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Bonifácio VIII: O papa ateu

Durante a Idade Média, Bonifácio foi responsável por travar uma disputa de poder com Filipe IV da França e chegou a dizer que “nunca existiu Jesus e a hóstia é só água e farinha”

Alana Sousa Publicado em 18/11/2019, às 20h00

Bonifácio VIII, o papa ateu
Bonifácio VIII, o papa ateu - Wikimedia Commons

Nascido Benedetto Caetani, o Papa Bonifácio VIII comandou a Igreja Católica de 24 de dezembro de 1294 até sua morte, em 1303. Entrou para a História como um dos piores papas, esteve envolvido em conflitos internacionais e declarou seu poder como absoluto.

De origem nobre, Bonifácio nasceu em Roma, em 1235. Ingressou na carreira religiosa em sua adolescência, quando ainda jovem, tornou-se clérigo da catedral de Anagni — comuna italiana onde residia.

Apesar de parte de sua trajetória inicial permanecer um mistério, sabe-se que ele viveu por cerca de oito anos na Inglaterra, e graças a seu tio, o bispo de Todi, conseguiu cargos dentro da Igreja. Realizou diferentes funções na instituição religiosa, entre elas: secretário e fiscal de dízimos. Em 1291, foi nomeado cardeal, constantemente viajava em negociações diplomáticas com a França, Nápoles, Sicília e Aragão.

Até que em 1294, após a abdicação do Papa Celestino V, Benedetto foi eleito papa — e adotou o nome Bonifácio VIII. Existem teorias de que ele estaria envolvido na renúncia de Celestino. No entanto, hoje é senso comum entre os historiadores de que o pontífice apenas mostrou os meios legais para que a abdicação fosse realizada e que era desejo de Celestino deixar o poder.

Após assumir o trono, Bonifácio prontamente ordenou o exílio de seu antecessor, Celestino V, que morreu dois anos depois, aos 81 anos, no castelo de Castelo de Fumone, em Ferentino, na Itália.

Bonifácio VIII / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um hábito comum do papa era o envolvimento em assuntos internacionais. Bonifácio tentou impedir que o rei da Sicília assumisse o trono, após Frederico III recusar a proposta, o líder romano excomungou o monarca siciliano.

Bonifácio VIII promoveu cruzadas na Europa e, após a família Colonna acusar a eleição papal de ter sido fraudulenta, deu início a uma guerra. O papa então, com seu exército — que havia capturado as cidades de Colonna e Palestrina — ofereceu um acordo de paz para as regiões que se rendessem. As tropas da Igreja não cumpriram com o combinado. A cidade de Palestrina foi saqueada e queimada, o que resultou em seis mil mortos. Apenas as catedrais foram poupadas.

BONIFÁCIO VIII X FILIPE IV DA FRANÇA

Bonifácio mostrou-se uma grande ameaça para Filipe IV, da França. Enquanto Filipe centralizou todo o poder em si e instalou impostos sob o clero, Bonifácio defendia a supremacia espiritual dos papas, afirmando que seu poder era maior do que a de qualquer monarca. O pontífice chegou a escrever em um decreto papal que: “é absolutamente necessário para a salvação que toda criatura humana esteja sujeita ao pontífice romano”.

Os conflitos atingiram situações extremas no ano 1301. O papa enviou um documento para o rei defendendo novamente a supremacia papal. Filipe iniciou uma campanha difamatória contra Bonifácio. Guillaume de Nogaret, ministro-chefe do rei, alegou que o líder religioso era um “criminoso herético”.

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Filipe IV / Crédito: Wikimedia Commons

O ano de 1303 foi marcado pela disputa de poder entre Filipe e Bonifácio. Depois de ter sido acusado de ser um criminoso, o papa excomungou todos que impediam a entrada dos clérigos em Santa Sé, incluindo o rei Filipe. Em setembro daquele ano, as tropas do rei invadiram o palácio do papa, em Anagni.

Um dos líderes do exército, Sciarra Colonna, exigiu que Bonifácio renunciasse, este então disse que preferia “morrer antes”. Colonna teria dado um tapa no líder da Igreja, o que entrou para a História como schiaffo di Anagni (tapa Anagni).

MORTE E CULTURA POPULAR  

Levado para cativeiro, Bonifácio, com 73 anos, foi espancado e quase morto, mas depois de três dias foi libertado. Morreu um mês depois de febre, em outubro de 1303. Foi enterrado dentro de três caixões: o externo de madeira, o do meio de chumbo e, o interno, de pinho.

A personalidade do papa é ainda lembrada como explosiva e controversa. Ele teria em um episódio jogado cinzas nos olhos de um bispo que aguardava para receber a benção na cabeça.

Segundo o historiador britânico John McCabe, Bonifácio era ateu e teria afirmado diante de bispos, arcebispos e um rei: "Nunca existiu Jesus e a hóstia é só água e farinha. Maria não era mais virgem que minha própria mãe e não existe mais problema em adultério que em esfregar uma mão na outra".

O famoso poeta italiano Dante Alighieri, retratou Bonifácio VIII como um condenado ao inferno em sua obra Divina Comédia. A simonia (ato de vender ou negociar cargos religiosos ou objetos sagrados) é digna de punição, e por esse crime o papa queimaria eternamente.


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