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Todas as vezes em que a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart foi presa

Em entrevista de 2010, a viúva do ex-presidente João Goulart, que morreu neste dia em 1976, relembra da vida na capital e no exílio

quarta 5 dezembro, 2018
Maria Thereza e João Goulart
Maria Thereza e João Goulart Foto:Reprodução

Foram alguns meses de tentativas por intermédio, primeiro, da filha, Denize; depois, do filho, João Vicente, até que, em 2010, fosse marcada a entrevista com Maria Thereza Fontella Goulart, viúva do ex-presidente João Goulart. Segundo o filho, Maria Thereza, que atualmente tem 78 anos, não gosta de dar entrevistas. Mas foi com extrema simpatia que a primeira-dama mais bonita que o Brasil já teve recebeu a equipe de Aventura na História, no apartamento de Denize, na zona sul do Rio de Janeiro. Ao lado dos dois herdeiros e das netas Isabela e Bárbara, ela relembrou seu passado e deu vivas ao presente. “Hoje vivo para os meus oito netos”, diz.

Cercada de porta-retratos, a matriarca chamou a atenção para a foto do ex-presidente segurando o neto mais velho, Christopher, no colo, apenas dois meses antes de morrer, em 6 de dezembro de 1976. “Ele mostrava esse retrato para todo mundo, estava muito feliz por ser avô”, contou ela, sentada ao lado da famosa fotografia em que está junto do marido no comício da Central do Brasil, no Rio, em 13 de março de 1964, poucos dias antes do golpe que depôs Jango e instaurou a ditadura militar no Brasil.

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Nessa entrevista, Maria Thereza rememora o início do namoro com Jango, ainda na adolescência, quando tinha apenas 14 anos. Revela que ele morria de ciúme dos namorados da filha, fala da solidão do marido no exílio e comenta as vezes que ela própria foi presa no exterior e no Brasil. Durante o encontro, ela não quis falar a respeito das circunstâncias da morte do ex-presidente, porque o assunto a deprime. Só admitiu a dúvida sobre a causa mortis do marido em outra ocasião, por telefone. Foi nesta segunda longa conversa com a repórter que ela fez as confissões que estão na reportagem de capa.

História – O que a senhora mais lembra do comício da Central do Brasil?

Maria Thereza – Participei de outros comícios, na campanha de 1962, mas aquele foi o comício das reformas de base, um marco daquele momento da política nacional. Até me assustou de tão grande, tão intenso. Eu sabia que era um momento difícil, havia avisos de atentados. O médico dele tinha proibido aquele comício, Jango tinha problemas no coração. Os militares já haviam tentado negociar o fechamento do Congresso e a prisão de líderes sindicais e políticos em troca de se manter no poder. Mas meu marido era um democrata, nada o faria se afastar de seus princípios. “Presidência é destino”, ele dizia. Preferiu cair, mas cair de pé. Esse dia, o do comício, eu vou levar comigo para sempre. Foi ali que aprofundei minha admiração pelo caráter do meu marido, que entendi que o Brasil o merecia. Foi ali que ele se tornou um mártir da democracia no nosso país.

Como foi aquele 31 de março de 1964?

Foi um dia difícil. Não somente para nós, mas para todo o povo brasileiro. Meus filhos não sentiram de perto, eram pequenos. Somente mais tarde entenderam a situação difícil, principalmente para seu pai. Cresceram no exílio, em outras terras, longe dos amigos e de sua pátria.

De que forma o exílio os abalou?

Para Jango, que dedicou a vida a uma causa, o desterro foi a solidão. Ele teve que conviver com isso até a morte. Até hoje não consigo passar perto daquela ponte em Uruguaiana [na fronteira do Brasil com a Argentina]. Lembrar-me de meu marido passando ali dentro do caixão me traz à memória velhas imagens difíceis de recordar. Para mim o exílio foi mais ameno. Eu tinha que me dedicar aos meninos. Não senti tanto. Meus parentes iam me visitar, as irmãs de Jango também. Amigos, só os políticos exilados lá, Darcy Ribeiro, Waldyr Pires... Formamos uma tribo de exilados. E fomos bem acolhidos pelo povo uruguaio, que tinha orgulho de ter dentro de seu país o presidente do Brasil. O Uruguai se tornou nossa segunda pátria.

