Ramos de Azevedo

Ao fundar o maior e mais longevo escritório de arquitetura do brasil, o engenheiro arquiteto deu uma nova cara para São Paulo

Valéria França

O Theatro Municipal, a obra mais famosa de Ramos de Azevedo | <i>Crédito: divulg.
O Theatro Municipal, a obra mais famosa de Ramos de Azevedo | Crédito: divulg.
Em 1886, a três anos da Proclamação da República, as cidades brasileiras não eram lugares em que hoje teríamos prazer de morar. As ruas cheiravam mal. Durante o dia, os bondes puxados por burros – a única opção de transporte público – deixavam no seu rastro uma trilha de fezes dos animais. À noite, a fedentina recebia o reforço das emanações do querosene e do óleo de baleia, que serviam de combustível para os lampiões usados na iluminação noturna. Ruas sujas, falta de esgoto e de água encanada criavam o ambiente perfeito para a proliferação de insetos e de doenças endêmicas. A mais perigosa, a febre amarela, depois de explodir na então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, assolou Campinas, cidade do interior de São Paulo, contrariando a crença de que era um mal exclusivo das cidades litorâneas. Campinas chegou
a registrar 40 vítimas por dia, o que fez metade da população fugir apavorada para o campo.
É no ano de 1886, vindo exatamente de Campinas, que se muda para São Paulo, em companhia de sua mulher, Eugenia Lacaze, o engenheiro Ramos de Azevedo. Nascido em 1851 em São Paulo, porém criado na fazenda dos pais campineiros, Francisco de Paula Ramos de Azevedo aportava na capital com ótimas credenciais. Formado pela Universidade de Gante, na Bélgica, era considerado um talento – o ótimo desempenho acadêmico lhe rendeu uma exposição em Paris antes de voltar ao Brasil. No interior paulista, foi autor de projetos sanitaristas, de igrejas, casas e obras públicas. Além da dupla formação, rara no Brasil, trazia uma nova técnica usada em Paris, a de aliar a forma às funções às quais aquele espaço se destinaria. 
Ramos de Azevedo mudou-se para São Paulo convidado pelo Visconde de Parnaíba, então governador da província. O gestor se impressionou com as obras do jovem engenheiro e arquiteto no interior. Pediu que projetasse a secretaria da Fazenda, no Pátio do Colégio – ponto histórico onde os jesuítas começaram a cidade, em 1554. Ao aceitar o desafio, Ramos de Azevedo dava o primeiro passo para entrar para a História da arquitetura do Brasil. Hoje, pode-se dizer que o engenheiro está para a capital paulista tal como o arquiteto Oscar Niemeyer está para Brasília.

MUDANÇAS URBANAS
Assim como a criatividade de Niemeyer teve espaço privilegiado para expandir-se, como era o da construção de uma capital, Ramos de Azevedo teve a boa fortuna de estar no lugar e na hora certos. A São Paulo do final do século 19 era uma vila feia e acanhada, principalmente quando comparada ao Rio de Janeiro. Resumia-se praticamente a uma colina rodeada por várzeas, com ruas estreitas e sinuosas e casas de pau a pique. Mas, à distância de apenas alguns anos, a cidade passaria por
uma incrível explosão urbana. De acordo com o professor de História da Arquitetura Nestor Goulart Reis, da FAU-USP, a população da cidade mais que quadruplicou de 1890 a 1910. Pulou de 64 mil habitantes para 240 mil. “Ramos de Azevedo chegou no melhor momento político e econômico. São Paulo era o centro da economia cafeeira e os barões do café estavam dispostos a patrocinar o aparelhamento da cidade para que fosse inserida no contexto internacional.
A partir de 1889, com o advento da República, o governo passou a ser um grande facilitador para essas mudanças. Os gestores precisavam de novos negócios para fazer
a nação crescer”, afirma Reis. A sede da secretaria da Fazenda do estado seria o primeiro de uma série de edifícios públicos imponentes, saído do escritório Ramos de
Azevedo, que se inseriu nesse aparelhamento urbano. A secretaria foi construída em ferro e concreto armado, inspirada no estilo mais pungente da época, o neoclassicismo francês, temperado com muito ecletismo.
De 1886 a 1930, Ramos de Azevedo colocaria em pé 32 projetos no centro da cidade. Os mais marcantes são o Theatro Municipal (na atual Praça Ramos de Azevedo, entre 1903 e 1911), Mercado Municipal (Rua da Cantareira, 1922-1933), o Palácio das Indústrias (Parque Dom Pedro II, 1911-1924), Escola Caetano de Campos (Praça da República, 1892-1894) e o Liceu de Artes e Ofícios, atual Pinacoteca (Jardim da Luz, 1897-1900).
“O escritório de Ramos de Azevedo foi o que redesenhou a cidade no mais curto período de tempo”, diz Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora de História da Urbanização da FAU-USP.

