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Pornocracia: O caos no Vaticano

O período tumultuado teve 24 papas e marcou a Igreja Católica como uma das muitas crises na Idade Média

Tiago Cordeiro Publicado em 22/02/2020, às 11h00

Formoso e Estêvão. Por Jean-Paul Laurens, 1870
Formoso e Estêvão. Por Jean-Paul Laurens, 1870 - Wikimedia Commons

Desde o ano 550, o papa não é considerado santo assim que morre, mas precisa ser submetido ao processo tradicional de canonização. Faz sentido - tanto é que, dos 266 papas, apenas 78 são considerados santos. Muitos estavam bem longe disso e chegaram a criar uma tradição de costumes pouco cristãos dentro da Igreja.

Em dois períodos em especial, os sumos pontífices transformaram a Santa Sé num reino bem terreno - e dos mais libertinos. "Quando se consolidou como uma força influente, o papado caiu nas mãos de famílias nobres que dominavam a Itália e queriam usar a influência da religião para expandir seu poder", afirma a historiadora Brenda Ralph Lewis.

A baixaria começou no século 10, o período conhecido, dentro da própria Igreja, como saeculum obscurum - ou, como alguns historiadores preferem, a pornocracia do Vaticano -, marcado pelo controle de famílias nobres em resultado das tensões iniciadas no fim do século anterior. Foi um período tumultuado: entre os anos 872 e 904, por exemplo, a Igreja teve 24 papas, e quatro deles duraram menos do que um ano no posto.

Em 896, Estêvão VII (?-897), resolveu julgar o cadáver do pontífice anterior. Com isso, protagonizou uma das cenas mais bizarras da história do papado. Para o julgamento, ele exumou e mutilou o cadáver do papa Formoso (816-896). Se Estêvão tinha poder para agir assim sem ser questionado, é porque, desde o século 8, a Igreja havia se aliado aos reis francos, Pepino e Carlos Magno, que garantiram aos papas o status de chefes de Estado, com território e exército.

"A pornocracia do Vaticano é conhecida pelos papas jovens, alçados ao poder por nobres influentes, que se comportavam como monarcas sem moral, e não como líderes religiosos", afirma o pesquisador Anura Guruge. No centro desses 60 anos intensos está uma nobre chamada Marosia.

Aos 15 anos, Marosia, reputada como uma bela jovem na época, foi vendida por sua mãe, Teodora, como amante ao papa Sérgio III, papa entre 904 e 911, e que na época tinha 45 anos. Marosia e Sérgio tiveram um filho, Alexandre de Tusculum - que em 931 se tornaria o papa João XI. Sérgio foi encontrado morto, possivelmente envenenado. Seus sucessores Anastácio III e Lando I duraram, ambos, dois anos e meio no posto e morreram em circunstâncias não esclarecidas.

João X (860-928), que veio depois, era amante de mãe e filha, Teodora e Marosia. Irritada por não receber a atenção que queria, Marosia se casou novamente, desta vez com Guido de Túscia. Guido prendeu e torturou João X, deposto do papado em vida para que outro amante de Marosia, Leão VI, assumisse o cargo em 928. Sete meses depois, Leão VI foi assassinado.

Em seguida, o filho de Marosia com Sérgio III se tornou papa, aos 21 anos. Muitas confusões depois, em 955, chegou ao comando da Igreja um neto de Marosia, Otaviano, de 18 anos. O papa João XII entraria para a história por estuprar fiéis, doar cálices de ouro a suas mulheres e dormir com a amante de seu pai e sua própria mãe, tudo dentro das instalações papais. Com sua morte, em 964, a pornocracia acabou.


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