Como era a vida no exílio?

Jango dizia uma frase que a gente lembra sempre: “O exílio é uma invenção do demônio”. No começo, a tranquilidade democrática do Uruguai nos protegeu e nos sentimos em paz. Mas os golpes sucederam-se em outros países latino-americanos, inclusive no Uruguai. A perseguição tornou-se então implacável.

Por que a senhora foi presa?

Fui presa em tudo quanto é lugar, Uruguai, Argentina, Brasil... Na primeira vez fiquei detida três dias no Uruguai. Lá existia a Lei da Veda, que proibia durante 15 dias de cada mês o comércio e o consumo de carne, para sobrar mais para a exportação. Meu marido tinha um frigorífico em Maldonado. Uma vez fui da fazenda para Montevidéu com 6 quilos de carne no carro, colocadas por um empregado. Passava de meia-noite e policiais me mandaram parar: “O que tem aí?”, perguntaram, armados. “Nada”, eu disse. Mas viram a carne. Fiquei num posto da polícia em La Floresta. Já era época da ditadura. Da outra vez, no Uruguai, fui levar uma amiga da minha filha, Denize, em casa, e me pararam. Tinha esquecido os documentos em casa, aí me levaram para a delegacia. Foi rápido, um dia só. Na Argentina, um amigo foi preso e estava dirigindo um carro no meu nome. Fui chamada e passei algumas horas detida. No Brasil foi pior. Foi por ser mulher dele. Em 1970, época mais complicada da ditadura, meu pai estava muito doente. Vim visitá-lo. Viram meu nome no passaporte e me prenderam. Passei por muitos interrogatórios, “tira a roupa, bota a roupa, tira a roupa, bota a roupa”. Fiquei três dias incomunicável.

Mas a senhora foi torturada?

Não tocaram em mim. Tortura, só mental. Mas foi muito cruel. Muito.

Vocês achavam que voltariam logo para o Brasil?

Certa vez Jango me disse: “Teca (era assim que ele me chamava desde que me conheceu), às vezes acho que tu vais voltar para o Brasil viúva e avó”. Foi o que aconteceu!

Como era o Jango marido e pai?

Ele era supercarinhoso com os filhos. Um amigo na época até comentou: “Já reparou como toda vez que o Jango está com os meninos abre sempre um sorriso enorme?” Ele era grudado com o João Vicente. E com Denize, depois que ela ficou mais velha, ele era muito ciumento. Não conheceu um namorado dela, não admitia! Ele não era nada romântico. Até mandava flores, dava presentes, me elogiava... Mas tinha aquela coisa do gaúcho de determinar como as coisas deveriam ser. Era muito conservador.

Quando a senhora voltou para o Brasil?

Dia 6 de dezembro de 1976, para enterrar meu marido. De vez, só em 1980.

É verdade que a senhora teve que lutar para receber pensão?

Sim, foram 12 longos anos. Entrei na Justiça junto com dona Sarah [Kubitschek] e com Yolanda [Costa e Silva]. Há seis anos consegui começar a receber.

Durante o exílio, seus bens foram confiscados? Seus objetos foram recuperados?

Os bens patrimoniais do meu marido foram confiscados por meses, até terminarem os inquéritos instaurados pelos militares. Tiveram que lhe devolver tudo. Jango nunca teve empresas ou ações em seu nome ou no de terceiros. Como ele disse numa entrevista, “podem investigar à vontade, pois meu patrimônio é límpido como o céu do Rio Grande”. Sua declaração de renda sempre foi na pessoa física. O mais hilário nos processos de malversação de fundos contra ele, que ainda respondia quando morreu, é uma parte sobre mandar pintar nosso apartamento com em torno de 30 litros de tintas Novocap. Isso é que é corrupção, né? Não tinham nada para falar dele. Agora, os meus pertences sumiram todos: carro, joias, roupas... Viajei com meus filhos para o exílio com pouco mais que a roupa do corpo. Perdi tudo, nunca mais tive notícia de nada.

Maria Thereza Fontella Goulart Reprodução

A senhora gosta de ser lembrada como a primeira-dama mais bonita do Brasil?