ELITE CAFEEIRA
Em 1900, portanto quatro anos depois de se mudar para a capital, Ramos de Azevedo já empregava 500 funcionários. Além das construções em São Paulo e no interior do estado, o escritório participava de todas as grandes licitações pelo Brasil. Ganhou, assim, reputação, principalmente entre a elite cafeeira, que o elegeu para construir
seus palacetes e posteriormente edifícios residenciais nas principais avenidas cariocas, como a Atlântica e a Nossa Senhora de Copacabana, além de outros endereços elegantes do país. Calcula-se que o escritório tenha executado mais de 76 mil projetos ao longo de sua história. O sucesso de Ramos de Azevedo não era apenas com os clientes. Como o escritório concentrava os maiores projetos da época, grande parte dos engenheiros e arquitetos sonhava em trabalhar com ele. E Ramos de Azevedo
escolhia os melhores. Flávio de Carvalho, por exemplo, antes de transformar-se no multifacetado artista modernista, foi engenheiro calculista da equipe. Luís Inácio de
Anhaia Melo (que depois seria prefeito) também trabalhou ali.
Outra parceria se deu com Francisco de Paula Souza, engenheiro formado na Suíça, descendente de uma família de fazendeiros ricos, que ocupou cargos estratégicos, como o de engenheiro-chefe da estrada de ferro que ligaria as cidades de São Carlos a Rio Claro, depois presidente da Câmara Estadual, ministro de Relações
Exteriores e da Agricultura. Amigos, Ramos e Paula Souza fundaram a Escola Politécnica de São Paulo, na Avenida Tiradentes, no bairro da Luz.

HOMEM DE NEGÓCIOS
“Ramos foi um grande empreendedor. Controlava todas as pontas do processo. Fundou a Politécnica e o Liceu de Artes e Ofícios porque precisava de mão de obra qualificada”, conta Beatriz. Também tinha uma excelente rede de contatos, ou, como se diz hoje, um bom network. Além de coordenar o escritório e estar por dentro de todos os projetos, foi indicado a cargos estratégicos, como o de chefe da carteira imobiliária do então Banco União – e ainda ministrava aulas.
“Ramos de Azevedo gostava de lecionar, como se o ensino fosse uma religião. Sua obsessão positivista era transmitir conhecimento, visando o aprimoramento da sociedade”, escreve Carlos Lemos, autor de Ramos de Azevedo e Seu Escritório. Muitas vezes, o engenheiro investiu em tecnologia, tirando dinheiro do bolso, por exemplo, para aparelhar o Laboratório de Tecnologia, que se transformou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), ligado a Universidade de São Paulo. “Ramos foi uma das figuras mais importantes da época”, diz Reis. “Estamos falando de um tempo em que a iniciativa privada patrocinava o crescimento da cidade, orquestrada pelo
governo, que, ao contrário de hoje, sabia exatamente a cidade que queria construir.” As equipes administrativas dos municípios não mudavam com a troca dos prefeitos.
Isso dava confiança ao empreendedor. Ramos de Azevedo chegava muitas vezes a adiantar o dinheiro de algumas obras para não perder o prazo de entrega.

13/05/2016 - 08:18

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