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Conheça os verdadeiros inventores de 6 descobertas universais

Pitágoras não criou o Teorema de Pitágoras; veja outros cinco inventores e suas falsas invenções

Tatiana Bonumá e Robert Vaindiner Publicado em 19/02/2019, às 10h00 - Atualizado às 10h42

Conheça alguns inventores e suas falsas invenções
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A ideia de que as invenções e descobertas científicas podem alterar o rumo da história é apenas parte da verdade. De fato, os instrumentos, materiais e técnicas que o homem descobriu e dominou lhe deram condições para superar limites, impor-se diante da natureza e dos outros homens. Porém uma olhada mais atenta revela que o que muda tudo é o uso que determinado povo emprega à sua descoberta. Muito do que hoje é creditado aos vitoriosos gregos e romanos, já havia sido experimentado pelos extintos babilônicos e algumas das descobertas comemoradas pelos europeus, eram velhas conhecidas dos chineses.

O que é mais importante: a invenção ou seu uso? O que é mais revolucionário? O que muda, de fato, a história? "A utilização do conhecimento está ligada com o momento histórico e com aspectos culturais do povo que a absorve. Exprime a maneira como ele vê o mundo, o entende e o interpreta", diz Ana Maria Alfonso-goldfarb, especialista em história da ciência e autora do livro Da Alquimia à Química.

Por isso, para ela, não faz muito sentido dizer quem inventou o quê e sim acompanhar o processo pelo qual o conhecimento gerou invenções e descobertas diferentes em cada local, em cada época.


1. Pitágoras

 
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Recupere seus cadernos e consulte os livros de geometria. Em todos eles vai encontrar o Teorema de Pitágoras, que de tão importante mais parece um mantra da trigonometria. Ele emana a seguinte verdade: em um triângulo com ângulo de 90 graus, o quadrado do lado maior é sempre igual à soma dos quadrados dos outros dois lado. Porém, antes mesmo de entender a equação, você saberá responder quem a desenvolveu. Como o próprio nome diz, Pitágoras, um filósofo e matemático grego fez o teorema por volta de 550 a.C.. "Pitágoras e seus discípulos formavam uma fraternidade esotérica, que se dedicava não só ao estudo da matemática, mas também ao ascetismo, que buscava a harmonia do cosmos baseada nas premissas de que tudo existe em conformidade com os números, sendo que a matemática é o princípio de todas as coisas", explica Walter Carnielli, professor de história da ciência, da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo.

Assim, a equação vai além do triângulo e, na época, era mais um exemplo de harmonia entre os elementos. Tudo muito coerente, explicado e comprovado. Segundo Walter, esse é a afirmação matemática que mais recebeu demonstrações - foram feitas 370 provas. Porém, justamente o que parece mais óbvio - o teorema de Pitágoras é de Pitágoras - é o X da equação. "O filósofo grego não foi o primeiro a perceber a relação. Indianos, egípcios e babilônios já usavam essas triplas de números (que formam um triângulo retângulo) há pelo menos mil anos", afirma o historiador Dick Teresi, em seu livro Lost Discoveries (Descobertas Perdidas). Os hindus, por exemplo, os utilizavam entre 800 e 600 a.C., para desenhar triângulos e trapézios, consideradas figuras nobres, nos altares de cemitérios, em reverência aos deuses.

Mas, a prova definitiva de que o teorema era conhecido antes de Pitágoras vem dos babilônios e data de 1800 a.C. "É um pedaço de barro conhecido por Plimpton 322, mantido na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Ali, estão gravados centenas de números alinhados três a três. Para entender a relação entre os números, basta aplicar o teorema do triângulo reto. Um deles, é sempre o quadrado da soma dos quadrados dos outros dois", afirma Walter.


2. Gerhard Mercator

 
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Poucas descobertas deram ao homem tanta sensação de domínio do planeta como o mapa-múndi. Porém, para chegar a um resultado eficaz, estudiosos tiveram que desvendar um enigma: como representar num plano a Terra que é esférica? Gerhard Kremer Mercator, matemático e geógrafo flamengo, ofereceu uma boa resposta, com o método de representação cilíndrica, em 1569. Para entender como ele fez isso, imagine uma luz que parte do centro de um globo colocado dentro de um canudo de papel. A imagem projetada do globo (Terra) no cilindro (mapa) permitiu, pela primeira vez, representar continentes, oceanos e meridianos numa superfície. Foi uma festa para a indústria da navegação.

