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Reconstrução do Homem de Cro-Magnon revela doença genética

Aquele que já foi sinônimo para os primeiros Homo sapiens sofria de neurofibromatose

Letícia Yazbek Publicado em 02/04/2018, às 11h50 - Atualizado às 14h39

Cro-Magnon 1: ele não é mais o primeiro
Cro-Magnon 1: ele não é mais o primeiro - Charlier et al. 2018

Ainda se ensina na escola que Homem de Cro-Magnon (em contraste com Homem de Neanderthal) é sinônimo para o ser humano moderno. Ainda está no currículo, mas cientistas não usam mais o termo. Nem de longe é o mais antigo exemplar de humanos modernos, cujos primeiros indícios têm no mínimo 200 mil anos, na África. Cro-Magnon é a apenas o europeu mais antigo. 

Um novo estudo, feito por uma equipe de cientistas franceses e publicado no Lancet revelou a face do Homem de Cro-Magnon original, descoberto em 1868. E, supresa, ele tinha rosto coberto por nódulos, causados por uma doença genética.

Charlier et al. 2018

Cro-Magnon 1, como é chamado, viveu há cerca de 28.000 anos. Foi encontrado na em uma caverna (cro em ocitano) na propriedade de monsieur Magnon. Outros fósseis, de 40.000 a 10.000 anos de idade, foram encontrados posteriormente na Itália, mas o nome permaneceu. 

Pesquisas antigas já haviam revelado a presença de marcas e deformidades na superfície do crânio do primeiro homem de Cro-Magnon – mas acreditava-se que elas foram causadas milhares de anos depois de sua morte, por impactos e deterioração. Agora, devido ao aniversário de 150 anos da descoberta do fóssil, o crânio foi reexaminado. Uma análise computadorizada mostrou o osso em 3D, permitindo que os pesquisadores estudassem cada detalhe.

Detalhe das marcas no crânio Charlier et al. 2018

A investigação resultou em um novo diagnóstico: o homem sofria de uma neurofibromatose do tipo 1, uma doença genética que provoca o surgimento de tumores benignos, tanto superficiais como profundos, além de manchas na pele, causadas por células nervosas. “Uma lesão na testa corresponde à presença de um neurofibroma, que teria desgastado o osso”, afirma o legista e antropólogo Philippe Charlier. A equipe também descobriu que o canal auditivo esquerdo provavelmente foi danificado por um tumor que cresceu.

Homem tinha o rosto coberto por nódulos Charlier et al. 2018

Com o diagnóstico em mãos, os cientistas fizeram uma reconstituição realista do rosto do homem, levando em consideração sua idade e a doença. O processo revelou um rosto cheio de tumores – um grande na testa, alguns menores perto das sobrancelhas e outros ao redor do nariz.