Como os índios faziam no inverno?

Teriam eles uma capacidade anormal de aguentar nus um frio de menos de 10 graus?

segunda 23 outubro, 2017
Inuíte canadense com pintura indígena brasileira; algo no meio do caminho
Inuíte canadense com pintura indígena brasileira; algo no meio do caminho Foto:Lomen Brothers

Usavam roupas. 

A resposta é tão óbvia que soa mal-educada. Mas o fato é que o imaginário popular está mal informado. 

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Conforme a antropóloga Tatiane Klein, pesquisadora do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo (USP), os índios que povoam o imaginário comum – aqueles dos tempos de Pedro Álvares Cabral –,  que correspondem a uma ideia de indígenas que "vivem/viviam sem roupa", "são um estereótipo, um preconceito relacionado à imagem de um índio genérico, que ignora a diversidade de povos existente no Brasil e suas culturas". 

Na época das descobertas, os índios brasileiros ficaram tão famosos por andarem nus que acabaram dando origem à ideia do bom selvagem, de que vivessem no paraíso, como nos tempos de Adão e Eva. Mas eles conheciam roupas.  Quando batia a friaca, usavam casacos feitos de peles, palha ou algodão, o mesmo material com que fazem redes. 

E isso de fazerem redes demonstra por que não é nenhum mistério: a tecnologia de fazer tecidos - e roupas - sempre esteve no arsenal tecnológico dos índios do Brasil. Afinal eles, como todos os povos da América, chegaram ao continente através do Estreito de Bering, da Sibéria para o Alasca. Teria sido impossível fazer essa travessia pelo gelo sem roupas. 

Acima, uma imagem de Debret dos botocudos em 1834, Eles viviam no Espírito Santo e ainda assim portavam capas. No quadro, provavelmente cerimoniais, usadas apenas pelos homens, mas certamente viriam a calhar diante de uma frente fria. Há várias outras imagens antigas de índios vestidos. O fato é que, técnica contra o frio,"cada povo tem a sua", como diz Klein. "Em comum, contra as intempéries, seja frio ou calor, estão os conhecimentos astronômicos, meteorológicos e ambientais, que indicam se vai chover, se vai fazer sol, que dão sinais." 

E a técnica não se limita a roupas. A antropóloga lembra que, para se aquecer, os povos como os guaranis (espalhados atualmente em SP, SC, PR, RS, MS e PA), utilizavam e ainda usam técnicas de construção coletiva, chá de erva-mate (que originou o chimarrão dos gaúchos), fogueiras, mingaus etc. Já no caso dos Kaingang (presentes no RS, SC, PR e SP), foram encontradas casas subterrâneas. Os ashaninka, que vivem no Acre, próximo da fronteira com o Peru, quando chegavam as primeiras frentes frias, adotavam uma roupa tradicional, semelhante a um poncho, junto com um cocar específico. 

Onde o friozinho só bate à noite, ficar na aldeia em volta da fogueira, tomando uma com os amigos, pode ser o bastante para dispensar a roupa o ano inteiro. Mas é bom lembrar que mesmo os povos que podem andar sempre nus fazem uso de acessórios como o uluri, o cinto "de castidade" das mulheres indígenas, que elas usam para dizer que não estão disponíveis - e nenhum homem pode tocá-las. O que acontecia e acontece é que não há nenhuma obrigação cultural de usar roupas - ou, melhor dizendo, de tapar o sexo, porque adereços como o uluri, cocares e mesmo a pintura facial são, para propósitos sociais, roupas, cumprindo a função de identificar o povo e o indivíduo. 

Na maior parte do ano e na maior parte do Brasil, esses adereços, fogueiras e sopinhas eram suficientes. Quando e onde não eram, as onças pagavam o pato.

Fábio Marton e Tatiana Bandeira


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