Pichações de mais de dois milênios em tumba de faraó são traduzidas por arquéologos

Turistas deixavam até 'resenhas' da tumba

Thiago Lincolins

Anúbis provavelmente mandaria sua alma ser devorada por Ammit por pichar sua figura | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Anúbis provavelmente mandaria sua alma ser devorada por Ammit por pichar sua figura | Crédito: Wikimedia Commons

Há 2300 mil anos, já havia turismo no Egito. E os turistas de então não deviam ter uma fama muito melhor que a dos modernos.  "O Vale dos Reis já era um ponto turístico na antiguidade. Assim como hoje, os turistas muitas vezes assinaram seus nomes nos lugares que visitaram. Entre as mais de sessenta tumbas nesta área, em pelo menos dez há inscrições feitas por turistas antigos" – diz Prof. Adam Łukaszewicz, arqueólogo do Instituto de Arqueologia da Universidade de Varsóvia, à Agência de Imprensa Polonesa. 

Sua equipe acaba de catalogar e traduzir as mais de mil pichações feitas ao longo de muitos séculos no ricamente decorado túmulo do faraó Ramsés VI, que reinou entre 1145 e 1137 a.C. E o resultado é que eles eram ainda mais parecidos com turistas modernos do seria de se imaginar. 

Os arqueólogos trabalhando na documentação dos registros / Foto: Adam Łukaszewicz 

O túmulo fora visitado por egípcios, gregos, romanos e viajantes de locais mais exóticos, como o príncipe Chosroes da Armênia, no século 4. A maior parte deles está em grego, resultado da conquista do Egito em 332 a.C. por Alexandre, o Grande. Outras, em Latim, após a derrota da última governante grega, Cleópatra, e a absorção do reino no Império Romano.

A maioria dos visitantes, sem muita imaginação, deixava o próprio nome. Um dos que deixou foi general árabe Amir Ibn Al-As - que conquistou um Egito então cristão para o primeiro califado islâmico em 640. "O grande conquistador deixou sua presença registrada em grego, durante o século VII. É uma das maiores inscrições na tumba com as letras medindo 25 cm de altura", diz Łukaszewicz. Ele o fez em grego, não árabe.

Para não serem confundidos, outros visitantes anotavam seu local de origem e ocupação - porque não era crime. Relatos antigos falam de gente vendendo formões para riscar as paredes na entrada dos túmulos. Era parte do apelo turístico.

Outros visitantes foram mais criativos. Deixaram até poesia. Algumas delas foram comparados pelos arqueólogos com um diálogo no Facebook. Uma dizia: "Não consigo ler hieróglifos". Outra, logo abaixo:"Por que você se importa tanto em não conseguir ler os hieróglifos? Não entendo a sua preocupação". 

Os antigos previram não só o Facebook, como o TripAdvisor. Alguns deixavam resenhas: "Eu visitei e não gostei de nada além do sarcófago" (só faltaram as estrelas). Outro foi mais generoso e deixou "Eu admirei" (uma estrela?). 

Em seu favor, os arqueólogos notaram que os visitantes tentavam deixar seus registros sem danificar as decorações presentes na tumba, em espaços em branco. A equipe deve voltar ao Vale dos Reis entre setembro e novembro para analisar todas mais inscrições dos turistas. 


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