Quando a gente é jovem, tudo é bonito. O governo era formado por homens muito jovens, era cheio de glamour. Jango era um homem lindíssimo! Waldyr Pires, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, todos eram bonitos. Era um governo de gente jovem.

Mas e a senhora, dona Maria Thereza?

Olha, eu era muito jovem... É claro que me sentia lisonjeada com os elogios. Imitavam meu penteado, aquele coque, então... Como eu já disse antes, o Brasil vivia um momento de mudanças na moda, cinema, música... Eu procurava estar à altura de meu marido, que tentava mudar o país.

Jango completaria 89 anos dia 1º de março. Como a senhora imagina que ele avaliaria o Brasil?

Com tristeza, sem dúvida. O Brasil que ele sonhava era justo e solidário. Talvez seja possível, mas ainda está longe de ter oportunidades para todos, de maneira igual, como ele imaginava.

Na época do golpe, Jango chegou a ser informado da presença da CIA no Brasil?

Esse é o meu grande desafio, dos meus filhos e dos meus netos, para contar e recontar essa triste passagem de nossa história, para restaurar a verdade dos fatos. A grande atitude de Jango foi não ter resistido ao golpe. Ele não quis derramar sangue dos irmãos brasileiros para se manter no poder. Ele sabia que existia uma frota americana em águas brasileiras, equipada com armas, mísseis e marines. Certamente não era para proteger meia dúzia de cidadãos americanos na embaixada. A esquerda radical o chamava de titubeante e a direita, de despreparado. Ele foi, isso sim, um mártir da democracia. Teve peito e consciência para trazer para si o ato de não resistir. Foi o único presidente a morrer no exílio sem trair suas convicções democráticas. Sou orgulhosa dele!

A senhora começou a namorar Jango aos 14 anos. Ele já era ministro do Trabalho. Como foi isso?

Isso dá um filme. Eu morava do lado dele, em São Borja, mas só o conhecia de ouvir falar e ver de longe. Ele já era um político importante, uma personalidade. Minhas amigas comentavam, “oh, como ele é lindo!” Foi quando, a pedido de um amigo comum das famílias, fui à casa amarela, onde os Goulart moravam, entregar uma carta para ele. Ele perguntou: “Como é que eu nunca tinha visto uma moça tão bonita tão perto da minha casa?” Foi aí que o conheci, mas só começamos a namorar depois, em Porto Alegre, onde eu estudava. Minha tia era casada com um irmão do doutor Getúlio [Vargas], o Spartaco. Eu era interna no colégio e só tinha autorização para ir à casa dela. Quando ela se mudou para o Rio, passei a ter autorização para ir à casa de um outro político, que o Jango também freqüentava. Os encontros aumentaram e surgiu o namoro. Quando ele ia ao meu colégio, minhas amigas ficavam de longe: “Aí vem o homem, aí vem o homem!” Ele ficou sendo “O Homem”. Nós tínhamos uma parede onde colamos fotos de Gregory Peck, Elvis Presley... Aí elas colaram a dele! Dancei a valsa com ele na minha festa de 15 anos, no Rio de Janeiro. Já namorávamos. Na primeira e memorável campanha a vice-presidente da República, nos casamos. Eu já tinha 17 anos. Naquela época se votava separadamente para presidente e para vice.

Quando a senhora soube que seu marido assumiria o país, tinha noção do que era ser primeira-dama e das obrigações do presidente?

Jango sempre dizia que a presidência da República não era vontade, e sim destino. É bom que eu repita isso, porque naquele momento ele exercia pela segunda vez – relembro às novas gerações, pela segunda vez eleito com toda a legitimidade constitucional – sua tarefa de vice, havendo inclusive derrotado o senador Milton Campos, que era o candidato da chapa do Jânio. Era presidente do PTB, que elegera a maior bancada do Congresso Nacional. Naquele momento, mesmo jovem, me preparei para estar sob os holofotes, que viriam a ficar ainda mais fortes sobre a mulher de um presidente jovem e nacionalista. Jango representava o pedido das classes populares de transformação, mudança, esperança de um país jovem que desejava sua emancipação. Isso era uma coisa muito importante na personalidade dele, e eu gostava muito disso. Ele era uma pessoa profundamente preocupada com a área social, com coisas das quais se fala até hoje. Isso me encantava.

Flávia Ribeiro


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