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Tito de Alencar Lima, o padre que suicidou-se após ser torturado por Fleury

“É melhor morrer do que perder a vida”, escreveu o ex-preso político em um bilhete antes de tirar a própria vida

Victória Gearini Publicado em 18/01/2020, às 17h30

Tito de Alencar Lima
Tito de Alencar Lima - Wikimedia Commons

Tito Alencar Lima foi um padre que lutou ao lado da Aliança Libertadora Nacional (ALN), comandada por Carlos Marighella, com o objetivo de combater a ditadura militar no Brasil. Tito acabou sendo preso e torturado, o que lhe acarretou diversos problemas posteriores.

Em 1969, Tito foi preso durante a operação Batina Branca, comandada pelo delegado Fleury. Na madrugada do dia 4 de novembro, diversos frades dominicanos do Convento das Perdizes, localizado em São Paulo, foram presos e enviados para o Dops, onde foram torturados.

Lançada pela Editora Civilização Brasileira, a obra Um homem torturado: Nos passos de Frei Tito de Alencar, de Clarisse Meireles, reúne documentos e relatos das atrocidades vividas pelo frade. Segundo frei Oswaldo Rezende, o papel dos padres era ajudar a esconder os militantes perseguidos. Os dominicanos acreditavam que o Evangelho deveria ser usado a favor da justiça social, mas vale ressaltar que eles não atuavam ativamente na luta armada, ou seja, não pegavam em armas.

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Carta escrita por Tito / Crédito: Domínio Público

Para construir a narrativa histórica, Clarisse Meireles reuniu mais de 30 depoimentos, entre eles do psiquiatra francês Jean-Claude Rolland. O médico acompanhou os últimos momentos de vida do ex-preso político e afirmou na obra que as torturas sofridas pelo frade acarretaram fortes danos psicológicos e emocionais.

Durante o conflito, era comum militantes sequestrarem figuras importantes para que, em troca, o militares libertassem os presos políticos. O diplomata suíço Giovanni Enrico Bucher foi umas das figuras capturadas e em troca escolheram Tito para ser libertado.

Em 1973, Tito foi exilado em um convento da vila francesa de L'Arbresle. Clarisse Meireles entrevistou frei Oswaldo Rezende, que lutou ao lado do padre em 1969 e o reencontrou no exílio anos mais tarde.

“Ele era alegre, tínhamos boas conversas. No exílio, quando nos reencontramos, já não o reconhecia. Havia algo de diferente em seu olhar”, relata frei Oswaldo Rezende.

Frei Tito Alencar foi torturado nos porões do Dops pelo delegado Fleury e posteriormente pelo capitão Albernaz. Entre os colegas freis, ele foi o único a ser torturado diversas vezes.

Delegado Fleury, torturador de Tito Alencar Lima / Crédito: Wikimedia Commons

 

No dia 10 de agosto de 1974, Tito foi encontrado morto em seu quarto, pelo amigo frade francês Xavier Plassat. O ex-preso político suicidou-se, amarrando uma corda em seu pescoço. Segundo Xavier Plassat, ao lado do corpo havia uma carta com a seguinte frase escrita: “É melhor morrer do que perder a vida”.

Segundo Jean-Claude Rolland, o que o motivou a tirar a sua própria vida foi o distanciamento do Brasil e os traumas que sofreu durante as intensas torturas.

“Ouço gritos vindos de lá. São do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Ele está torturando meus irmãos e prometeu que vai terminar pela minha mãe”, disse Xavier Plassat, que presenciou um de seus momentos de delírio.


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