O método, como não poderia deixar de ser, ganhou o sobrenome de seu inventor e ficou conhecido nos quatro cantos do mundo como "Projeção de Mercator". Procure nos livros didáticos. Mercator será sempre indicado como um importante nome na cartografia (o que realmente ele é!), aquele que deu um passo indispensável para se chegar ao mapa moderno (verdade!) e o primeiro a trabalhar com a projeção cilíndrica (aí o bicho pega!).

Os chineses, ótimos navegadores e acostumados a vencer longas distâncias, já haviam elaborado e aplicado o mesmo conceito há exatos 629 anos. A prova está arquivada na Biblioteca Britânica, em Londres. Um documento chinês de 940 d.C. mostra a esfera terrestre projetada sobre uma superfície, conseguida por meio da mesma técnica de projeção cilíndrica. Quanto ao impulso de desenhar mapas, pode-se afirmar que ela é quase tão antiga quanto o homem. Babilônios, egípcios, gregos e árabes esboçaram o mundo, cada um a sua maneira. O mapa mais antigo que se tem conhecimento é o Mapa de Ga-Sur, de 2500 a.C., encontrado na Mesopotâmia, que representa o Rio Eufrates e os acidentes geográficos ao redor, numa pequena placa de barro que cabe na palma da mão.


3. Geber

 
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Atualmente, os ácidos preparados a partir de minerais, como o nítrico, o clorídrico e o sulfúrico, são de extrema importância. Esse último, por exemplo, é normalmente usado como índice para avaliar o grau de industrialização de um país. Eles são vastamente utilizados nas produções de plástico, borracha e fertilizantes, entre outras coisas. "Grande parte dos historiadores da química atribui a descoberta dos ácidos minerais a Geber, um lendário alquimista que teria vivido no século 13", afirma Maria Helena Roxo Beltran, professora de história da ciência, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. Mas a referência mais antiga dos tais ácidos foi escrita por Vanoccio Biringucci, um artesão de Siena (na atual Itália). Em 1540, ele publicou um livro chamado De La Pirotechia, em que fornece uma descrição detalhada de como obter o que chamou de "águas penetrantes", utilizadas na época para corroer metais.

No entanto, hoje se sabe que os árabes já utilizavam os ácidos minerais no século 9 e, antes ainda, eles já eram conhecidos na Mesopotâmia, em 1700 a.C. "Antigas gravações em pedra mostram que os assírios fabricavam um tipo especial de vidro vermelho que só é possível com a utilização de pequenas quantidades de ouro dissolvido em água-régia, uma mistura dos ácidos minerais nítrico e clorídrico", afirma Ana Maria Afonso-goldfarb.


4. Benjamin Franklin

 
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As pesquisas arqueológicas em Pueblo, no deserto no Novo México, Estados Unidos, já revelou muita coisa importante e polêmica sobre os antigos moradores daquela região, os anasazi. Em 1997, pinturas rupestres datadas do século 7 indicaram que podem ter sido eles os primeiros inventores do pára-raios. Uma técnica extremamente simples, utilizada pelos antepassados dos índios americanos atraía as descargas elétricas, preservando suas cidades de prejuízos. "Eles não colocavam objetos pontiagudos, como altas lanças de madeira, em locais elevados e de grande incidência de raios, como forma de impedir sua propagação", conta Amaury Carruzo, meteorólogo e diretor-científico do Instituto Ciência online de Educação e Cultura.

Se não fossem os anasazi, ainda assim os americanos ficariam com o crédito por livrar casas e prédios dos raios. Na Filadélfia, no fim século 18 " um período fértil nos debates sobre fenômenos atmosféricos " o físico e inventor Benjamin Franklin, ficou famoso por comprovar a natureza elétrica dos raios com uma experiência tão conhecida como perigosa, realizada em 1752. Franklin saiu no meio de uma tempestade para empinar uma pipa, com uma chave presa em sua ponta e conseguiu atrair uma descarga elétrica. Com menos sorte, poderia ter sido carbonizado. Afortunado, acabou inventando " e patenteando " o pára-raios. O instrumento é constituído de um ou mais captores (lanças) de 04 pontas, montado sobre um mastro de metal. Este modelo chama-se captador Franklin.


