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Governo da Suécia investiga 2 mil adoções irregulares de crianças chilenas durante ditadura Pinochet

O caso foi exposto pelo jornal sueco Dagens Nyheter, com base em um projeto de pesquisa científica. Entenda o caso!

Pamela Malva Publicado em 05/11/2021, às 17h00

Augusto Pinochet em cerimônia de 1986
Augusto Pinochet em cerimônia de 1986 - Biblioteca del Congreso Nacional de Chile/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Uma reportagem do jornal sueco Dagens Nyheter gerou diversas discussões nos últimos dias ao revelar um suposto esquema de adoções irregulares no país. Agora, o governo da Suécia decidiu investigar cerca de 2 mil adoções de crianças chilenas realizadas durante a ditadura de Augusto Pinochet, segundo informações do G1.

Tudo começou com um projeto de pesquisa científica intitulado “Crianças chilenas adotadas por famílias suecas, proximidade diplomática em tempos de Guerra Fria (1973-1990)". No documento, os pesquisadores responsáveis afirmam que centenas de mulheres chilenas foram obrigadas a colocar seus filhos para adoção durante a ditadura.

De acordo com o jornal, as adoções realizadas no período podem ser classificadas como irregulares e imorais. Isso porque, conforme narrou Karen Alfaro Monsalve, uma das responsáveis pelo estudo, essas mães chilenas nunca tiveram uma escolha.

A rigor, algumas [dessas adoções] foram legais: tem documentação feita por juízes, há assinaturas legais, mas são adoções forçadas porque não foram consentidas pelas famílias biológicas”, explicou a historiadora. “Foram adoções forçadas de crianças pobres, com motivos políticos e diplomáticos. Foram uma forma de controle e repressão da população pobre durante a ditadura militar.”

De acordo com Karen, as mães vitimizadas pelo esquema eram majoritariamente jovens, com idades entre 14 e 18 anos, pobres e solteiras. “Eles levavam seus filhos durante o parto ou sequestravam quando estavam em uma creche, ou quando no momento de uma internação em um hospital público por um problema médico”, narrou.

Nesse sentido, a historiadora explica que até mesmo funcionários públicos, assistentes sociais, advogados, médicos e juízes estavam envolvidos nas adoções irregulares. “É uma forma de transferir crianças pobres para famílias estrangeiras porque o Estado teria que assumir a responsabilidade por elas, e o Estado não estava disposto a investir em crianças pobres", expôs a pesquisadora e professora da Universidad Austral de Chili.

Fotografia de estádio de futebol transformado em 'campo de concentração' por ditadura chilena / Crédito: Domínio Público

 

As motivações políticas

Ainda de acordo com a pesquisa, as adoções de crianças chilenas também tinham uma motivação geopolítica bastante intensa. A ideia, nesse sentido, era reaproximar o governo do Chile com o da Suécia, principalmente depois da eleição de Olof Palme — um grande aliado de exilados políticos das ditaduras sul-americanas — no país europeu.

"As adoções permitiram a proximidade diplomática, especialmente para países onde houve uma ruptura nas relações diplomáticas devido a julgamentos contra violações dos direitos humanos na América do Sul”, narrou Karen. “Essas adoções ocorreram principalmente nos países que receberam um número significativo de exilados chilenos.”

Segundo a professora, o objetivo era "criar uma campanha pró-chilena, baseada na imagem de um país em pleno desenvolvimento, de um Estado que se encarregou dos problemas. E os centros de adoção suecos foram um aliado na disseminação e na limpeza dessa imagem da ditadura no exterior”.

Nos bastidores, o plano de publicidade que enaltecia as políticas de Pinochet foi colocado em prática pela Sociedade Sueco-Chile, que era dirigida por Ulf Hamacher, um ultra-direitista sueco. Tudo isso através do Centro de Adoção da Sociedade Sueca para o Bem-Estar Internacional da Criança Chilena, ainda de acordo com o G1.

Para Karen, uma prova disso é que, na época, o embaixador chileno "fez contato com a liga nacional sueca, com os neonazistas suecos e com toda a ala da direita na Europa para buscar aliados para a ditadura". Foi assim que todo esse contexto se desenrolou.

Expostos os fatos, a minuciosa investigação do governo sueco deve ser finalizada apenas em 2023. O problema é que, ainda conforme explicou Karen, existe “uma série de arquivos secretos relativos a estas relações diplomáticas com a ditadura”.

Ainda assim, apesar da dificuldade em encontrar os documentos, a pesquisadora acredita que “é hora de abrir os arquivos da Guerra Fria para investigar essas dívidas”, já que “é essencial como gesto político iniciar este processo na Suécia". "E esperamos que ela resulte na disponibilização de todas as informações ao público", finalizou Karen.