Pérsia, o império multicultural

Inimigos de guerra e com costumes diferentes, os gregos queimaram o filme do Império Persa

Sérgio Cauti

A batalha entre Alexandre e Dario III, que marcou o fim do império | <i>Crédito: .
A batalha entre Alexandre e Dario III, que marcou o fim do império | Crédito: .
O Império Persa evoca seres bárbaros, cruéis, depravados, decadentes, luxuriosos e corruptos. Se você assistiu a alguns filmes no feitio de 300, por exemplo, que narra
a Batalha de Termópilas, é capaz de acrescentar a essa lista que os soldados persas eram guerreiros de meia-tigela, covardes e que morriam como moscas a um simples berro dos seus inimigos. Mas de onde surgiu essa visão tão negativa e distorcida que temos dos persas e de seu império? Dos gregos, com certeza. Sim, essa era a opinião que os antigos gregos tinham sobre o Império Persa e que, mais de 2 500 anos depois, de alguma forma, ainda persiste no Ocidente.
Para um grego antigo, o infinito mundo da Ásia era a terra do mistério. Uma mistura de terror e fascinação. De lá vinham estranhos cultos, de lá marchou o Exército que durante as Guerras Persas (século 5 a.C.) tinha destruído os povos gregos e contra eles mantido um estado de beligerância que se estendeu por 50 anos. Seus reis eram menosprezados, mas também temidos. De uma das capitais, Persépolis, eram contadas maravilhas. A realidade histórica do Império Persa era um pouco menos fabulosa,
mas, mesmo assim, grandiosa.
“A ideia que temos hoje sobre os antigos persas foi muito influenciada pela divisão ideológica entre o Oriente e o Ocidente. O Oriente era descrito como tradicionalmente governado por déspotas, e o Ocidente formado por democracias de cidadãos livres. As coisas não eram bem assim”, afirma Jamsheed K. Choksy, professor de Estudos Iranianos e chefe do Departamento de Estudos sobre a Ásia Central da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Se os persas não eram um povo intrinsecamente bárbaro e sangrento, também é verdade que não construíram seu império distribuindo flores e doces aos vizinhos.
Os gregos certamente tinham más lembranças do saque e incêndio de Atenas perpetrados pelo rei Xerxes em 480 a.C., após derrotar as cidades-estados gregas, inclusive Esparta.
Nem mesmo a dura vingança conduzida por Alexandre, o Grande, 150 anos mais tarde, apagou a má vontade em relação aos persas. Na ocasião, 330 a.C., Alexandre e seus aliados gregos, além de desmantelarem o Império Persa, também saquearam e incendiaram sua capital, Persépolis.

Do tamanho do Brasil
Mesmo sendo guerreiros e tendo conquistado uma região que, no seu apogeu, alcançou 8 milhões de km², a mesma área que tem o Brasil, os persas exerciam um estilo de política que os diferenciava de seus contemporâneos. “Os persas eram muito tolerantes com as populações conquistadas e até mesmo com seus inimigos”, afirma
o professor Choksy. “Basta lembrarmos de Temístocles, herói do filme 300: A Ascensão do Império, que após comandar as forças gregas contra os persas foi colocado no ostracismo pelos compatriotas. Onde ele se exilou? No Império Persa.” Temístocles, além de ser poupado, continuou sua vida tranquilo e tornou-se governador
de uma província.
Também os judeus tiveram um bom relacionamento com os imperadores persas. Quando Ciro chegou à Babilônia, liberou os judeus que eram mantidos prisioneiros ali e lhes forneceu dinheiro para voltarem à Palestina, refundar seu Estado e reconstruir o Templo. O mesmo Ciro, quando aprisionou Astiages, rei da Média, não lhe tirou a pele ou o empalou, como era costume, limitando-se a exilá-lo. A capital da Média, Ecbatana, teve seus objetos de valor saqueados, mas não houve extermínio da população.
A cidade foi conservada praticamente intacta e reciclada como sede de verão do Império Persa. Esse tratamento complacente e tolerante em relação aos inimigos derrotados permitiu a Ciro alistar em seu Exército os generais e os cavaleiros médios, muito melhores do que os seus, e construir, com outros povos, um império que era fundamentado muito mais nas alianças políticas do que na força bruta. Historiadores consideram que tornar seu reino aberto às influências culturais externas era a “arma secreta” dos persas. Hoje podemos dizer que o Estado persa da Dinastia dos Aquemênidas (559 a 330 a.C.), à qual pertenceram os reis Ciro II, Xerxes I e Dario III, foi uma entidade multiétnica, multilinguística e supranacional. A Dinastia Aquemênida se manteve no poder, mesmo com as conjuras e as revoltas, graças a esse estilo de
governo, até a derrota final para Alexandre, o Grande.
Se o Império Persa foi o primeiro estado multicultural e multirracial da História, as cidades gregas eram culturalmente homogêneas. Era um Estado construído na base da conquista. O império era tão gigantesco e as populações tão diferentes, que os soberanos aquemênidas tinham obrigatoriamente de entrar em acordo com as elites locais. A elas era permitido manter sua religião, sua condição social, econômica e de prestígio e tinham liberdade quase total na administração.
Mas ao mesmo tempo tinham que garantir fidelidade ao “rei dos reis” e fornecer tributos e homens para o Exército. “Não era tolerância, era cálculo político. E deu certo”, diz o professor Pierre Briant, chefe do Departamento de História e Civilização do Mundo Aquemênidas e do Império de Alexandre do Collège de France, de Paris.

