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Madame Satã, o transformista que abalou a sociedade carioca no século 20

Dividindo seu tempo entre os palcos e a prisão, o artista se tornou um símbolo LGBT na noite do Rio de Janeiro

Wallacy Ferrari Publicado em 11/08/2020, às 10h29

Madame Satã em retrato fotográfico
Madame Satã em retrato fotográfico - Wikimedia Commons

Nascido em Glória do Goitá, em Pernambuco, no dia 25 de fevereiro de 1900, João Francisco dos Santos seria pouco conhecido por seu nome de batismo ao longo da vida. Também não se alinhou as origens; tornou-se, ao longo da juventude, um símbolo da boemia carioca depois que passou a residir no Rio de Janeiro, em 1907.

Criado em uma família pobre com outros 17 irmãos, transcrevia as dificuldades familiares em pequenos delitos ainda quando adolescente, mas abusando de um carisma carregado na ironia e extroversão. Vivendo na Lapa, tornou-se uma figura conhecida localmente durante a primeira metade do século 20, principalmente por brigas.

Aprendeu cedo a arte da capoeira, se metendo em diversas brigas com frequentadores de bares e, principalmente policiais. Em 1971, chegou a justificar em entrevista ao jornal O Pasquim, que costumava brigar com militares por não aceitar o tratamento que os mesmos tinham com pessoas negras, pobres e homossexuais — três características que ele tinha.

A atuação na noite

Antônio chegou a trabalhar de segurança, garçom, cozinheiro em casas noturnas e ser capoeirista nas horas vagas, mas foi no teatro que se adequou com maior facilidade. Ao mesmo tempo que fazia questão de ser regrado em ensaios, contrastava com um comportamento enérgico nas ruas. Em 1928, chegou a atirar contra um vigilante noturno chamado Alberto, que durante a queda bateu a cabeça e faleceu.

Apesar de absolvido, a pena foi uma das primeiras que o artista acumulou, junto de 29 outros processos posteriores — incluindo 13 agressões e 3 homicídios — que totalizaram 27 anos preso em diversas épocas de sua vida. O sossego surgiu parcialmente em 1938, quando passou a ser elogiado e premiado pela fantasia que montou no bloco de rua ‘Caçador de Veados’. A vestimenta, nomeada Madame Satã, seria um símbolo da inserção artística de Antônio.

Madame Satã no palco durante apresentação de monólogo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Apelidado com o mesmo nome da fantasia, passou a ser figura frequente nos carnavais cariocas, mas continuou sendo preso por brigas e pequenos delitos. Para diminuir os problemas com intrigas regionais, viajou para São Paulo na década de 1940, mas foi novamente preso por atirar em um policial. Retornou ao Rio quando completou 50 anos de idade, decidido a fazer seu primeiro espetáculo.

A consagração da figura

Como artista teatral, passou a realizar imitações de Carmen Miranda e apresentações como transformista, sendo um dos símbolos nacionais da cultura drag. Apesar de ser assumidamente homossexual, a mescla da personalidade viril masculina com os traços externos repletos de brilho construíram a imagem influente.

Em seu livro de memórias, escrito por Sylvan Paezzo, o artista compartilhou que não tinha problema em ter relações com mulheres, mas que gostava “mais de ser bicha”. Aos 34 anos, mostrou seu lado familiar; casou-se com a amiga Maria Faissal e, juntos, adotaram 6 crianças, sendo a primeira uma criança de rua. De acordo com ele, a educação e o amparo parenta formou uma funcionária pública do Ministério da Justiça e um delegado de Polícia.

Em seus anos finais, comparecia em todas as homenagens que lhe dedicavam, sempre de maneira calma e bem menos agressiva que em sua juventude. Internado como indigente em um hospital em Angra dos Reis, foi reconhecido pelo cartunista Jaguar e levado para uma clínica médica de alto padrão, onde um câncer em estado grave foi identificado. Morreu meses depois, aos 76 anos de idade.


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