarem as chamas.

O alarme no Corpo de Bombeiros, na Praça Clóvis Bevilácqua, próximo à Praça da Sé, soou por volta das 9 horas. A ocorrência registrada era de uma explosão no 12º andar do Edifício Joelma, sem grandes detalhes. Menos de 15 minutos depois, as primeiras viaturas e brigadas de incêndio chegavam ao local. O fogo se espalhava rapidamente pelos outros pavimentos e o pânico tomava conta de quem tentava fugir rumo ao topo do edifício, já que descer era praticamente impossível.

Nesse momento, as primeiras pessoas, em desespero por causa das chamas, da fumaça e do calor intenso, segundo os peritos, começaram a se jogar lá embaixo. Nas ruas, a população, chocada com as cenas, estendia faixas pedindo calma às pessoas que se amontoavam nos parapeitos e que elas seriam salvas. No asfalto da 9 de Julho, foi pintada em letras garrafais e enormes a palavra... "CALMA".

Calma? 

Logo no início, os bombeiros enfrentaram diversas dificuldades que atrapalharam os trabalhos – e, claro, o resgate das vítimas. Apesar de possuir uma caixa d’água com capacidade para 40 mil litros, os registros estavam fechados e os hidrantes do prédio, inexplicavelmente, não funcionaram, obrigando a utilização de caminhões-pipa de órgãos públicos e particulares. Os ventos eram desfavoráveis. As escadas giratórias Magirus, típicas para brigadas de incêndio, só chegavam até o 16º andar, dificultando o resgate nos andares superiores, para onde as pessoas corriam ou se escondiam da fumaça e do fogo. Isso provocou a perda de um tempo precioso na operação e, provavelmente, custou muitas vidas.

À medida que as chamas avançavam pelo interior da construção, mais combatentes eram convocados. Foram mobilizadas praticamente todas as unidades do Corpo de Bombeiros da capital e municípios da Grande São Paulo, como Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. No total, segundo Dolph, atuaram 318 homens e 26 viaturas. Destas, muitas não estavam devidamente preparadas para o trabalho de combate ao fogo, pois eram utilizadas em serviços auxiliares, como aulas práticas na escola de bombeiros.

Fomos em um caminhão muito simples, nem rádio ou sirene ele tinha, pois servia à escola de bombeiros. Naquela época não havia telefone celular e as informações eram apenas de um incêndio grande. Só quando atravessamos o Viaduto do Chá tivemos noção do tamanho da encrenca”, lembra o coronel Nilton Divino D’Addio, que entrou para o Corpo de Bombeiros em 1968 e exerceu diversas funções até 1999, quando passou para a reserva.

D’Addio esteve presente nas operações do Andraus, que fica na região da Praça da República; Joelma e Grande Avenida, na Avenida Paulista. No Joelma, ajudou no resgate e socorro às vítimas no interior do prédio. O militar lembra das dificuldades enfrentadas e a carência de recursos na época para a execução de um bom trabalho. Praticamente tudo era feito na raça e na coragem, segundo ele. “Na época, não tínhamos recursos e equipamentos que permitiam uma boa avaliação do local, como seria normal hoje”, ressalta.

As vítimas eram levadas para as garagens do Joelma, que ficavam nos andares inferiores, onde eram rapidamente levadas pelas ambulâncias para o Hospital das Clínicas e outros hospitais. Um pronto-socorro improvisado foi montado no prédio da Câmara Municipal, que fica próximo ao Joelma, no Viaduto Jacareí. Os vereadores voltariam do recesso parlamentar naquele dia, mas a sessão foi suspensa, os funcionários dispensados e os trabalhos concentrados no auxílio às vítimas.

Não apenas o Legislativo Municipal, mas a cidade inteira parou. A Bolsa de Valores de São Paulo suspendeu o pregão e grande parte do comércio do Centro baixou as portas. O trânsito travou. “Para acompanhar o incêndio, algumas pessoas chegaram a desligar seus carros, deixando-os no meio da rua”, lembra Dolph. O Departamento de Operação do Sistema Viário (DSV) conseguiu organizar a desobstrução das vias na região central, o que ajudou no deslocamento das ambulâncias. Pelo ar, helicópteros sobrevoavam a região em manobras arriscadas para tentativa de pouso e resgate no topo do arranha-céu em chamas, para onde haviam corrido dezenas de pessoas e que aguardavam a chance de viver.