Prostrar-se aos reis
O culto persa de Ahura-Mazda, a divindade criadora, se fundiu com o zoroastrismo, originário da remota Battriana, o atual Afeganistão. Essa tolerância religiosa era, ao contrário, ignorada pelos gregos, “nacionalistas” demais para aceitar divindades alheias. Os helênicos não entendiam a forma como o soberano persa se impunha aos súditos. Os costumes gregos eram claros: homens e deuses deveriam estar cada um em seu lugar.
Falar de rei divinizado era para os gregos totalmente impróprio. Um dos choques culturais mais lembrados pelos historiadores entre as civilizações grega e persa era o costume desses últimos de exigir que os súditos se prostrassem diante do imperador. Para os gregos, isso soava como blasfêmia, já que tal gesto de baixar a cabeça até o solo só era concebível diante dos deuses.
As duas civilizações também não compartilhavam a concepção política de poder. A Pérsia se organizava com o rei no topo de uma monarquia dinástica. Os cidadãos de Atenas ou de outras polis gregas eram habituados à igualdade de direitos. “Mas, se você era grego, sua cidadania era muito limitada. Ou você era homem e nascido em Atenas, ou não tinha nenhum direito”, diz Choksy. Mulheres, escravos e estrangeiros pouco valor tinham na democrática Atenas. No Império Persa, ao contrário, homens e mulheres compartilhavam os mesmos direitos em todas as províncias.


Para saber ainda mais

Um governo de fazer inveja
O Exército persa desempenhava papel fundamental no império. A armada multiétnica, que incluía mercenários gregos, era uma máquina de guerra implacável. Mas
o segredo do sucesso era a infraestrutura. A base da grandeza persa eram as estradas, que permitiam uma comunicação rápida, um controle capilar e um transporte de
tropas eficiente. Os mensageiros a cavalo encurtavam as distâncias ligandoas cidades. Foi o primeiro serviço de correios da História. Os soberanos persas não se limitaram a construir estradas e meios de comunicação.
Dario I, reformador incansável, mexeu nas contas públicas. Cada uma das 23 províncias pagava tributos a partir de suas capacidades contributivas. Eram administradas por um sátrapa, o governador persa. “O Império Persa era um Estado muito bem organizado, com os procedimentos administrativos e legislativos uniformizados em todo o território, assim como a língua dos funcionários públicos, o aramaico, falado do Egito até a Índia. Algo inédito pela época e pela extensão do Estado”, diz o professor Pierre Briant. Milhares de cilindros e tábuas com incisões registrando cartas diplomáticas, éditos, recibos de tributos, aquisições de terras e escravos, ordens imperiais aos sátrapas dão uma mostra do alcance da avançada máquina burocrática do governo persa.

11/05/2016 - 08:18

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