5. Gutenberg

 
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Quando se fala em técnicas de impressão, uma associação é imediata: o nome de Johannes Gensfleisch, que viveu entre 1399 e 1468. Seu invento consiste em um trabalhoso e elaborado método que ficou conhecido como tipografia. Ele juntava peças de metal esculpidas com letras em relevo, que eram organizadas para formar palavras. As folhas de papel eram colocados diretamente sobre elas e comprimidas contra o metal sujo de tinta. Depois de secar, a página estava pronta. Aí, para fazer páginas diferentes, bastava trocar as letras e as palavras, é claro. O negócio dava trabalho, mas muito menos que escrever tudo à mão. "A técnica dos caracteres móveis e o livro impresso trouxeram novas possibilidades para a difusão de conhecimento numa proporção até então inédita", afirma Maria Helena, da PUC, de São Paulo.

Mas sem desmerecer tanto suor, paciência e dedicação, Gutenberg não foi o inventor da impressão. Mais uma vez, os chineses largaram na frente. Eles dominavam várias técnicas para imprimir textos e imagens, e, desde o século 7, eram impressores compulsivos de calendários, livros sagrados e poesias. O tipo móvel foi desenvolvido pelo chinês Pi Sheng, entre 1041 e 1048, e transformou-se no método mais tradicional pela facilidade em lidar com o material. A destreza chinesa para a tipografia era impressionante, mas invento nenhum seria o bastante para o desafio que tinham pela frente: lidar com a quantidade necessária de tipos móveis para dar conta do idioma chinês. Para um texto escrito no século 12, por exemplo, foram necessários cerca de 400 mil caracteres diferentes. Comparada com a missão dos chineses, nesse aspecto braçal, a missão de Gutenberg parece fichinha.


6. William Harvey

 
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Contestar o conhecimento aceito como verdadeiro pela maioria é sempre perigoso. Durante o Renascimento, então, era um ato de muita coragem e certa dose de insanidade. A época foi marcada justamente pela veneração das doutrinas clássicas e negá-las poderia colocar qualquer um em maus lençóis. A não ser que ele fosse amigo do rei. Esse era o caso de William Harvey, médico inglês casado com a filha do fisiologista da corte, que dedicou sua vida aos estudos do sistema vascular. Em 1568, publicou no livro Exercitatio Anatomica de Motu Cordis Et Sanguinis Animalibus uma descrição precisa do fluxo sanguíneo dos seres humanos e da real função do coração no corpo. "A publicação inicia o método experimental na fisiologia e inaugura o conceito de corpo humano como uma máquina mecânica e hidráulica, concepção que teria seu auge no século 18", diz Luzia Aurélia Castañeda, professora do Centro de História da Ciência, na PUC, em São Paulo. Suas explicações são aceitas até hoje, mas foram agressivamente rejeitadas na época. William incomodou porque desbancou as teorias de Galeno de Pérgamo (131-201 d.C), fisiologista e cirurgião dos gladiadores, que acreditava que o sangue era formado no fígado e que se movia em fluxos e refluxos.

Porém, se na Europa ocidental as ideias de William eram chocantes, na China, elas eram antigas conhecidas. "Eles foram os primeiros a executar dissecações do corpo humano e descreverem corretamente o fluxo sanguíneo em O Livro Clássico de Medicina do Imperador Amarelo, dois mil anos antes da civilização ocidental", diz Carlos Bella, coordenador do Instituto Ciência online.

E, ao contrário do que se pensa, essas teorias não se perderam ao longo da história. Os europeus provavelmente já haviam tomado conhecimento das experiências chinesas no século 13. Contudo, sob a forte influência religiosa, a sociedade européia não parecia estar aberta para novos conceitos. Por isso, apesar da descrição do fluxo sanguíneo não ser propriamente uma novidade, William teve o mérito de incorporar uma experiência alheia para criar uma teoria absolutamente em relação ao pensamento de seus pares.