Ao contrário do Andraus, porém, o Joelma não tinha heliponto. Esse foi um dos motivos para o número de mortes no Andraus ter sido bem menor, pois dezenas de pessoas conseguiram ser resgatadas pelo ar. O outro foi a direção dos ventos, mais favorável no sinistro do Andraus. Mesmo assim, mais de 80 pessoas conseguiram ser retiradas pelo terraço no Joelma. Outra técnica utilizada pelos bombeiros foi a ligação com cordas, como uma tirolesa, com os prédios vizinhos, por onde as pessoas também eram levadas, com vida.

Cidade traumatizada 

Após uma longa batalha dos bombeiros, o fogo só foi controlado no meio da tarde, em parte porque não havia mais nada a ser queimado no interior do prédio. Mas o estrago estava feito e a maior cidade do país, traumatizada. Muitos ainda se lembram do acontecimento quando passam pela Avenida 9 de Julho. Nos anos seguintes, o prédio foi totalmente reformado e reinaugurado com o nome de Edifício Praça da Bandeira. Durante muito tempo, porém, a edificação ficou vazia à espera de inquilinos. Apenas no final do século 20 o Joelma começou a ser reocupado novamente por empresas e sedes de partidos políticos.

Na ocasião do incêndio, o relatório elaborado pelo Corpo de Bombeiros mostrava a dimensão daquela que, ainda hoje, é considerada a maior tragédia de São Paulo envolvendo fogo: “Das 750 pessoas que trabalhavam no Joelma, 189 perderam a vida. A maioria, jovens bancários do Banco Crefisul. Vinte pessoas saltaram dos andares em chamas. Foram contadas 385 pessoas feridas, encaminhadas a cerca de quinze hospitais da cidade.”

No ano seguinte, em 1975, o incêndio foi julgado criminoso pela 3ª Vara Criminal da Justiça de São Paulo, que considerou as instalações elétricas tão precárias que culpou os responsáveis por omissão, negligência e imperícia. Cinco pessoas – um engenheiro da Crefisul, o gerente de uma empresa de ar-condicionado e três eletricistas – foram condenadas a penas que variavam entre dois a três anos de prisão, com direito a sursis (suspensão condicional da pena).

Outro fato importante está relacionado ao momento político do Brasil. Os órgãos de repressão da ditadura militar, como o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), chegaram a investigar a possibilidade de o fogo ter sido praticado por grupos terroristas subversivos de esquerda. Medidas cautelares de investigação haviam sido adotadas antes, no caso do Edifício Andraus.

Na época, eram comuns telefonemas anônimos alertando sobre atentados a bomba, a maior parte trotes de mau gosto. Um dia antes da tragédia do Joelma, telefonemas do tipo foram disparados para redações de jornais e centrais telefônicas, dando conta de um atentado “de grandes proporções” a ser praticado no Centro de São Paulo. Várias pessoas foram interrogadas pelos agentes da repressão, incluindo as telefonistas da Telesp (estatal de telecomunicações). As investigações, porém, não foram adiante e nada foi concluído a respeito de uma possível motivação política, nos dois casos (Andraus e Joelma).

Foto de 2016 do Edifício Praça da Bandeira, o antigo Joelma / Crédito: João Batista Shimoto/ Wikimedia Commons

Estudiosos concordam que se trata de uma ferida difícil de ser cicatrizada na alma da metrópole. “Mesmo após 50 anos, o incêndio ainda traz as memórias e ecos. Primeiro pelas imagens e vídeos que são absolutamente chocantes e tristes. Essa é a memória emocional e um trauma para muitos que presenciaram a tragédia”, diz o autor de Fevereiro em Chamas. “Até hoje, pessoas passam pelo local e observam a fachada do Joelma com um misto de tristeza, pena, dor”.

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