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Estudo explica como os horrores da escravidão marcaram o DNA das Américas

A análise genética revelou como a história de brutalidade do tráfico transatlântico de escravos se perpetuou por meio de um paradoxo angustiante

Vanessa Centamori Publicado em 28/07/2020, às 12h37

Quadro Redenção de Cam, do pintor espanhol Modesto Brocos
Quadro Redenção de Cam, do pintor espanhol Modesto Brocos - Wikimedia Commons

Um estudo recente feito por pesquisadores norte-americanos mostrou que os vestígios dos horrores do tráfico transatlântico de escravos ainda permanecem no DNA das pessoas que vivem nas Américas. A descoberta foi publicada no jornal American Journal of Human Genetics e engloba o material genético de 50 mil pessoas, entre as quais 30 mil possuem ascendência africana próxima.

Os pesquisadores viram que, entre as pessoas da América Latina e dos Estados Unidos, havia um paradoxo angustiante: nos latino-americanos, a ascendência africana era 5% menor do que nos indivíduos dos EUA; entretanto, a América Latina recebia 70% do tráfico de escravos.

Para explicar essa aparente contradição, os especialistas viram que houve um grande impacto causado pelos horrores da escravidão, que mudou de acordo com a região geográfica.

Os proprietários de escravos dos Estados Unidos, por exemplo, incentivavam que os negros tivessem muitos filhos para terem mais força de trabalho. Porém, os descendentes cresceram reclusos por injustas leis raciais, o que pode ter concentrado os traços genéticos africanos em regiões segregadas. "Mesmo após a escravidão, eles tendiam a segregar pessoas de ascendência africana", contou o líder do estudo, Steven Micheletti.

Quandro de Jean-Baptiste Debret, que mostra família brasileira sendo servida por escravos / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Enquanto isso, na América Latina, havia uma política para enfraquecer o patrimônio africano da população. Exemplo disso é o que ocorreu no Brasil. "No início de 1900, fontes afirmam que o governo brasileiro implementou leis de imigração buscando trazer mais europeus para o país, presumivelmente para ter filhos com mulheres de pele mais escura e reduzir a ascendência africana", apontou Micheletti.

Além disso, as mulheres africanas estavam mais presentes do que os homens no pool genético das Américas, ou seja, na soma de todos os genes presentes na população. Isso surpreendeu os estudiosos, pois a maioria das pessoas escravizadas eram os homens.

A explicação para essa outra contradição, mais uma vez, estava no sistema escravagista: os homens escravos morriam cedo demais para terem filhos e perpetuarem genes; as moças escravizadas, por sua vez, eram frequentemente estupradas ou forçadas a terem filhos.